“Somos de gerações diferentes”, diz senador que assumiu lugar de Arolde
Em entrevista ao Metrópoles, senador recém-empossado apresentou planos para o mandato e avaliou a gestão do presidente Jair Bolsonaro
atualizado
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Aos 47 anos, o advogado Carlos Francisco Portinho (PSD-RJ) tomou posse, nessa terça-feira (3/11), como senador federal. O advogado assume a vaga deixada pelo senador Arolde de Oliveira (PSD-RJ), que morreu no último dia 21 de outubro vítima da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.
Em entrevista exclusiva ao Metrópoles – a primeira realizada como senador –, Portinho contou sobre projetos, falou sobre a relação com o presidente Jair Bolsonaro, a quem julga estar conduzindo um bom governo, e apresentou como vê seu papel em complemento ao mandato de Arolde de Oliveira.
“Não vou substituir o senador Arolde [de Oliveira]; vou escrever a minha história, pegando emprestada a história do senador, muito do que aprendi com ele”, assinalou o advogado, ao ressaltar que tem muitos pontos em convergência com Arolde de Oliveira, mas que agora ele representa a nova geração.
Portinho foi vice-presidente jurídico do Clube de Regatas do Flamengo, em 2002, e atuou, depois disso, na área do direito desportivo. Além disso, foi secretário de Ambiente do estado do Rio de Janeiro em 2014, secretário de Habitação da cidade do Rio de Janeiro, em 2015, e cofundador do PSD no Rio de Janeiro.
Ao assumir o cargo de senador, precisou abandonar a sociedade que tinha com a ex-esposa, Deborah Stockler Macintyre, no escritório Stockler Macintyre e Portinho Advogados.
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista:
Pautas no Senado
Quais as suas expectativa sobre o mandato e quais as pautas que pretende trabalhar ao longo dos próximos anos?
A função do senador é olhar o Brasil, mas os temas nacionais acabam implicando no estado do Rio de Janeiro, pelo qual fui eleito na chapa do senador Arolde de Oliveira. Então, a gente tem aqui a questão dos royalties, que acho que vem sendo muito maltratada. Quem visita os municípios que são impactados diretamente pela atividade econômica da exploração do petróleo vê que os royalties não foram empregados corretamente. Tem ainda a Lei do Gás, de igual interesse, neste caso do estado do Rio de Janeiro, sobretudo, mas também para todo o país. Agora, sem perder de vista que a gente precisa olhar para as fontes renováveis de energia. O Brasil precisa se inserir nessa agenda mundial.
Durante sua posse, o senhor destacou que iria dar continuidade ao mandato do senador Arolde de Oliveira. No entanto, quais pontos são diferentes entre vocês?
Nós somos pessoas de gerações diferentes. Tenho que ter o absoluto respeito pelas visões de mundo dele, mas todos temos que entender que eu venho de outra geração, com costumes muitas vezes diferentes. Eu tenho muita convergência com ele na pauta da família, na defesa da nossa pátria. Acho que falta realmente para a juventude uma noção maior de República.
Mas quais são as divergências com o senador Arolde de Oliveira?
As divergências podem se situar no campo da política de gênero. Eu estou preocupado é com as pessoas. E quando eu trato de pessoas, estou colocando todo mundo junto, porque todos têm que ser respeitados nas duas respectivas naturezas. Então, onde divirjo nesse tema especificamente, é com relação à educação nas escolas. O ensino na escola – a gente deve tratar. A educação, de convivência, acho que a gente tem que tratar em casa. Acho que a gente não pode extremar nem em uma ponta, nem em outra.
Como passar a sua ideia de modo correto?
Acho que todos nós temos que nos comunicar melhor, governo e sociedade. A mensagem não está chegando na ponta com a compreensão de que ela deveria chegar. Não vou substituir o senador Arolde, vou escrever a minha história a partir, pegando emprestada a história do senador, muito do que aprendi com ele. A gente tem que comunicar melhor. A comunicação está equivocada e está gerando justamente essa segmentação, esses embates. A relação institucional do Legislativo, do Judiciário e do Executivo, que vem se deteriorando, eu gostaria de funcionar como aquele que vai buscar as convergências.
O senhor apoia a reeleição do presidente Alcolumbre no Senado?
Eu me surpreendi com a capacidade do Alcolumbre de liderança, de articulação e de divergências com partidos da oposição. Ele é muito hábil. Não estou ficando em cima do muro, mas não estudei a questão jurídica. Tenho receio sempre de brechas, de jeitinhos, porque a gente sabe o que vale para um hoje, vale para outro amanhã. Se, juridicamente, é possível, eu já antecipo que simpatizei com o presidente Alcolumbre, que é jovem, inclusive. Agora, existe a questão jurídica, se pode se habilitar a uma reeleição. Mas também podem surgir outras lideranças.
Governo Bolsonaro
Qual a sua posição em relação ao governo? Pretende seguir a ideia do senador Arolde de Oliveira de fazer parte da base do governo ou vai destoar?
Eu elegi o presidente Bolsonaro. Vislumbrei um ano e trabalhei dentro do partido para que houvesse esse apoio. Acho que o PT, nos seus 13 anos de governo, tem coisa boa – mas a gente viveu um governo de extrema-esquerda. E, para substituir esse governo, não poderia haver um meio-termo, teria que haver um governo de extrema-direita, porque muitos dos valores de família e de pátria precisavam ser resgatados. O presidente Bolsonaro resgatou valores importantes para a nossa sociedade que está muito segmentada. Acho que [o centro] será o futuro do nosso país.
Como o senhor avalia a condução do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia?
Na minha opinião conduziu bem, mas com a falha inicial de comunicação. Acho que ele se comunicou muito mal no início, mas eu o desculpo por ser uma coisa surpreendente essa pandemia. Com toda sinceridade, a crítica ‘acho que ele [Bolsonaro] é responsável por muitas mortes’… não pode ser atribuído ao presidente. A gente tem que pensar em quantas vidas a gente poupou.
Nesse sentido, o senhor não acha que o presidente Bolsonaro deixou de poupar vidas ao propor a reabertura rápida do comércio, por exemplo?
[Quando peguei Covid] Eu tive a oportunidade de me isolar em uma área rural onde conseguia ver as estrelas, mas a gente sabe que a maior parte da população não tem essa possibilidade. Então, alguém vai ter que sair para trabalhar, sim. O governo deveria ter comunicado para que a população entendesse como poderia ter reduzido o risco. Agora, [o Bolsonaro] comunicou mal sim quando foi para a rua sem máscara, estimulou aglomerações. Situações que eu acho que o próprio presidente reconhece hoje.
Qual o seu candidato em 2022?
Está por vir…
Alguma aposta?
Acho que a gente não consegue enxergar ainda, com toda sinceridade, esse cenário. A própria eleição do presidente Bolsonaro, dois ou três anos antes, ninguém imaginava. Eu mesmo, quando falei um ano antes, não me levaram a sério, tanto que a indicação do meu partido, eu respeito, inicialmente, foi do Alckimin. Como é inevitável, para mim, que eu acho que ele age certo, que são as minhas convergências, mas também não tenho, por menor cerimônia, de discordar e de levar a ele, tendo oportunidade, e votar com a convicção de que eu acredito.
O presidente Bolsonaro tem mudado o seu comportamento. Compreendo que quando a gente chega no governo, a gente chega muito excitado em querer fazer, e a gente, aos poucos, vai vendo que a gente tem que dialogar, com os partidos, com o Congresso, com o Judiciário. Ele está nesse momento de compreensão. E, se ele for nesse caminho, ele pode até ser o candidato à reeleição, mas eu também não me fecho e acho cedo apontar o próximo presidente da República.
Rio de Janeiro
Quais são os maiores obstáculos sobre o estado que o elegeu, o Rio de Janeiro?
O Rio de Janeiro foi da euforia à depressão em um mesmo ano. A euforia a partir do momento em que seria a sede de dois eventos importantes, que seria a Copa do Mundo e as Olímpiadas. Depois, veio uma grande depressão. Por quê? Porque esses eventos passaram e a verdade é que não foram planejados para deixar legado algum para a nossa cidade. O grande legado era conseguir fazer a conexão entre o esporte e a educação para as gerações futuras, e isso, o governo do estado e a prefeitura do Rio não foram capazes de fazer. Perdemos, na minha opinião, uma grande oportunidade de unir esporte e educação. O que se mostrou é que a Copa do Mundo e as Olímpiadas foram grandes projetos de corrupção. E aí veio uma depressão enorme na minha cidade.
E agora?
Ainda vivemos a ressaca dessa depressão. O Rio de Janeiro ainda não encontrou essa liderança. Precisa agora haver uma renovação. O Rio precisa ser reconstruído. Acho que a gente tem que revelar novas lideranças e, mais do que isso, qualificar essas novas lideranças.
Qual o seu candidato da reconstrução para a prefeitura do Rio?
Eu apoio o deputado federal Luiz Lima. Eu fui um dos principais motivadores, incentivadores. É um cara jovem, um cara que veio do esporte, que não precisa da política, e é deputado federal que tem uma cabeça alinhada com a nova geração, com o mundo de hoje.