Irmã de jornalista desaparecido reage a Bolsonaro: “Culpa meu irmão”
Parentes de Dom Phillips consideram que autoridades brasileiras demoraram a iniciar buscas na região em que jornalista e indigenista sumiram
atualizado
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Sian Phillips, irmã do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecido na Amazônia há quatro dias na companhia do indigenista Bruno Araújo Pereira, reagiu, nesta quinta-feira (9/6), a declarações do presidente Jair Bolsonaro (PL) de que a dupla fez uma “aventura não recomendável”.
“Realmente, duas pessoas apenas num barco numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça. Tudo pode acontecer, pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados. Tudo pode acontecer. A gente espera e pede a Deus que eles sejam encontrados brevemente. As Forças Armadas estão trabalhando com muito afinco na região”, declarou o mandatário em entrevista ao SBT, na última terça-feira (7/6).
“Acho que ele [Bolsonaro] está colocando a culpa no meu irmão por uma ‘aventura’. Não é uma aventura, ele é um jornalista, ele está pesquisando para um livro que vai escrever sobre como salvar a Amazônia e como destacar os problemas, particularmente nessa região do Vale do Javari”, disse Sian em entrevista à CNN.
A familiar lembrou que os indígenas fizeram buscas preliminares ainda no domingo (5/6), mas foi só na noite de terça-feira (7/6) que o governo divulgou documentos oficiais sobre o emprego das Forças Armadas na área.
“É uma resposta bem lenta, e significa algo bem sinistro para o mundo sobre informações saindo da Amazônia, sobre o que está ocorrendo em uma zona de conflito”, afirmou ela.
Esposo de Sian e cunhado de Dom, Paul Sherwood concordou que houve demora de atuação por parte das autoridades brasileiras. “As lideranças locais disseram que estavam prontas para iniciar as buscas, mas não tinham permissão para começar. Então, foram dois dias, na verdade, antes de darem o sinal verde. Não era um assunto prioritário para as autoridades.”
Sherwood disse ainda que Bruno e Dom estavam cientes dos riscos, mas desempenhavam um papel importante. “Sabemos que Bruno e Dom são ambos muito comprometidos para fazer o trabalho que estavam fazendo, apesar de reconhecerem os riscos. Não digo que é irresponsável, digo que é importante”, indicou.
Phillips está trabalhando em um livro sobre meio ambiente com apoio da Fundação Alicia Patterson. Além do The Guardian, o profissional já publicou trabalhos em agências internacionais de notícias e em veículos como Financial Times, The New York Times e The Washington Post.
Dom e Bruno se deslocaram para a região no oeste do Amazonas com o objetivo de visitar a equipe de vigilância indígena que fica próxima ao Lago do Jaburu. O jornalista pretendia fazer algumas entrevistas com integrantes da comunidade que residem no local.
Eles viajavam com uma embarcação nova, de 40 cavalos, e 70 litros de gasolina, o que seria suficiente para a viagem.
Bruno Pereira está licenciado da Funai e atualmente faz parte do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente (Opi). Bruno era alvo constante de ameaças pelo trabalho contra invasores que vinha fazendo junto aos indígenas.
Repercussão internacional
O desaparecimento dos dois ganhou repercussão internacional a partir de segunda-feira (6/6). O assunto se aprofundou e tem sido objeto de cobrança de autoridades e sociedade civil de vários países.
Editores dos jornais The Guardian, The Washington Post, New York Times, Wall Street Journal, das agências Associated Press, France Presse e Bloomberg News e do Pulitzer Center enviaram uma carta aberta ao presidente brasileiro. No documento, eles pedem mais empenho na busca pelo jornalista Dom Phillips e pelo indigenista Bruno Araújo.
O presidente Bolsonaro deve ser cobrado sobre o assunto na Cúpula das Américas, evento do qual participa entre esta quinta e sexta-feira (10/6), em Los Angeles, nos Estados Unidos. Pesquisadores ouvidos pelo Metrópoles avaliam que o líder brasileiro poderá ser cobrado pela violência constante na região nos últimos anos, além de pela lentidão e escassez de recursos do governo brasileiro nas buscas.
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