“Como será tratado o sargento?”, pergunta ex-presidente do STM após Exército não punir Pazuello

Sérgio Xavier Ferolla critica decisão do comando do Exército Brasileiro, que livrou Eduardo Pazuello de punição após ato com Bolsonaro

atualizado 04/06/2021 13:35

Ex-presidente do Superior Tribunal Militar (STM), tenente-brigadeiro da Aeronáutica Sérgio Xavier Ferolla, de 86 anosReprodução/ YouTube/ Chico Abelhar

Ex-presidente do Superior Tribunal Militar (STM), o tenente-brigadeiro da Aeronáutica Sérgio Xavier Ferolla (imagem em destaque) criticou, nesta sexta-feira (4/6), a decisão do Exército Brasileiro (EB) de não punir o general Eduardo Pazuello por ter participado de ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em conversa com o Metrópoles, o oficial de quatro estrelas assinalou que o arquivamento do processo administrativo contra Pazuello mancha, “sem dúvida”, a imagem das Forças Armadas.

“Questão ainda pendente no seio da corporação. Devemos estar atentos às consequências. Sem dúvida [pode manchar a imagem das Forças Armadas], merecendo atenciosa consideração para com os alertas já lançados. Por isso, como será tratado o sargento?”, questionou Ferolla, via mensagem de aplicativo.

No último dia 15, o terceiro-sargento do Exército Luan Ferreira de Freitas Rocha participou de uma transmissão ao vivo com o deputado federal Major Vitor Hugo (PSL-GO), um dos principais defensores de Bolsonaro na Câmara. Na live, o militar criticou o aumento no tempo de intervalo para promoções e pediu apoio do parlamentar. O caso se tornou delicado após a participação de Pazuello, uma semana depois, em ato bolsonarista.

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Em seguida, após o Metrópoles ligar e avançar com a conversa, o tenente-brigadeiro afirmou que já dissera o que tinha para falar. “O problema está nas mãos dos generais do Exército. Eles que têm que resolver”, pontuou.

Ministro aposentado do STM, Ferolla é detentor do cargo mais alto da Aeronáutica, uma vez que marechal-do-ar é uma função limitada a tempos de guerra e não há outros vivos que algum dia a tenha alcançado. Ser tenente-brigadeiro-do-ar equivale ao posto de general de Exército, o mesmo do vice-presidente, Hamilton Mourão, e do ministro-chefe do GSI, Augusto Heleno, por exemplo. Já Pazuello é general de divisão (três estrelas).

Na teoria das Forças Armadas, Ferolla – hoje com 87 anos – está hierarquicamente acima de todos eles, por ser o mais antigo da patente e, por isso, poderia julgá-los quando ministro do STM.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada no dia 26 de maio, o ex-presidente do Superior Tribunal Militar já havia criticado a presença de Eduardo Pazuello ao lado de Jair Bolsonaro, em um carro de som, durante a “motociata” no Rio de Janeiro. O tenente-brigadeiro avaliara se tratar de algo “vergonhoso”.

“Militar não deve entrar na política e a política não pode entrar no quartel, se não vira bando, acabam a hierarquia e a disciplina. O fundamento da instituição militar é a hierarquia e a disciplina. Portanto é grave”, disse.

“O comando tem de tomar providências. Se você aceitar isso, acabou a disciplina nas Forças Armadas, porque o tenente, o sargento e o cabo têm sido punidos dentro da lei – e são muitos. Não pode ser diferente com o general. É igual ao cabo. Não tem diferença nenhuma. Aliás, ele tem mais responsabilidade. É um oficial antigo, um general. Quanto mais hierarquia ele tiver, mais responsabilidade ele tem e mais grave a indisciplina”, prosseguiu.

Ferolla também disse que Caxias está de luto. Essa mesma expressão foi usada em uma outra entrevista com o Metrópoles, realizada em junho do ano passado, e faz referência ao patrono do Exército, Duque de Caxias. Na ocasião, o ex-ministro criticara a presença de “integrantes do Palácio do Planalto” em atos bolsonaristas que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Apelidado de O Pacificador, Caxias é visto no meio como um exemplo a ser seguido. Logo, quando se diz que o “mito de Caxias está em luto”, significa que há uma violação dos valores militares.

Repercussão

Após o Comando do Exército livrar Eduardo Pazuello de uma possível punição, o presidente Jair Bolsonaro falou, na quinta-feira (3/6), sobre o sistema de punições nas Forças Armadas e garantiu que “ninguém interfere”. “A disciplina só existe porque nosso Código Disciplinar é bastante rígido”, disse, na live semanal.

O chefe do Executivo federal também negou que a “motociata” bolsonarista no Rio de Janeiro tenha sido um ato político.

“O movimento foi o primeiro encontro de motociclistas com o presidente Jair Bolsonaro; pela liberdade e apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Alguma coisa política nisso? Tinha alguma bandeira vermelha lá? Eu acho que ninguém tem coragem de levantar a bandeira no meio daquele povo. Duvido”. completou.

Um militar ligado ao Palácio do Planalto avaliou que a medida não gerará “indisciplina ou insatisfação interna”.

O oficial, falando em nome da corrente vencedora no debate interno sobre o que fazer em relação a Pazuello, não deixou de alfinetar o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, que vinha deixando claro esperar que o Exército punisse a ação do ex-colega de farda, para “evitar que a anarquia se instaure”.

“O vice não tinha todas as percepções e falou prematuramente”, afirmou o militar do Exército, integrante do governo, em conversa com o Metrópoles, logo após a corporação tornar pública a decisão sobre Pazuello.

Segundo essa análise, embora a repercussão seja “grande na imprensa”, internamente os ânimos estariam serenados, após uma reunião do comandante Paulo Sérgio com os oficiais generais da Força feita antes da divulgação do arquivamento. “Não haverá problemas internos e sim muita especulações na imprensa para atingir o real interesse de tudo isso: atingir o presidente.”

Por sua vez, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro, afirmou que a decisão do Exército é uma “vergonha”. Para ele, “o conjunto dos fatos é uma desmoralização”.

Em uma publicação no Facebook nesta sexta-feira (4/6), o general desabafou sobre o arquivamento do processo. Na publicação, Santos Cruz se refere ao arquivamento do processo como um “ataque frontal à disciplina e à hierarquia, princípios fundamentais à profissão militar”.

“Mais um movimento coerente com a conduta do Presidente da República e com seu projeto pessoal de poder. A cada dia ele avança mais um passo na erosão das instituições. Falta de respeito pessoal, funcional e institucional. Desrespeito ao Exército, ao povo e ao Brasil. Frequentemente, com sua conduta pessoal, ele procura desrespeitar, desmoralizar pessoas e enfraquecer instituições”, disparou.

“Não se pode aceitar a subversão da ordem, da hierarquia e da disciplina no Exército, instituição que construiu seu prestígio ao longo da história com trabalho e dedicação de muitos. Péssimo exemplo para todos”, prosseguiu.

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