Reunião citada por Moro à PF teve palavrões, brigas e ameaças de demissão

Ministro Celso de Mello, do STF, quer o vídeo do encontro, mas o Palácio do Planalto busca evitar sua divulgação na íntegra

atualizado 07/05/2020 23:11

A reunião que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro relatou em seu depoimento à Polícia Federal no último sábado (02/05), e cujo vídeo foi requisitado pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, teve de tudo: palavrões, briga de ministros, anúncio de distribuição de cargos para o Centrão e ameaça do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de demissão “generalizada”. Como alvos, aqueles que não adotassem a defesa das pautas do governo.

Segundo participantes da tensa reunião, é exatamente esse o conteúdo do vídeo que o Palácio do Planalto quer evitar divulgar na íntegra. As informações são do Estadão.

Na tarde desta quinta-feira (07/05), a Advocacia-Geral da União pediu ao ministro para enviar somente trechos da reunião, realizada em de 22 de abril, que sejam ligados apenas a Moro e Bolsonaro. Segundo o ex-ministro, na ocasião, o presidente o pressionou na frente dos colegas a trocar o comando da Polícia Federal e o ameaçou de demissão.

Na noite dessa quarta-feira (06/05), o governo pediu que Celso de Mello reconsiderasse o pedido do vídeo por se tratar de “assuntos sensíveis”. Conforme o Estadão informou, o Planalto também cogitou alegar não ter o conteúdo na íntegra, mas apenas trechos da reunião, pois as gravações são “pontuais e curtas”.

Encontro tenso

O encontro de cerca de duas horas, cujos bastidores hoje mobilizam Brasília, ocorreu no terceiro andar do Palácio do Planalto, dois dias antes da demissão de Moro, e é considerado o mais tenso do governo até aqui.

A agenda com o presidente foi convocada inicialmente para apresentação do programa Pró-Brasil, de recuperação econômica, e teve a participação de 26 autoridades, incluindo o vice Hamilton Mourão, todos os ministros e presidentes dos bancos. Outros auxiliares diretos de Bolsonaro também acompanharam.

Em relatos reservados, dois ministros disseram ao Estadão que a ameaça de demissão não foi direcionada ao ex-juiz da Lava Jato, mas foi um recado a todos os integrantes do primeiro escalão. Segundo participantes do encontro, o presidente cobrou alinhamento às pautas dele e cumprimento irrestrito de suas ordens.

Foi nesse contexto, sempre de acordo com os relatos feitos ao Estadão, que Bolsonaro pediu acesso às informações de inteligência. À reportagem, presentes na reunião evitaram confirmar se o presidente exigiu a troca do comando da PF. Dois deles alegaram não “se lembrar.”

Sem bons modos

No entanto, de acordo com um dos participantes, o presidente disse que quem não estivesse satisfeito poderia ir embora. Outro auxiliar disse que Bolsonaro falou que poderia demitir quem quisesse.

A cobrança de Bolsonaro a seu primeiro escalão foi feita com muitos palavrões. Apesar disso, auxiliares observam que é comum o presidente, a portas fechadas e à vontade, usar termos que não atendem aos bons modos.

Nessas ocasiões, para evitar vazamentos, todos os participantes são obrigados a deixar o celular do lado de fora da sala. O único que costuma ser exceção é o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. Já o telefone do presidente costuma ficar nas mãos de um ajudante de ordens.

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