Moda evangélica conquista fiéis consumidores por todo o Brasil

Marcas especializadas no público evangélico adaptam as tendências fashion para fiéis vestirem looks na moda sem desrespeitarem a religião

atualizado 10/10/2021 12:21

Moda evangélicaReprodução

São Paulo – Quando Áurea Otávia Flores começou, em 1990, a produzir as próprias roupas para ir ao culto na Congregação Cristã no Brasil, moda evangélica era sinônimo de saia jeans com comprimento abaixo do joelho. Hoje, a moda evangélica brasileira segue tendências do mundo fashion e movimenta milhões por ano. Mas mantém as características essenciais das peças influenciadas por orientação religiosa: ombros e busto cobertos, assim como pernas à mostra até, no máximo, a altura dos joelhos.

Áurea passou da costureira que costurava em casa, no bairro São Miguel, na zona leste de São Paulo, para fundadora da Joyaly Moda Evangélica que vende para consumidores e lojas do país inteiro e ainda exporta para Estados Unidos, Portugal e Japão.

Ninguém nem imaginava ou sabia o que era moda evangélica. Naquele momento, havia uma escassez muito grande de produtos específicos e ela começou a desenvolver para ela mesma as saias jeans, porque a evangélica mais tradicional tem essa questão de não poder usar calça. Conforme ela frequentava a igreja as pessoas pediam e queriam compras as peças”, contou Alisson Flores, 44 anos, filho de Áurea e diretor comercial da Joyaly.

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No início, Áurea se dedicou para as saias jeans e produzia peças para empresas do Brás, tradicional centro de produção e comércio de roupas na capital de São Paulo. Mas ao longo dos anos  deixou de atender outros comerciantes, focou na produção própria e passou a desenvolver outros produtos.

Atualmente, os vestidos confeccionados em tecidos planos como a viscose são os mais procurados pela clientela da marca. Eles custam, no varejo, cerca de R$ 400.

Ao mês, 30 mil peças são vendidas para o Brasil – principalmente, para São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Cuiabá e Recife, e para o exterior. “Neste ano nosso crescimento vai ser de 30% em relação ao ano passado”, afirmou Alisson. 

Moda comportada

Cilfarney Ávila, 58 anos, diretor da Sol da Terra, começou a produzir roupas femininas em 1999. Mas descobriu o caminho a seguir quando percebeu o sucesso alcançado pelas peças mais comportadas na Feira da Lua, realizada na Praça Tamandaré, em Goiânia.

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“Decidi seguir essa tendência direcionada para uma moda mais comportada”, contou Ávila, que é católico.

Após a decisão de focar no público evangélico, o negócio de Cilfarney cresceu e passou a atender ao polo comercial da Avenida Bernardo Sayão, em Goiânia.

Hoje, além da marca Sol da Terra, Ávila também é dono da Verone, que produz roupas evangélicas para o público teen. A empresa tem três lojas físicas em Goiânia – duas de atacado e uma de varejo. Também mantém dois sites de venda (um de varejo e outro de atacado) de moda evangélica, que abrangem peças de outros produtores.

Ao todo, oito mil peças são vendidas por mês para o Brasil e para o exterior para Estados Unidos, Colômbia e ainda em países da Europa. Em solo nacional, as cidades que mais compram são no centro-oeste e no norte, como Goiânia, Brasília, Anápolis, Belém do Pará e São Luís.

As peças mais vendidas são os vestidos de festa da linha premium que custam no atacado em média R$ 200. No entanto, a Sol da Terra também tem camisetas temáticas e com frases bíblicas que saem por R$ 25 no atacado. 

Esse ano já estamos passando o faturamento do ano passado no varejo. A pandemia nos prejudicou demais no ano passado, mas esse ano melhorou”, afirmou Ávila. Segundo o diretor comercial, o faturamento anual das marcas e dos sites de venda fica entre R$ 4 a R$ 5 milhões.

Moda evangélica e executiva

A história da Kauly Moda Evangélica também começou sem a pretensão de atender esse público específico e também tem a dedicação de uma mãe. Em 2002, Cleide Guimarães Pais começou a confeccionar peças que, algum tempo depois, passaram a atrair o público evangélico. 

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“Foi uma venda, um giro muito rápido. Então, depois de quatro modelos de que saíram bem, vimos que era um público que estava gostando da nossa moda e que era um mercado que estava crescendo. Fizemos uma reunião e decidimos focar nesse nicho”, contou Fabrício Guimarães Pais, 40 anos, filho de Cleide Guimarães e diretor da Kauly. 

Apesar do mercado promissor e do sucesso acidental com o público no início, a família, que é católica, enfrentou desafios. “É muito mais fácil para uma pessoa que é da Congregação, que está todos os dias olhando aquele público, aquele estilo. No começo, tínhamos um pouco de dificuldade para entender o que o público queria. Mas depois que a gente passou a conversar, fazer pesquisas, analisar o perfil, fui à igreja, e conseguimos entender o público. Agora atendemos 100% dos que ele precisa”, disse Fabrício.  

Com o entendimento dos desejos do público evangélico, a Kauly expandiu sua distribuição para todo o Brasil e também passou a exportar para países como Estados Unidos, Portugal, Irlanda e Suíça.

A empresa familiar também lançou a marca Luciana Pais para atender o público de 15 a 30 anos. 

No atacado, as peças da Kauly são vendidas por preços que variam entre R$ 160 a R$ 180. De acordo com o diretor da marca, os lojista revendem essas roupas com um valor 60 a 80% maior na etiqueta para o consumidor final. Fabrício acredita que também chegam a um público que não é evangélico. “Atendemos muitas executivas, mulheres que trabalham em banco, muitas mulheres que não são evangélicas e compram nossa moda por ela ser mais comportada”, afirmou.

O que é moda evangélica

Cada profissional tem uma descrição para moda evangélica, mas de qualquer maneira todas elas abrangem cobrir os ombros, o busto e as pernas até a altura dos joelhos.

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É um produto para uma mulher mais comedida, não é nada tão específico, mas não podemos ter por exemplo uma cropped mais acentuada. Basicamente é fazer uma releitura do que é moda e adaptar para os padrões evangélicos”, disse o diretor comercial da Joyaly.

O diretor da Sol da Terra traz uma visão prática da questão. “Moda evangélica antigamente era moda da vovó. Hoje a gente fala que é a moda da mamãe, mas uma mãe cada vez mais nova. É importante ficar confortável e não ficar marcando. Adaptamos as tendências brasileiras e internacionais, só não podemos fazer uma coisa piriguete. Tem que ser mais clássica e não ‘avançadinha'”, teorizou Cilfarney. 

“Consideramos três fatores: o comprimento da manga para cobrir o ombro, o comprimento total da peça para cobrir os joelhos e o forro da peça”, disse o diretor da Kauly.

Fiel da Congregação Cristã desde que nasceu, a influenciadora digital Renata Castanheira, de 43 anos, comenta o lado mais religioso do assunto. Segundo a especialista em moda evangélica, nem todas as religiões tem um ensinamento ou uma doutrina descritiva sobre a vestimenta.

“É mais a modéstia. Se vestir com elegância sem perder a mão com um decote mais profundo, uma roupa mais curta. A religião, independente de qual dominação, orienta as pessoas a se vestirem com um pouco mais de decência”, afirmou a influenciadora digital responsável pelo perfil Crente Chic.

Estigma de brega

Vinda de uma família que há três gerações frequenta a igreja Congregação Cristã, Renata Castanheira criou um blog há dez anos porque queria acabar com o estigma de que “crente é brega, cafona”. “Eu queria mostrar para o mundo como as pessoas evangélicas eram elegantes, chiques”, disse.

Atualmente, influenciadora digital publica dois vídeos por dia no canal no YouTube Crente Chic, que já bateu mais de 25 milhões de visualizações. No Instagram, o alcance semanal do perfil é de 2,5 milhões de visualizações.

Além do crescimento do alcance do conteúdo do Crente Chic, Renata também viu a expansão do mercado de moda evangélica. Segundo a blogueira, agora existem muito mais opções de marcas evangélicas e também é possível encontrar opções de roupas em lojas comuns. No entanto, na opinião da influenciadora, as etiquetas voltadas para moda evangélica facilitam e agilizam a vida do consumidor religioso.

Perfil do consumidor

As consumidoras da Joyaly são mulheres com idade entre 25 e 45 anos do sudeste do Brasil. “É um público extremamente exigente que aceita pagar, mas ele cobra por isso. É um público sedento por novidade”, contou Alisson. Para atender a essas expectativas, a marca lança ao menos 20 modelos toda sexta-feira. 

Já Ávila conquistou um público mais jovem ao criar a marca de moda evangélica teen Verone. “O nosso público tem mudado bastante. A maioria das nossas consumidoras tinha mais de 30 anos. Hoje nosso público começa com a adolescente de 18 anos”, contou. 

A Sol da Terra lança de oito a nove coleções por ano, com 50 a 70 modelos de roupas.

Poder de compra

De acordo com o diretor da Sol da Terra, Cilfarney Ávila, seus clientes são das classes B e C. Em uma compra no varejo eles gastam em média R$ 300. Já em uma compra no atacado os compradores gastam cerca de R$ 1.300. “O cliente da Sol da Terra nem é o que tem mais dinheiro, mas ele se prepara para comprar. O nosso cliente é muito família”, afirmou Ávila. 

A influenciadora digital de moda evangélica concorda que se trata de um público que se planeja e prioriza o estilo pessoal. “A mulher evangélica não gasta fazendo muitas coisas como indo para a praia, consumindo muita bijuteria. Ela consome roupa para ir pro culto”, explica Renata Castanheira.

Mercado no Brasil

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, 42,3 milhões de pessoas se declaravam evangélicas, portanto 22,2% da população brasileira.

“O segmento evangélico tem potencial para alcançar 60 milhões de pessoas, segundo o Instituto Data Folha. É uma tendência natural do mercado abrir essa segmentação na medida que esse público vai demandando roupas mais adequados para suas percepções de vida”, afirmou o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel.

Apesar desse potencial, a Abit e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), não têm levantamentos específicos sobre o mercado de evangélica.

“Ao mesmo tempo que sabemos que a moda evangélica está em alta, existem outras denominações para esse tipo de roupa, como moda executiva, moda discreta, tem gente que não quer usar o termo com vínculo religioso”, comenta Daniel Sakamoto, gerente Executivo da CNDL, sobre a dificuldade em dimensionar o setor.

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