Preso desde abril de 2018 na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi autorizado a conceder entrevista aos jornais Folha de S.Paulo e El País nesta sexta-feira (26/04/2019). Com forte discurso em favor de sua inocência, o petista afirmou que tem “obsessão em desmascarar Sergio Moro”, ex-juiz da Lava Jato responsável pela sentença no caso do triplex do Guarujá (SP) e atual ministro da Justiça e Segurança Pública.

“Eu tenho tanta obsessão de desmascarar o Moro, o Deltan Dallagnol [procurador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba] e a sua turma. Eu ficarei preso 100 anos, mas não trocarei a minha liberdade pela minha dignidade. Eu quero provar a farsa montada”, argumentou Lula.

O líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta, transmitiu parte da entrevista ao El País em uma live nas redes sociais (veja trecho abaixo). Nas cenas mostradas, Lula afirmou que não guarda mágoas pela condenação “injusta”. “Na minha idade, quando a gente fica com ódio, morre antes. Como acho que sou um ser humano que vai viver até 120 [anos], vou trabalhar muito pra provar a minha inocência”, disse.

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Durante a entrevista, o petista voltou a atacar o ministro da Justiça e da Segurança Pública e o procurador da Lava Jato. “Eu tenho certeza que eu durmo todo o dia com a minha consciência tranquila. O Dallagnol não dorme, nem o Moro. Ele [o ex-juiz] tem certeza que sou inocente. O Dallagnol sabe que é um mentiroso, mentiu a meu respeito”, afirmou.

Lula também questionou o método usado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) para julgar o processo no qual foi condenado em segunda instância – inicialmente, sentenciado a cumprir pena de 12 anos e 1 mês de prisão, depois modificada por uma decisão da 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para 8 anos, 10 meses e 20 dias de reclusão. “Aqueles juízes do TRF-4 que nem leram a sentença. Fizeram um acordo. Era só todo mundo ter votado igual que dava na mesma”, criticou.

Governo Lula
O petista lembrou do seu mandato como presidente da República. Ele se disse responsável por “recuperar o orgulho e a autoestima do país”. “Quem tem 73 anos de idade, estabeleceu as relações neste país, governou como eu governei, não pode se entregar. Eu tô muito preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro”, declarou.

“Fui o único a ser chamado para todas as reuniões do G8 [grupo dos oito países mais ricos]. O Brasil era importante, e tudo isso desmanchou”, avaliou o ex-presidente. E concluiu: “Quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os 5 anos não se curva mais a nada. Adoraria estar em casa com meus filhos e netos, mas não faço nenhuma questão agora, porque eu quero sair daqui com a cabeça erguida”.

Morte do neto
Com os olhos marejados, o ex-presidente comentou a morte do neto, Arthur Araújo Lula da Silva, aos 7 anos, há menos de dois meses. Ele também falou sobre o falecimento do irmão, o Vavá, em janeiro deste ano. “Esses dois momentos foram os mais graves”, lembrou Lula, citando também a perda do ex-deputado Sigmaringa Seixas, morto no final do ano passado.

“O Vavá é como se fosse um pai pra família toda. E a morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não… [pausa e chora]. Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver”, disse o ex-presidente.

“Bando de loucos”
O petista avaliou que o Brasil precisa fazer uma autocrítica e tem sido governado “por um bando de maluco”. Ele agradeceu ainda a solidariedade do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, sobre a morte do neto Artur.

“Vamos fazer uma autocrítica geral neste país. O que não pode é este país estar governado por esse bando de maluco. O país não merece isso e, sobretudo, o povo não merece isso”, disse o ex-presidente.