Pretas Patrícias: MCs Taya e Carol explicam o que é ser uma “afropaty”

Influenciadora Camile Vitória e Aza Njeri, professora de estudos africanos da UFRJ, também comentam o movimento entre negras

atualizado 07/01/2022 17:17

Inspiradas por nomes como Beyoncé, RihannaTaís Araújo, mulheres negras estão se afirmando como afropatys ou pretas patrícias, movimento que tem foco no empoderamento intelectual, emocional e financeiro.

Uma personagem fictícia é ícone desse grupo: Dionne Davenport, do filme As Patricinhas de Beverly Hills, de 1995. Apesar da referência americana, a cultura brasileira avança no tema.

Do Rio de Janeiro, MC Carol lançou a música Afropatys em outubro. A artista foi direto ao ponto em entrevista ao Metrópoles: “Ser afropaty é ser a preta que venceu na vida, tipo Carol Bandida”.

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Essa ideia de que mulher preta precisa ser sofrida é o que os racistas querem que acreditemos. Para eles, incomoda muito ver pretos bem sucedidos, nos mesmos espaços que eles, comprando roupa, carro e casa até mais cara do que a deles”, disse.

A cantora ressalta que os negros merecem esse estilo de vida tanto quanto os brancos. “Quem dera se todas as pretas no Brasil fossem pretas patrícias. Seria um sinal de que todas estão bem de vida, ninguém passando perrengue igual eu já passei.”

Música temática

A estética da patricinha de Beverly Hills Dionne Davenport é lembrada no início do clipe da música Preta Patrícia, lançada em agosto de 2019 por MC Taya.

O restante da produção traz as vivências da MC que se graduou em artes cênicas/indumentária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fez pós-graduação em marketing de moda pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Preta patrícia é uma mulher negra que se coloca com independência, que busca o empoderamento intelectual, financeiro, profissional. É uma nova camada social, mulheres pretas em lugares de destaque. Isso é muito novo, somos a primeira geração”, acredita MC Taya. 

A artista contou que ouviu o termo pela primeira vez em 2016 quando ainda morava em sua cidade natal, o Rio de Janeiro. “Quando mulheres pretas se colocavam nesse lugar, eram chamadas de metidas”, explicou.

Para Taya, no Rio, a desigualdade estrutural se mostra mais marcante. “Existe a mentalidade de que garota de Ipanema é uma loira de olho azul e uma favelada é uma menina preta. O movimento quer falar que também tem menina preta morando na zona sul, em lugares privilegiados socialmente.”

Estética

A influenciadora digital Camile Vitória, 19, faz sucesso no Tik Tok e Instagram falando sobre o que é ser uma afropaty. Também mostra como chegar ao visual digno de uma boneca Barbie preta.

“Mesmo a gente usando bastante lace e peruca, digo bastante que é preciso amar o próprio cabelo, sentir-se bem com o que você está usando e não só pela moda. Não é porque é ‘trend’, você precisa se amar em primeiro lugar”, disse a carioca.

A MC Taya também explicou sobre como o empoderamento estético se tornou uma maneira de expressão para as adeptas do movimento.

“Nós mulheres negras passamos muitos anos com a nossa estética apagada, demonizada, torturada com meios de beleza como alisar o cabelo, ter que fazer plásticas para afinar nariz, para afinar boca, são traumas estéticos”, afirmou.

Outras narrativas

Para a professora doutora de estudos africanos e afrodiaspóricos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio) Aza Njeri, o movimento ressalta o acesso a bens de consumo: “É ainda um resquício de uma mudança política do Brasil nos anos 2000”.

“Estamos muito acostumados a ter uma narrativa de escassez sobre a população negra. Então influenciadores que praticam esse estilo de vida contam uma outra narrativa possível. É bom que as pretas estão ganhando dinheiro, mudando uma semiótica”, disse Aza. 

No entanto, a professora ressalta que existe um aspecto prejudicial para a saúde mental ao expor nas redes sociais um empoderamento ainda distante para muitos. Porém, destaca: “Mas em termos de empoderamento, de disputa de narrativa, elas são imprescindíveis”. 

“A pergunta que precisa ser feita para as que se consideram uma afropaty é o quanto praticam uma agenda neoliberal do feminismo e reforçam o sistema que é capitalista, ocidental, desumanizador, mas isso não desqualifica o pertencimento delas. É só uma discussão crítica”, afirmou.

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