Frente com Ciro e Marina quer encarnar o antipetismo e o antibolsonarismo

O objetivo é formar uma aliança de centro-esquerda com Rede, PDT, PSB e, talvez, o PCdoB na oposição a Bolsonaro. PT não é bem-vindo

atualizado 24/05/2020 10:24

JP Rodrigues/Metrópoles

Uma frente ampla, de centro-esquerda, contra o presidente Jair Bolsonaro – mas sem o PT. Os ex-presidenciáveis Ciro Gomes (PDT-CE) e Marina Siva (Rede-AC) estão em franca conversa e empenhados em atrair lideranças de legendas, algumas que estiveram no governo petista, mas que têm em comum, atualmente, a crítica ao partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nem que seja a cotidiana e resistente reclamação sobre o protagonismo que o PT teve nos últimos anos no campo progressista.

A aposta é no fato de que o antipetismo e o antibolsonarismo são sentimentos fortes e consolidados na sociedade brasileira. O alvo é o voto do eleitor que diz: “Eu não gosto do Bolsonaro, mas também não quero o PT de volta”. “Essa frente surge a favor do Brasil”, diz Ciro Gomes.

Lula, nas redes sociais, deixou claro que jogou a toalha no sentido de tentar uma reaproximação com Ciro e Marina. Em recente postagem, cravou: “A Marina escolheu outro caminho. Que Deus a abençoe. O Ciro decidiu que quer o voto de quem odeia o PT. Que vá com Deus. Se for possível construir um projeto pra reconquistar a democracia, tamo junto. Mas na eleição cada um vai tocar seu projeto”, disse o ex-presidente.

Ciro, ao Metropoles, disse que “com o lulopetismo corrompido” ele “não andará junto nunca mais”. “O Lula não está bem. Estamos vivendo a maior crise de saúde pública de nossa história e nossa economia está sendo devastada. Ajudar a resolver isso é nossa primeira prioridade. Pensar em eleições só atrapalha neste momento. Mas é o que está na cabeça dele e do Bolsonaro. E nosso povo está sofrendo. Mas está claro que com essa parte do lulopetismo corrompido não andarei junto nunca mais”, disse Ciro, que tem defendido a tese de que os governos petistas fizeram muito mal ao país, a ponto de jogar o Brasil “no colo” de Bolsonaro.

Marina corrobora a visão de Ciro e ressuscita a cobrança de um pedido de desculpas do PT pelos erros no governo. “O PT já se excluiu de qualquer debate com o campo democrático progressista, porque não faz autocrítica dos erros cometidos. Quem não faz autocrítica dos gravíssimos erros éticos está disposto a continuar com as mesmas práticas e atitudes”, disse, ao Metrópoles, em recente entrevista.

Impeachment
Nesse contexto, pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro apresentados à Câmara dos Deputados marcam bem a atual divisão no campo da esquerda no Brasil. De um lado, o PT, o PSol e o PCdoB, apoiados por mais de 400 entidades. De outro, Rede, PDT e PSB.

Embora o PCdoB assine o pedido com o PT, o partido, que foi um dos mais fiéis aliados durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, também se divide entre o lulismo e o antipetismo. Orlando Silva (PCdoB-SP), que pretende ser candidato à prefeitura de São Paulo, tem um diálogo bem mais próximo com Ciro e Marina. O governador do Maranhão, Flávio Dino, se diz pertencente à “esquerda lulista”. Apesar do alinhamento com Lula, ele mantém bom diálogo com Ciro e Marina e aponta o sentimento de “mágoas pretéritas” como razão do alijamento do PT.

“Acho que nesse momento ainda há muitas águas pretéritas. Não quero julgar se estão certas ou erradas. É uma constatação objetiva. São mágoas pretéritas que dificultam o diálogo. Mas nós temos que perseverar, porque ele é necessário.”

Desarmamento
Dino, por sua vez, aponta o PDT como um partido “frentista”. Diante disso, se diz otimista com que no futuro as pendengas possam ser resolvidas. “Historicamente, o PDT e o trabalhismo são correntes políticas frentistas no Brasil. Não vejo o trabalhismo com esse espírito isolacionista. Por isso que eu sou otimista. O que a gente enxerga hoje é a verberação de mágoas pessoais. Mais adiante, espero ser possível superar isso, porque isso atrapalha a construção de uma frente ampla na esquerda”, ressaltou. “Eu fiz um debate com a Marina e o Ciro em um clima excelente, mesmo me situando mais no campo lulista. Meu partido é um partido lulista. Eu me situo no campo da esquerda lulista, vamos chamar assim”, ressaltou Dino.

“Não há dúvida que esses fatores pessoais estão impedindo uma união da esquerda. É preciso que se faça esse desarmamento geral. A gente vê que o tempo todo é estocada pra cá e pra lá . E nenhuma estocada se refere ao futuro. Todas se referem ao passado. Nenhuma refere-se a uma divergência atual. Tipo eu discordo de você nesse ponto. Se fosse possível colocar em uma sala, olhando só daqui para frente, e se nesta sala estivessem Marina, Ciro, Lula e Haddad, a concordância seria de quase 100% para a pergunta sobre o que deve acontecer no Brasil daqui para frente”, argumentou.

Eleições municipais
As chapas antipetistas e antibolsonaristas se colocam na corrida pelas prefeituras. Enquanto as conversas políticas se situam mais no campo virtual, em meio à pandemia, as alianças começam a ser desenhadas nas capitais.

No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, do PSol, tinha o apoio do PT para sua candidatura a prefeito, mas desistiu da campanha. Saiu dizendo que não conseguiu atrair PDT, PSB e Rede. Em contrapartida, PDT e PSB ensaiam a candidatura da deputada Delegada Martha Rocha (PDT), que pode ter o atual líder do PSB na Câmara, deputado Alessandro Molon (PSB), como candidato a vice, obedecendo o acordo firmado pelas duas legendas.

O PT pode agora investir em um projeto próprio, seguindo a orientação de Lula, de lançar a candidatura de deputada Benedita da Silva, à prefeitura da capital fluminense. O PT ainda segue no apoio à candidatura de Manuela D’Ávila para a prefeitura de Porto Alegre, única capital que continua sendo tratada como exceção pelo partido, visto que a intenção de Lula é investir ao máximo em candidaturas próprias no pleito municipal.

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