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No primeiro encontro nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), após a sigla ser derrotada na disputa presidencial por Jair Bolsonaro (PSL), a luta em defesa da liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no centro das falas de todos os dirigentes reunidos em Brasília nessa sexta-feira (30/11) e sábado (1º/12).

Contudo, não há ilusões quanto à formação de uma frente de partidos que possa engrossar o caldo para tirar o líder petista, condenado na Lava Jato, da prisão. A cúpula partidária também reconhece a dificuldade de a legenda compor com outras siglas de esquerda na ofensiva à próxima gestão federal. Aos 39 anos, o PT está isolado.

Os petistas estão céticos em relação à adesão de outras legendas, como PDT, PCdoB, PSB e PSol, no que consideram estratégico e prioritário para o partido neste momento: a libertação de seu maior líder – preso desde abril deste ano na Carceragem da Polícia Federal de Curitiba (PR), após ser condenado em segunda instância no processo referente à propriedade de um apartamento triplex no Guarujá, litoral de São Paulo.

Na avaliação de alguns dirigentes, se a luta central é a liberdade de Lula, a estratégia não pode ser a formação de uma frente partidária. O melhor seria a composição de uma frente ampla, com movimentos sociais e articulações com entidades internacionais. Uma frente partidária funcionaria mais como forma de articulação no Congresso Nacional contra medidas a serem tomadas pelo governo de Jair Bolsonaro.

A presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, disse que o diálogo está em curso com as demais legendas para formar uma oposição forte a Bolsonaro. Segundo ela, essas conversas não passam necessariamente pela formação de bloco no Congresso. “Estamos em conversas com os partidos no sentido de formarmos uma frente ampla de defesa da democracia”, disse Gleisi em entrevista durante um dos intervalos da reunião dessa sexta (30).

Embora as duas mesas formadas fossem para analisar erros e acertos da sigla nas eleições e ainda projetar o que será o governo de Bolsonaro, a avaliação de que a luta por Lula não une as legendas esteve na fala de quase todos os dirigentes.

Economia
A reunião não contou com o presidenciável do partido derrotado, Fernando Haddad, que está nos Estados Unidos para debater o cenário político do Brasil. A ex-presidente Dilma Rousseff, que perdeu as eleições para o Senado Federal por Minas Gerais, fez-se presente e defendeu que a luta pela liberdade de Lula deve ocorrer em articulação com movimentos sociais, não com partidos.

Dilma fez uma avaliação dos últimos anos de seu mandato na área econômica, defendeu algumas medidas consideradas amargas e projetou um 2019 com relativo e leve crescimento, no primeiro ano do governo de Bolsonaro.

No entanto, a ex-presidente acredita que o alivio na economia será breve e que o presidente eleito terá, como ela, de enfrentar problemas a partir de 2020, a depender dos preços das commodities e do petróleo.

Antipetismo
Além do sentimento antipetista que pautou o voto nas Eleições 2018, o PT também tem enfrentado a rejeição de outros partidos de centro-esquerda, antes considerados aliados. São legendas como PDT, PSol e PSB, que querem ganhar protagonismo como “nova oposição”, mas que não cogitam a hipótese de aparecerem à sombra do PT.

Deputados presentes à reunião se disseram preocupados com o sentimento antipetista, crescente nos últimos anos e mais observado agora no campo da esquerda. Alguns chegaram a defender um estudo pormenorizado do assunto como forma de estabelecer estratégia para seu enfrentamento.

Causa e consequência
Do encontro, sairá um documento. O texto-base, a ser votado no fim de semana, aponta 74 itens nos quais estão listados possíveis causas e consequências da derrota do partido nas urnas. Na primeira versão, contavam avaliações de perda de apoio popular, exceto no Nordeste, e medidas econômicas tomadas por Dilma em seu governo. No entanto, as críticas à gestão da ex-presidente devem ser retiradas do texto final.

Além disso, o documento trata da forma com a qual o partido se relacionou com o tema do combate à corrupção, além de erros cometidos durante a campanha, entre eles, o afastamento de Lula da disputa, terem subestimado da capacidade de Bolsonaro vencer e até as mudanças feitas na comunicação do partido na logomarca da campanha de Haddad.

Mobilização internacional
A viagem de Fernando Haddad aos Estados Unidos nesta semana é apenas o início da mobilização internacional pretendida pelo partido em torno da liberdade de Lula. Um dos compromissos de Haddad no exterior é também articular um encontro com lideranças mundiais, que ocorrerá em São Paulo no próximo dia 10 de dezembro, pedindo a libertação de Lula.

O PT quer chamar atenção do mundo ao que considera injusto e persecutório – como descreveu o próprio Lula, em carta lida no primeiro dia de encontro do Diretório Nacional da sigla. Entre as personalidades esperadas, está a professora norte-americana Angela Davis, integrante do Partido Comunista dos Estados Unidos e militante dos Panteras Negras, pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial.

O partido também espera contar com a presença do economista grego Yanis Varoufakis, com quem Haddad se encontrou nos Estados Unidos durante reunião da Internacional Progressista, coordenada pelo senador norte-americano Bernie Sanders.

A organização idealiza uma reação global ao autoritarismo em favor dos mais ricos, capitaneado pelo atual presidente norte-americano, Donald Trump. Além da oposição a Bolsonaro, o PT quer pautar a liberdade de Lula na agenda dessa mobilização. Pode ser o primeiro passo para superar o quadro de isolamento político do partido.