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Derrotado na disputa presidencial e tendo que driblar resistências de legendas que temem um protagonismo do PT na oposição contra Jair Bolsonaro, o partido de Fernando Haddad se articula para recuperar parte perdida de sua inserção social e, com isso, combater o sentimento de rejeição, que saiu fortalecido das urnas.

Diante da aposta de que o próximo governo será permeado por violações sucessivas de direitos, alguns integrantes do partido já buscam uma grande aproximação com entidades defensoras de direitos humanos, sindicatos, Igreja Católica, igrejas evangélicas progressistas, universidades e organizações internacionais. O objetivo é instalar um observatório permanente de direitos humanos no Brasil.

A iniciativa ainda está sendo amadurecida no partido, que saiu das eleições com as “recomendações” do rapper Mano Brown ecoando nos ouvidos. O músico disse: “Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base”. Na campanha, o petista Fernando Haddad, derrotado na disputada pelo Planalto, deu razão ao artista.

Caetano, Mano Brown, Haddad e Chico Buarque: rapper recomendou sigla a voltar às bases para entender vontade do povo

 

O “observatório” teria um caráter suprapartidário. “Nosso objetivo será catalogar e vigiar qualquer ameaça aos direitos humanos que, eventualmente, o novo governo faça. Intimidações a professores, retrocesso em relação aos direitos de LGBTs, de mulheres, negros e defesa da tortura. Nosso objetivo é fazer uma oposição fiscalizadora”, explicou o ex-ministro Ricardo Berzoini, que coordenou a pré-campanha de Haddad.

De olho nas eleições de 2020 e 2022, também importante vantagem de se ter uma articulação que extrapola as cúpulas do Congresso é a condição de dar ao candidato derrotado e a outros petistas a possibilidade de melhor diálogo com vários setores da sociedade.

Tentativa de isolamento
Na primeira semana após a definição do futuro presidente da República, enquanto a equipe de Jair Bolsonaro se debatia em meio a integrações e não fusões entre pastas da Esplanada, à escolha dos futuros ministros e a assuntos relacionados à transição de governo, a disputa por um posto de destaque no campo da oposição começou a ser puxada, principalmente pelo senador eleito Cid Gomes (PDT-CE).

Na intenção de isolar o PT,  Cid, irmão do presidenciável Ciro Gomes (que ficou em terceiro lugar na corrida presidencial), percorreu gabinetes e angariou adesões nesta semana. Um dos apoios é o do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que já marcou um jantar para o próximo dia 21 de novembro, em sua casa, em Brasília.

“Chamei de 13 a 14 senadores do PPS, PSB, PDT e Rede”, disse Randolfe. “O PT poderá aderir, mas nossa frente tem compromissos muito firmes com o combate à desigualdade, a defesa da democracia e o combate à corrupção”, completou.

Divulgação

Senador reeleito Randolfe Rodrigues recebeu a visita de seu colega na próxima legislatura Cid Gomes para discutirem oposição a Bolsonaro

 

Eleição na Câmara
Enquanto legendas como Rede, PSB e PPS demonstram pressa em aderir ao movimento contrário a Bolsonaro – iniciado pelo pedetista Ciro Gomes –, a ordem no PT é esperar que as condições do novo Parlamento sejam dadas após a posse dos eleitos, em fevereiro.

Até lá, o PT terá decisões políticas importantes a tomar. Uma delas envolve a presidência da Câmara. O PT fez a maior bancada de deputados (57) e o partido de Bolsonaro, o PSL, a segunda maior (com 52 deputados eleitos).

A tendência da bancada do PSL é crescer, ao contrário do contingente petista. Diante disso, articuladores da legenda de Haddad e Lula ainda observarão se será viável a formação ou não de bloco e se haverá, em janeiro, ambiente propício de respeito ao princípio da proporcionalidade, no qual o partido de maior bancada indica o presidente da Câmara. Apesar de ser constitucional, já houve momentos nos quais a proporcionalidade foi ignorada pelos parlamentares.

A formalização de um bloco parlamentar requer apenas um líder e, assim, pode não ser interessante ao partido ceder essa posição a algum aliado e não ter voz preponderante contra o presidente eleito. Outra decisão política que o PT terá de tomar diz respeito à participação das mesas diretoras da Câmara e do Senado. Isso dependerá do grupo político que ascender nas duas casas legislativas.

Divisão no PCdoB
Legendas aliadas do PT nas eleições e que participaram de reuniões nesta semana também apresentam divergências internas quanto à formação do campo oposicionista. No caso do PCdoB, o deputado Orlando Silva participou de uma reunião na Câmara com André Figueiredo, líder do PDT, e com Tadeu Alencar (PSB-PE). O encontro foi a primeira iniciativa de formação de um bloco oposicionista sem o PT. Outra reunião entre os três líderes está marcada para a próxima quarta-feira (7/11).

Já a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) não foi ao encontro e questionou se a articulação representava o campo oposicionista. “Oposição? Não, a oposição ainda não se reuniu”, disse a parlamentar. “Isso ocorrerá mais para frente. O que vamos precisar é de união daqui para frente e não construir mais muros dentro do Congresso. Intrigas sempre virão, o que não podemos é embarcar nelas”, argumentou a deputada.

No PSB, a decisão sobre os rumos da sigla no campo oposicionista será definida na próxima segunda (5), quando a comissão executiva da legenda pretende deliberar sobre o papel do partido no novo cenário político nacional.