Privatizações, bagagens e liderança. O que foi assunto no café com Bolsonaro

O presidente se reuniu com grupo de jornalistas na manhã desta quinta-feira, no Palácio do Planalto, para tratar de temas ligados ao governo

Marcos Corrêa/Presidência da RepúblicaMarcos Corrêa/Presidência da República

atualizado 23/05/2019 17:20

Em café com jornalistas realizado na manhã desta quinta-feira (23/05/2019), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) recebeu um grupo de 17 profissionais para promover aproximação com a imprensa e tratar de alguns dos principais assuntos ligados ao governo. No encontro, para o qual o Metrópoles foi convidado, o chefe do Executivo falou de temas como privatizações, liberação de bagagem gratuita em voos, bloqueio de verbas para a Educação, decreto que regulamenta o porte e a posse de armas de fogo, e rusgas com o Congresso Nacional.

Na conversa, Bolsonaro minimizou o desentendimento entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO). E disse que vai manter o parlamentar como seu representante entre os deputados. Para o presidente, houve um certo exagero na interpretação do grupo de Maia sobre a charge compartilhada pelo major nas suas redes sociais, que tecia críticas ao comportamento do Congresso.

“Esse tipo de manifestação é brincadeira, não tem que ser levado tão a sério”, contemporizou. Na última terça-feira (21/05/2019), Maia rompeu com Vitor Hugo após o goiano postar, nas suas redes sociais, imagem que mostra um deputado carregando saco de dinheiro na cabeça. “Era uma sátira”, interpretou.

Ao falar sobre o tema, o presidente contou que, recentemente, ele mesmo divulgou entre os seus contatos um meme que seria, em tese, embaraçoso para o próprio. Na montagem, relatou, aparecia uma imagem da primeira-dama – a quem o mandatário chamou de “lindíssima” –, Michelle Bolsonaro, ao lado do deputado Hélio Negão (PSL-RJ). Na sequência, uma pergunta: quem é a primeira-dama?

“Eu morri de rir. Liguei pro Negão e perguntei: ‘Cara, você saiu do armário e não me contou?’”, relatou o presidente, entre risos.

O capitão da reserva destacou ainda que confia no trabalho que vem sendo desenvolvido por Vitor Hugo entre os congressistas. “É um garoto bom, experiente, preparado. Não é à toa que eu chamo ele de cabeção”, disse. “Assim como nós, ele está buscando o que é melhor para todos”, seguiu. “O que aconteceu com Rodrigo Maia, isso depois se resolve”, concluiu.

Além da carreira militar, da qual está aposentado, Vitor Hugo é consultor legislativo da Câmara dos Deputados na área de segurança e defesa.

Reforma administrativa
Ao fazer uma análise sobre o saldo das votações dessa quarta-feira (22/05/2019) no Congresso Nacional, Jair Bolsonaro disse que o governo saiu no “1 a 1”. A declaração foi imediatamente emendada pelo porta-voz do Planalto, Otávio do Rêgo Barros: “Em campo adversário, é bom que se diga”.

Os dois referiam-se à aprovação do texto que garantiu a redução do número de ministérios de 29 para 22. Como a resolução foi feita por meio de Medida Provisória (MP nº 870), o governo trabalhava contra o tempo, com a possibilidade de a iniciativa caducar na primeira semana de junho.

Em relação ao fato de o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ter deixado o guarda-chuva do ministro da Justiça, Sergio Moro, e voltado ao escopo de responsabilidades do Ministério da Economia, Bolsonaro afirmou que não se trata de perda: “É tudo governo, está tudo em casa”.

“O pessoal fala em base, mas esta base não é fixa”, afirmou o presidente sobre o resultado da votação dessa quarta.

A respeito da difícil relação que vem mantendo com o Congresso Nacional e das críticas que recentemente disparou contra o mundo político, Bolsonaro contemporizou ao dizer que ele também é político: “O deputado ficou chateado porque falei da classe política, mas fui eleito, também faço parte da classe política. Não tem uma terceira via”.

Educação
Uma semana após a realização de manifestações em 210 cidades brasileiras contra o contingenciamento das verbas para a Educação, o presidente comentou que acredita mais na eficiência de um “bom curso técnico” do que na eficácia, necessariamente, do curso superior.

“Diploma na parede não é garantia de emprego. Acho até que quem possui um bom curso técnico tem mais chance de conseguir um emprego”, afirmou aos profissionais. Ele também defendeu o aporte de mais recursos para o ensino básico, uma das bandeiras da gestão do pesselista.

Na ocasião, o presidente ainda afirmou que é contra a proposta aventada pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT), de que as famílias mais abastadas paguem pelo estudo de seus filhos em universidades públicas do país.

Para Bolsonaro, uma medida como a sugerida pelo governador “espantaria” os estudantes com esse perfil familiar para instituições estrangeiras. Bolsonaro chegou a citar o destino de Portugal, cujas universidades acolhem muitos alunos brasileiros.

“Se as universidades públicas começarem a cobrar R$ 3 mil em mensalidade dos alunos, vai ter fuga em massa nos cursos de graduação do Brasil. Eu sou contra uma medida como essa, porque o pai vai preferir pagar para o filho estudar em outros países”, disse o presidente da República.

Propostas do governo
Bolsonaro tratou ainda do polêmico decreto que flexibilizou o acesso a armas de fogo. O capitão da reserva afirmou, ao falar sobre o tema, que teve de recuar em alguns pontos para não inviabilizar o projeto, uma das promessas de campanha.

“Arma de fogo é a forma de cidadão dissuadir o inimigo. Os filhos meus começaram a atirar muito cedo. Não vejo nada de mau uma criança de oito, nove, 10 anos, começar a praticar tiro desde pequeno. É preciso ensinar a atirar e ensinar que arma de fogo é perigosa”, disse o presidente.

Empregos
Ao ser questionado sobre quantos empregos as reformas propostas pela atual gestão, como a da Previdência, poderiam gerar no país, ele não soube estimar. “Até com bola de cristal fica difícil”, devolveu.

Apesar disso, não deixou de fazer críticas à situação atual do país e disse estar difícil para os empresários manterem os empregados. “Os salários são altos para o patrão e baixos para o empregado. Temos mais de 4 milhões de ações trabalhistas em curso, um cenário muito difícil de se enfrentar”, apontou.

Sobre as privatizações, muito tratadas durante a campanha eleitoral, o chefe do Executivo afirmou ter disposição para prosseguir com o plano de transição das estatais à iniciativa privada. “Eu tinha uma ideia mais estatizante no passado, mas andei mudando depois de estreitar minha convivência com o Paulo Guedes. Esse é um processo [o das privatizações] que tem de ser feito aos poucos, porque a grita [gritaria] vai ser grande, mas a gente tem de fazer”, pregou.

Apesar da nova orientação econômica admitida pelo presidente, Bolsonaro excluiu algumas empresas estatais do cardápio daquelas que podem ser vendidas nesta administração. Entre elas, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

Franquia de bagagens
Durante a conversa, Bolsonaro sinalizou também que tende a aceitar o despacho gratuito de bagagens de até 23 quilos em voos nacionais. Ou seja, não vetar a medida aprovada pelos congressistas nesta semana. “Vou deixar para tomar esta decisão nos 48 minutos do segundo tempo. Claro que o mercado precisa se autorregulamentar, mas, neste caso, meu coração está mais inclinado a evitar a cobrança das bagagens”, acenou.

A declaração, no entanto, contraria a equipe econômica do governo. “Se eu sancionar ou vetar, vou tomar pauladas, mas, ao que tudo indica, a questão da cobrança da bagagem não era fator preponderante, já que o preço das passagens não baixou.”

Na noite de terça-feira (21/05/2019), a Câmara dos Deputados votou a Medida Provisória nº 863, que ampliou para 100% a participação de capital estrangeiro em empresas do setor aéreo com sede no Brasil.

Balanço dos cinco meses 
Ao fazer um balanço dos quase cinco meses à frente da Presidência da República, Bolsonaro disse que enfrenta pressões e repreensões por todos os lados, mas garantiu que segue feliz no cargo.

“Se eu espirrar, tem gente para reclamar. Tudo o que eu faço gera uma grande comoção. Mas eu não posso reclamar. Tive a chance de escolher meus 22 ministros, cinco dos quais são deputados federais. Faço todos os dias um parto sem respiração, tenho engolido sapos pela fosseta lacrimal, mas sigo feliz no cargo e confiante das reformas que vamos empreender”, afirmou.

Manifestações de domingo 
Quanto às expectativas sobre as manifestações do próximo domingo (26/05/2019), consideradas um ato de apoio ao presidente, Jair Bolsonaro demonstrou positividade: “Olha, isso vai reunir muita gente, pelo o que eu estou vendo nas redes sociais, tem uma multidão que vai sair às ruas, coisa grande mesmo”.

Sobre o fato de a pauta da manifestação incluir, por exemplo, protestos contra instituições como o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente afirmou que “esta turma”, especificamente, de manifestantes não o representa. “Se alguém chegar lá com uma camiseta pregando o fechamento do STF, esse cara não me representa, não tem nada a ver comigo”, categorizou.

Convidados
O café da manhã realizado nesta quinta-feira foi o quinto desde o início do mandato de Jair Bolsonaro. Além do Metrópoles, 16 meios de comunicação marcaram presença. Veja quem participou:

  • Metrópoles – Lilian Tahan
  • Globo – Andréia Sadi
  • Record – Celso Freitas
  • SBT – Ederson Granetto
  • Band – Rodrigo Orengo
  • EBC – Alexandre Graziani
  • Rede TV – Daniela Albuquerque
  • Rede Vida – Denise Rothenburg
  • Site Poder 360 – Paulo Silva Pinto
  • Rádio Nacional – Luciano Seixas
  • Rede CNT – Anderson Arcoverde da Silveira
  • Jornal do Comércio – Laurindo Ferreira
  • Site Crítica Nacional – Paulo Eneas
  • Site Estudos Nacionais – Tatiana Gouveia
  • Site Terça Livre – Allan dos Santos
  • Correio do Povo – Telmo Flor
  • Site Senso Incomum – Flávio Morg

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