*
 

Michelle de Paula Firmo Reinaldo desembarcava na Esplanada dos Ministérios diariamente para trabalhar como secretária no Congresso Nacional. Passava pelo Palácio do Planalto e nem imaginava que, em 1º de janeiro de 2019, subiria aquela rampa como primeira-dama, ao lado do presidente da República eleito, Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Os dias de anonimato da mulher nascida em Ceilândia, evangélica, torcedora do Flamengo, filha de nordestinos, cujo pai sustentava a casa como motorista de ônibus, ficaram para trás. Os olhos do país estão voltados para Michelle que, nas raras aparições públicas, apresentou-se informal e discreta.

Michelle apareceu pela primeira vez em propaganda eleitoral de Bolsonaro na TV durante a última quinta-feira (25/10), três dias antes do segundo turno. Foi apresentada como uma pessoa “forte e sensível, dedicada à causa das pessoas com deficiência e que estará ao lado de Jair Bolsonaro trabalhando pelo Brasil”.

Assista:

 

“O Jair tem um brilho diferenciado no olhar. É um cara humano, que se preocupa com as pessoas. Muito brincalhão, muito natural, muito dado”, afirmou a futura primeira-dama. “Quem conhece, quem convive, sabe que ele é assim. É meu amor, né?”, completou.

O deputado Alberto Fraga (DEM), articulador político de Bolsonaro, indica que Michelle deve ter envolvimento com a área social dentro do governo. “Ela é simples, de origem humilde, tenho certeza que terá um papel muito importante, cuidando dos direitos das crianças e das mulheres, especialmente”, diz.

Fraga descreve Michelle como “amável, solícita e agradável”. A sequência de três adjetivos remete a uma versão reformulada do “bela, recatada e do lar”, características atribuídas à antecessora da senhora Bolsonaro, Marcela Temer.

A mulher de Michel Temer esteve à frente do programa Criança Feliz, que funciona em menos da metade dos municípios brasileiros – 2.367 de 5.570 –, com ações voltadas para o desenvolvimento na primeira infância.

Michelle sempre destacou em suas redes sociais – ela manteve perfil no Facebook até 2017 e no Twitter até 2014 – o envolvimento em atividades voluntárias. “A ação social, que eu já fazia antes de conhecê-lo, é um chamado que tenho. Farei todos os trabalhos possíveis nessa área”, afirmou em uma rara entrevista, dada ao Jornal Nacional, exibida em 26/10.

Em uma foto (veja abaixo) aparece vestida de palhaça em visita a um hospital, como parte da Trupe Miolo Mole. A ONG declarou por meio de nota não ter nenhum vínculo com qualquer candidato.

Reprodução do Facebook

Michelle de Paula Firmo Reinaldo em ação social (segunda da esquerda para a direita )

 

Mulher blindada
Michelle ficou ao lado do marido no hospital após ele levar uma facada durante comício em setembro, mas raramente apareceu na portaria da unidade de saúde. Entrava e saía sem chamar atenção. Foi a alguns eventos de campanha, mas poucas vezes se pronunciou.


Um dos momentos de destaque à figura de Michelle foi a divulgação de um vídeo em redes sociais no qual ela usou a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar com eleitores do marido. Ela aprendeu Libras com um tio, que é surdo.

Blindados, parentes de Michelle também se recusaram a conversar com a imprensa durante todo o período anterior ao pleito. Havia ordens expressas da família Bolsonaro para que ninguém comentasse nem o mínimo detalhe a respeito de Michelle.

Reprodução do Facebook


“Já foi conversado e não temos autorização para falar sobre esse tipo de assunto”, afirmou um parente. Uma prima repetiu o mesmo discurso ao ser procurada pelo
Metrópoles.

Amor na Esplanada
Boa parte dos familiares de Michelle vive em Ceilândia, onde ela nasceu e viveu, até tornar-se namorada de Bolsonaro, em 2007. Os dois se conheceram no Congresso Nacional. “Tudo começou quando nos vimos pela primeira vez, no gabinete do Jair. Não demorou muito para termos a certeza de que queríamos dividir uma vida a dois”, afirmou a futura primeira-dama em entrevista a uma revista carioca, anos depois.

Após seis meses de namoro, o político a pediu em noivado e, passados 90 dias, os dois se casaram no civil, em novembro daquele mesmo ano. Ela trabalhou no gabinete do companheiro, mas foi exonerada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2008: a presença da mulher no gabinete do marido configurava nepotismo.

Só em 2014, os dois realizaram uma cerimônia luxuosa e religiosa para 150 convidados, no Rio de Janeiro. O casamento foi celebrado pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, igreja da qual a noiva fez parte até 2016, quando o casal Bolsonaro rompeu com Malafaia. Atualmente, ela frequenta a igreja Batista Atitude, na capital fluminense.

Michelle tornou-se a terceira senhora Bolsonaro, uma dona de casa da Barra da Tijuca, onde vive com o político; a filha deles, Laura, de 8 anos; e outra adolescente, fruto de relacionamento anterior da primeira-dama. Ela tem 36 anos e está com o presidente eleito, de 63, desde 2007.

A senhora Bolsonaro também aparenta se interessar pela área da Saúde. Chegou a matricular-se na faculdade Estácio de Sá para cursar farmácia, mas nunca apareceu nas aulas.

A futura primeira-dama se manteve discreta e recusou a conceder entrevistas durante toda a campanha. Cultivou fama de reservada, mas já posou para capa de uma revista de noivas (veja abaixo) e teve o casamento publicado em coluna social.

Divulgação

 

Origens
O pai dela é o motorista de ônibus aposentado Vicente de Paulo Reinaldo. “O meu sogro mora aqui em Ceilândia, é conhecido como Paulo Negão. Dele posso dizer que não gosto muito, com todo o respeito. Brincadeira! Ele é um amigo! E sou apaixonado pela filha dele!”, afirmou Bolsonaro em discurso na Câmara, ao se defender de acusações de racismo.

O deputado federal mencionou o sogro para rebater denúncias relacionadas à polêmica envolvendo a cantora Preta Gil. A artista perguntou ao parlamentar o que ele acharia se os filhos se relacionassem com negras, ao que ele respondeu:

Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados. Não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu"
Jair Bolsonaro, à cantora Preta Gil
Reprodução Facebook

Michelle e Jair Bolsonaro com os pais da noiva


Sobre a mãe de Michelle, Maria das Graças Firmo Ferreira, pouco se sabe. A única imagem no Google é uma foto do casamento de Michelle e Jair (acima), na qual o casal aparece com os pais da noiva.

“Minha mãe sempre nos ensinou que não devíamos negar água e comida para ninguém”, disse Michelle no programa eleitoral. Em um prédio onde morou, a futura primeira-dama servia chocolate quente aos porteiros. Também decorava a casa com gérberas amarelas.

“Ela não tinha manchas roxas no corpo”
No Facebook, a cantora gospel Eyshila descreveu um encontro com Michelle Bolsonaro.

“Certa noite, fui cantar na @advecbarra e, no final do culto, como de praxe, os irmãos fizeram um jantar para nos recepcionar. Olhei para o lado e vi uma moça muito bonita, sorrindo e servindo a mesa como voluntária na casa de Deus. Ela não se apresentou, não pediu pra tirar foto, não revelou seu sobrenome e, só depois de muito tempo, eu soube quem era”, disse a artista.

Sobre a fama de agressivo atribuída a Bolsonaro, a cantora afirmou: “No início deste ano, eu tive o prazer de reencontrá-la [Michelle] na conferência #Modeladas da @comunidadedasnacoes em Brasília, e ela também não tinha manchas roxas no corpo nem parecia uma mulher mal-amada”.


Liberdade consentida
Baseado nos casamentos anteriores de Bolsonaro, é difícil esperar que Michelle se sobressaia à figura do marido. Em entrevista à revista Istoé Gente, em fevereiro de 2000, o presidente eleito explicou o divórcio com a primeira mulher, Rogéria, desta maneira:

“Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a frequentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas ideias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei.”

Rogéria é a mãe dos três filhos mais velhos de Bolsonaro (todos políticos): Carlos, Flávio e Eduardo.

Nos eventos de campanha, Michelle foi vista endossando falas do candidato, inclusive as mais polêmicas sobre “ideologia de gênero”. Durante um culto, Bolsonaro afirmou que “graças a Deus os filhos homens são homens e a mulher é mulher”. Baixinho, Michelle disse amém.