Indicados políticos, pastor e morador de Búzios são fantasmas na Alerj

Procuradoria-Geral da Assembleia emprega 42 funcionários que não dão expediente no órgão – chefia do setor admite. Casa abrirá sindicância

atualizado 24/01/2019 21:43

Alerj/Divulgação

Depois da prisão de 10 deputados estaduais e da revelação das movimentações financeiras atípicas de servidores, ex-funcionários e parlamentares – especialmente do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) e de seu ex-motorista Fabrício Queiroz –, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) continua dando o que falar. Nesta quinta-feira (24/1), o jornal O Globo revelou que 42 servidores da Procuradoria-Geral da Casa não aparecerem para dar expediente no setor, e a própria chefia admite o fato.

Segundo a reportagem, na lista de funcionários que recebem salários, mas não trabalham ali, há assessores ligados a PT, PP e MDB, um pastor evangélico, uma dona de salão de beleza e até um morador de Búzios, município da Região dos Lagos distante 175 km da capital.

Nem no gabinete nem na procuradoria
A matéria cita o caso de Adionson Farias, nomeado em março de 2018. Antes, ele estava vinculado ao gabinete do deputado Gilberto Palmares (PT), a quem também acompanhou na passagem do parlamentar pela Secretaria de Administração de Maricá. O jornal informa que agora Farias está na Procuradoria-Geral, mas, na prática, continua trabalhando para o político, embora formalmente fora do gabinete.

“Eu trabalho no apoio, pagando contas. Estou com o Gilberto Palmares desde 1997”, disse Adionson à reportagem, por telefone. Ele não soube explicar o motivo de estar ligado à Procuradoria-Geral: “Não sei te dizer.”

Acionado pelo jornal, Gilberto Palmares afirmou que, como não preside comissões (isso lhe daria direito a mais cargos), combinou com o presidente da Casa, André Ceciliano (PT), que indicaria um nome para a Procuradoria-Geral.

“Ele [Ceciliano] me permitiu indicar uma pessoa que permaneceria trabalhando conosco. Mas eu e meu chefe de gabinete temos condições de provar que o Adionson é figura assídua, trabalha todo dia. Não dá para misturar com outros casos”, reclamou o deputado, acrescentando que presidiu uma frente parlamentar na área da saúde sem estrutura adicional de comissionados.

Ex-vereador de Búzios e ex-servidor na prefeitura do município, Sherman Willians, o Bibinho, afirmou ao jornal que dá expediente na 1ª Secretaria da Alerj, não na Procuradoria-Geral, na qual está lotado com um salário líquido de R$ 2,9 mil. Também garantiu ter ajuda de familiares para vencer todos os dias a distância entre Búzios e a assembleia. “Tenho parentes no Rio. Chego na segunda e vou embora na sexta”, afirmou.

Sindicância
Procuradoras da Casa que atestaram à publicação a possível irregularidade com 42 servidores do setor disseram que, mensalmente, chega à Procuradoria-Geral “uma enorme quantidade de cartões de ponto de servidores que não se encontram desempenhando funções neste local”. Ao O Globo, a Alerj informou ter instaurado um processo administrativo que deve apresentar resultado até o fim do mês.

Por telefone, Bruna Calafange, dona de um salão de beleza desde 2017, disse que não daria explicações porque já havia se justificado na apuração aberta pela Alerj. Ela pediu exoneração da Casa em dezembro. Outros nomes da lista noticiados pelo jornal são Soraia Joulak, que fez campanha para Leonardo Picciani (MDB) na última eleição, e Marilyn Pedrosa, filiada ao PP – ambas não foram encontradas para comentar a situação.

Já o pastor evangélico Huguaraci Simões, à frente da Assembleia de Deus Aijalon, em Nova Iguaçu, ficou irritado ao ouvir as perguntas e disse que só daria as explicações pessoalmente. “Não te conheço, grande. Você é detetive?”, questionou.

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