Coronavírus: Mandetta dialoga com facções e irrita bolsonaristas

Ministro defendeu necessidade de coordenação com traficantes e milicianos para combater o coronavírus em locais onde o Estado está ausente

atualizado 10/04/2020 7:16

A defesa pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, do diálogo com facções criminosas e milícias como parte da estratégia de combate ao coronavírus em áreas onde o Estado está ausente virou mais uma razão para a ala mais radical do bolsonarismo pedir sua cabeça.

Militantes anônimos e famosos, como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) ficaram revoltados com as declarações do ministro da Saúde, que revelou, na última quarta-feira (08/04), já ter colocado em ação um “plano de manejo” em uma comunidade dominada pelo crime, como teste.

De acordo com Mandetta, em favelas dominadas pelo crime, é preciso “entender que são áreas [em] que muitas vezes o Estado está ausente, [em] que quem manda é o tráfico, quem manda é a milícia”.

Para o ministro, porém, é preciso arrumar formas de combater o coronavírus nestes locais. “Como é que a gente constrói essa ponte em nome da vida e da saúde? Dialoga sim, com o tráfico, com a milícia, porque eles também são seres humanos e eles também precisam colaborar, ajudar, participar”. Veja as declarações.

A fala não caiu bem entre integrantes da bancada da bala e entre membros da ala ideológica do governo. As críticas em redes sociais e grupos bolsonaristas em aplicativos de mensagens começaram em seguida.

O jornal virtual Brasil sem Medo, que tem como um dos responsáveis o professor on-line de filosofia Olavo de Carvalho, guru da ala ideológica, publicou artigo comparando a intenção de Mandetta a supostos acertos entre o governos petistas e criminosos do PCC, que um líder da facção teria chamado de “diálogo cabuloso“.

O deputado Daniel Silveira fez uma série de críticas e publicou um vídeo em que assaltantes são baleados, com a legenda “meu diálogo com criminosos”.

“Uma necessidade”
Para o cientista político Guaracy Mingardi, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP) e ex-subsecretário Nacional de Segurança Pública, o assunto não pode ser um tabu. “O problema existe e cabe ao Estado usar seus meios para proteger as pessoas”, afirma ele, que pede um olhar especial à questão dos presídios, que não foi citada por Mandetta.

“Estamos em uma situação limite, porque se mantiver visitas será um desastre, teremos contágio descontrolado. Se proibir visitas, as organizações criminosas podem botar fogo nos presídios. Então, é importante sim conversar com as lideranças dos presos, conscientizar que será preciso ficar sem visitas nesse período”, analisa Mingardi.

Para o sociólogo Michel Misse, associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a interlocução do poder público com forças paralelas é “perfeitamente possível, se necessária”. “Isso já foi feito em outros países como a Colômbia e depende apenas de uma trégua do aparato policial”, opina ele. “Nas favelas do Rio não são exceções agentes do Estado como professores, assistentes sociais e agentes de saúde já terem, por diversas vezes, estabelecidos esses diálogos”, completa.

Antecedentes
Não é a primeira vez que políticos tentam negociar com criminosos em momentos de crise, mas o assunto sempre é polêmico.

Nos anos 1980, o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, implementou uma política de não agressão policial nas favelas do Estado, substituindo a abordagem violenta por iniciativas sociais. Críticos dessa política afirmam que as facções criminosas fluminenses se fortaleceram nessa época.

Já em 2006, quando o PCC iniciou uma série de ataques que espalharam pânico por todo o estado de São Paulo, com saldo de 152 mortos, o governo paulista, então nas mãos de Cláudio Lembo, teria negociado uma trégua com Marcos Camacho, o Marcola, um dos líderes da facção. Os políticos sempre negaram o acordo, que acabou confirmado por policiais envolvidos.

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