A jornalista Patrícia Lélis ficou famosa nacionalmente ao acusar o deputado federal Marco Feliciano (à época no PSC e hoje no Podemos paulista) de estupro em 2016 e depois ao anunciar, nas redes sociais, que teria trocado o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por um médico cubano – o que lhe teria rendido ameaças vindas do parlamentar e ex-namorado. Em dezembro de 2018, o juiz responsável pelo caso envolvendo Patrícia e Feliciano arquivou o inquérito “por não vislumbrar elementos mínimos para a propositura de ação penal”.

Patrícia não descansou e também acusou Talma Bauer, assessor do deputado federal Pastor Marco Feliciano de sequestro e cárcere privado em um hotel na capital paulista entre julho e agosto de 2016. Ela, no entanto, acabou indiciada pela Polícia Civil de São Paulo, por denunciação caluniosa e extorsão, e foi ainda acusada pelo delegado Luiz Roberto Hellmeister, titular do 3º Distrito Policial (DP), de ser “mentirosa compulsiva” e “mitômana”.

O processo contra Eduardo Bolsonaro pelas ameaças supostamente feitas contra Lélis ainda corre na Justiça. Em janeiro deste ano, ela informou que entraria com novo processo contra o deputado federal – filho do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) – por calúnia e difamação.

Patrícia Lélis é uma figura controversa, sendo considerada por muitos como uma Sara Winter às avessas – em comparação com a antiga militante do Femen que se converteu em conservadora.  Isso porque a jornalista, igualmente, abandonou a pregação conservadora e religiosa de seus tempos como membro do PSC, passando a defender bandeiras feministas, de inclusão social e alinhadas aos partidos de esquerda.

Novas denúncias
Patrícia acabou se tornando figura carimbada em sites de mídia próximos ao PT, envolveu-se com movimentos sociais e resolveu se candidatar à Câmara federal em 2018, defendendo bandeiras próximas a esses mesmos movimentos. Ela tentou, sem sucesso, ser deputada por São Paulo.

No entanto, uma série de denúncias em redes sociais contra ela surgiram no começo do ano. A ativista foi acusada de calote por um grupo de 12 pessoas que trabalharam em sua campanha malsucedida para deputada federal pelo Pros.

Seriam 10 funcionários, além de Natália Mendonça e Marcelo Vitorino, sócios da empresa de marketing contratada pela então candidata.

Em uma postagem no Facebook, Roberta (Robertita) Alves diz ter trabalhado na campanha de Patrícia Lélis e a acusou de calote contra diversas pessoas que participaram da corrida eleitoral, muitas delas em situação de vulnerabilidade social, como “mulheres periféricas que juntavam o dinheiro que tinham para pagar passagem e alimentação”.

Confira a postagem:

Por e-mail, Roberta Alves contou à reportagem que foi selecionada pela equipe de Vitorino por ter “ideais compatíveis com os da Patrícia”. Ela disse que seu “contrato tem cerca de oito páginas, todas assinadas pela Patrícia, no corpo da minha NF [nota fiscal] tem meus dados bancários, porque ela ‘supostamente’ depositou nosso pagamento para o Vitorino?”. Segundo Roberta, o pagamento recebido por Vitorino teria sido apenas pela consultoria dele, pelos equipamentos e pelo aluguel da casa onde trabalhavam.

Os trabalhadores vítimas do calote, diz Eduardo Araújo, que foi contratado para organizar o conteúdo da campanha de Patrícia Lélis e era o responsável pelos anúncios patrocinados, teriam sido contratados por intermediação da Vitorino & Mendonça. A empresa é a mesma responsável pela campanha digital de Geraldo Alckmin (PSDB) para a Presidência da República. Os representantes da firma alegam, porém, que os contratos de Araújo e de outros eram individuais e feitos diretamente com a campanha de Patrícia.

Araújo, em entrevista, contou que Marcelo Vitorino, sócio da consultoria, era o responsável pela organização da equipe, porém os pagamentos deveriam ser feitos por Patrícia e sua campanha – o que ela nega.

Eduardo Araújo diz ainda ter participado de quatro reuniões presenciais até Patrícia Lélis informar que havia efetuado o pagamento a Vitorino. Ele afirma que existiria um áudio de duas horas que comprovaria a versão dos que se dizem vítimas de calote – pelo Twitter, ele ameaçou divulgar o conteúdo caso Patrícia siga se recusando a pagar o que supostamente deve (veja a postagem abaixo). Araújo disse ter aberto processo contra Patrícia em 21 de janeiro, mas preferiu não dar detalhes.

 

Vitorino disse, também pelas redes sociais, ter acionado judicialmente a ex-candidata e afirmou que não faltariam provas e testemunhas de que a jornalista teria simplesmente se recusado a efetuar os pagamentos. Procurado pela reportagem, ele não respondeu ao pedido de entrevista.

Bloqueio de Patrícia Lélis 
Fontes envolvidas na campanha informam que Patrícia Lélis teria bloqueado os funcionários no WhatsApp e em outras redes, recusando-se simplesmente a tratar dos pagamentos pendentes. Araújo postou, no Twitter, print do grupo do WhatsApp da então candidata, no qual ela pergunta se deveria “tirar toda a equipe do Marcelo” da campanha.

 

Versão corroborada por Roberta Alves. Segundo ela, Patrícia “começou a ignorar nossas mensagens, no dia da primeira parcela do pagamento ela sumiu”. A ex-colaboradora da jornalista acrescenta que Patrícia Lélis a teria ameaçado de processo por calúnia e difamação após tomar conhecimento de sua postagem no Facebook denunciando a situação.

Roberta Alves disponibilizou uma série de prints de conversas por WhatsApp que teve com a mãe de Patrícia Lélis, Maria Aparecida, que auxiliou a campanha. Em um dos prints, ela diz que iria confirmar com o partido, o Pros, se “o depósito foi feito” na conta e que então distribuiriam o valor para os funcionários. Os depósitos, diz Roberta, nunca foram feitos.

A mulher acrescentou que a mãe de Patrícia teria exigido relatórios de produtividade, que ela diz ter enviado, para proceder o pagamento.

Pelo Facebook, Patrícia disse ter contratado Marcelo Vitorino como marqueteiro e que ele teria deixado sua campanha no meio do processo eleitoral, além de ter alugado o QG de campanha e funcionários sem consultá-la –, entre eles, pessoas que não seriam feministas e que teriam curtido páginas pró-Bolsonaro.

Confira: 

 

Patrícia fala
Em entrevista, Patrícia Lélis disse que suas contas de campanha foram aprovadas e que isso seria suficiente para provar sua inocência. Segundo ela, Vitorino teria tentado cobrar muito mais que os valores inicialmente acordados pelos serviços prestados. Na sua avaliação, se alguém não foi pago, seria responsabilidade da empresa Vitorino & Mendonça, e não dela.

A ex-candidata ainda apresentou nota fiscal eletrônica de R$ 38.250, que teriam sido pagos à Vitorino & Mendonça a título de consultoria de marketing, e que esse valor era aquele devido aos funcionários que se dizem lesados. No entanto, segundo planilha postada pela própria jornalista, o valor seria suficiente para cobrir apenas um mês de salário dos funcionários e ao menos um dos entrevistados afirmou que seu contrato era para pelo menos um mês e meio.

Essa nota é emitida pela empresa recebedora para que o pagador possa realizar a prestação de contas, o que indica que ao menos uma parte dos valores devidos foram efetivamente pagos. A nota consta também do sistema eletrônico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em uma série de Stories em seu Instagram, Patrícia disse ter efetuado o pagamento dos valores acordados, mas que achava que os funcionários “não mereciam receber, porque não trabalharam” do jeito que ela queria. A jornalista contou ter pago diretamente “o rapaz” que desenvolveu seu site porque ela “fez questão”. E disse que “gente da própria UNE [União Nacional dos Estudantes]” foi participar da campanha dela e não fazia “bosta nenhuma”, mas queria receber pagamento.

A jornalista informou ainda ter dito para Vitorino largar a campanha e que “as pessoas pararam de trabalhar”, acrescentando que, na mesma semana, elas teriam entrado no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), informando que não teriam sido pagas. No Twitter, Patrícia Lélis, fazendo referência ao post de Roberta Alves, diz que não a pagou – isso seria responsabilidade de Vitorino.

Em contato com a redação, Patrícia confirmou o que havia dito em seus Stories. Acrescentou que, após os funcionários reclamarem, ela foi intimada pelo juiz eleitoral a prestar esclarecimentos. Perguntada sobre o nome do juiz, não respondeu.

Eduardo Araújo, no entanto, afirma que seu contrato, firmado diretamente com a então candidata, era de um mês e meio, e disse não ter recebido nem um centavo pelo trabalho. Em entrevista, ele afirmou ter recebido um e-mail de Natália Mendonça, sócia de Marcelo Vitorino, no qual ela diz saber que os funcionários estão “todos apreensivos quanto à questão do pagamento e quero falar algumas coisas com vocês”. Na sequência, a sócia diz entender “o que estão passando e estamos fazendo tudo que está a nosso alcance para que esses pagamentos sejam feitos”.

Ainda no texto, Natália afirma que fez “o contrato de todo mundo, cobramos a assinatura da Patrícia e agora escalamos a questão para os membros do partido”. Segundo o e-mail, o Pros, sigla pela qual a jornalista disputou a eleição, estaria ciente do problema, e ela acrescenta que Patrícia Lélis e a mãe “informaram um orçamento e fizemos todo o processo seletivo e de contratação com vocês dentro desse orçamento que recebemos. Entretanto, elas fizeram confusão com a verba do partido e esse repasse do PROS para a conta de campanha dela está represado”.

O Pros foi contatado, mas, até o fechamento desta matéria, não se manifestou. O espaço permanece aberto a futuras manifestações da sigla.

Exceção
Ao menos um funcionário da campanha de Patrícia, Gabryel Possato, que disse ter trabalhado na área de mídia social, afirmou em entrevista ter recebido os valores devidos. A ele teria sido repassado até mais do que o valor acordado. Possato acrescentou que “a galera do Vitorino só atrapalhava e ele não atendia as chamadas dela”.

Segundo ele, os funcionários contratados por Vitorino “não faziam muita coisa, chegaram a fazer post do Alckmin na página da Patrícia, sendo que ela defendia o Haddad”. Possato não era parte da equipe de Vitorino e tinha contrato direto com Patrícia e a sua assessora chefe. O pagamento a Possato, porém, não consta do sistema de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do TSE.

Voluntária na campanha, Jéssica Pantoja, que diz ter ajudado a cuidar da mídia social de Patrícia, entre outras atividades, afirma que “ela [a ex-candidata] estava cuidando de tudo sozinha”, apenas com ajuda do pai e da mãe. Segundo a voluntária, os funcionários contratados por Vitorino não colaboravam.

Patrícia afirma ter prestado esclarecimentos a um juiz eleitoral e que este teria entendido que o marqueteiro agiu de má-fé. Assim, o magistrado, segundo a jornalista, acabou “anulando os contratos” firmados com Vitorino – o problema é que juízes do TSE não têm o poder ou a capacidade para anular contratos civis, segundo informaram advogados consultados.

Além disso é possível a aprovação de contas de campanha com alguns inadimplementos, ou seja, com ressalvas. O artigo 30 da Lei das Eleições (Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997) afirma que “a existência de dívida de campanha não obsta a aprovação das contas do candidato […] ainda que expressivo o percentual de valores divergentes, é possível aplicar o princípio da proporcionalidade e aprovar contas com ressalvas cujos valores absolutos sejam pequenos”.

Em entrevista por Whatsapp, Patrícia Lélis destacou: “A moça que acusa que não recebeu [Roberta Alves], mas na verdade trabalhou três dias na campanha, não entrou com processo e eu a processei por calúnia e difamação e chamei outras pessoas que trabalharam na campanha para serem testemunhas. Quem trabalhou, recebeu”. A ex-candidata preferiu não informar detalhes do processo.

Ao menos 10 funcionários que constam de planilha divulgada por Patrícia Lélis afirmaram não ter recebido os valores devidos por seu trabalho. No entanto, apenas um deles, segundo foi possível apurar, efetivamente abriu processo na Justiça. Se os pagamentos deveriam ter sido feitos por Patrícia Lélis ou Marcelo Vitorino e sua sócia – ou se foram feitos – segue um mistério. Os funcionários entrevistados informaram que seus advogados não permitiriam a divulgação de contratos e outros documentos enquanto o processo corresse na Justiça.