Michelle pressiona por autismo no censo, mas Bolsonaro sinaliza veto

Senado aprovou projeto de lei para incluir a deficiência na pesquisa do IBGE. No dia seguinte, primeira-dama falou com familiares

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atualizado 12/07/2019 22:08

Movimentos sociais que pedem a inclusão do autismo no censo demográfico elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) buscaram, no Palácio do Planalto, a chancela do projeto de lei sobre o tema, aprovado no Senado no início do mês. Enquanto um grupo se reunia com representantes na Secretaria de Governo, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, direcionou-se a familiares que erguiam faixas do lado de fora para oferecer apoio. “Estou conversando com Paulo Guedes”, afirmou, no dia 3 de julho.

O projeto (PLC 139/2018) foi proposto pela deputada Carmen Zanotto (Cidadania-SC). A matéria chegou a ser retirada da pauta no dia 26 de junho, a pedido do senador Fernando Bezerra (MDB-PE), líder do governo na Casa, por influência do ministro da Economia. Na noite de 2 de julho, dia de manifestação no Congresso, voltou ao plenário e foi aprovada. A etapa, agora, é de aguardo pela sanção ou veto do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Pais, amigos e familiares de pessoas autistas participaram do protesto no Congresso Nacional

No dia seguinte, os manifestantes se mobilizaram novamente, desta vez na sede do governo, ocasião em que houve intervenção de Michelle – pessoa mais próxima ao presidente com quem os manifestantes conseguiram contato durante as negociações. “Ela tem um coração bom”, respondeu Bolsonaro, ao ser questionado sobre o tema nessa quinta-feira (11/07/2019), sem revelar qual seria sua decisão final.

Ligada às causas sociais, nesta semana a esposa do presidente assumiu o comando de um conselho para dar direcionamento ao programa federal Pátria Voluntária, com foco na população vulnerável, incluindo deficientes. O grupo é composto por 12 ministros e 11 representantes da sociedade civil. Entre eles, Paulo Guedes.

Nesta sexta (12/07/2019), o presidente explicitou no Twitter que a tendência é vetar o projeto que chegou ao Planalto no dia 8 de julho. Ele tem até o dia 26 deste mês para tomar a decisão.

A postagem inclui um vídeo em que a presidente do IBGE, Susana Cordeiro Guerra, afirma que o censo não é a pesquisa adequada para o levantamento do número de autistas no Brasil. “Essa condição merece um levantamento específico, com treinamento direcionado à apuração desses dados”, explicou.


A proposta é que as perguntas sejam incluídas na Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílio (Pnad), segundo a presidente, com resultados divulgados dois anos antes do censo e com maior periodicidade. A amostra, no entanto, é muito menor.

Para os movimentos sociais, há dúvidas se as questões que impedem a inclusão são técnicas ou econômicas. O IBGE passa por restrições orçamentárias, e o questionário básico do censo foi reduzido de 37 para 25 perguntas.

Durante a reunião no 4º andar do Palácio do Planalto, no dia 3 de julho, houve clima de tensão. “Não vamos aceitar essa troca de jeito nenhum”, afirmou Vinícius Mariano, membro do Movimento Orgulho Autista Brasil (Moab), que participou da negociação. “Semana que vem vamos de novo ao Congresso. Não vamos desistir se houver veto”, antecipou.

Drama pessoal
A primeira espera dos pais é pelo diagnóstico correto da deficiência. Esposa do militante Vinícius Mariano, Julianna Côrtez, de 31 anos, enfrentou muitas filas no Sistema Único de Saúde (SUS) até que o filho Lucas Henrique Côrtez, 12, passasse a ser tratado como autista.

A gente ama nossos filhos, mas não posso dizer que é fácil. Tem gente que romantiza

mãe de Luiz Henrique

“O país não está preparado. É uma coisa muito desgastada. Deixa nós, mães, com uma sensação de impotência tão grande. O incentivo, no início, faz toda a diferença. Quanto antes descobrir, mais chance a criança tem. Esse tempo vale um mundo”, afirmou Julianna.

O filho sofreu bullying na escola e a mãe passou a frequentar o local nos horários de recreio, para assegurar que ele ficaria bem. “Eles não percebem a maldade que tem por trás”, disse. Até encontrar um colégio adequado, Julianna foi a 17 diferentes instituições.“Não há preparação dos professores. Fazem um treinamento padrão que eu não acho que funcione”, opinou.

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