Em jornal britânico, diplomatas atacam “desmonte” do Itamaraty

The Guardian ouviu atuais e ex-servidores do Ministério das Relações Exteriores para traçar duro retrato da nova política externa brasileira

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência BrasilFabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

atualizado 25/06/2019 20:35

Um corpo diplomático “arguto, confiável e altamente treinado”, próximo de completar 200 anos de atuação, está sendo desmontado pela “revolução bolsonarista” conduzida pelo chanceler Ernesto Araújo. A dura avaliação foi o retrato apresentado pelo jornal britânico The Guardian da situação atual do Itamaraty sob a nova ordem, em reportagem publicada nesta terça-feira (25/06/2019), após consulta a “dezenas de diplomatas veteranos”.

Os personagens ouvidos pela publicação dão nome e sobrenome  – e eles pertencem a figuras extremamente respeitadas dentro do Ministério das Relações Exteriores. Vários, inclusive, são de servidores com pouca – ou nenhuma – ligação com os governos petistas dos últimos anos, algo constantemente utilizado para desmerecer críticas nos primeiros meses da nova administração.

Um dos nomes mais reluzentes é o do embaixador aposentado Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda no governo de Itamar Franco (1993 e 1994), ex-embaixador na Itália e nos Estados Unidos e ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Me sinto enojado”, desabafou, sem filtros, o diplomata. “O que eu ouço dos meus colegas que ainda estão ativos é que, no corpo diplomático, há quase uma completa rejeição ao ministro e às diretrizes atuais … Ele não é levado a sério – nem dentro nem fora do ministério.”

As principais queixas referem-se ao alinhamento quase automático aos Estados Unidos; à defesa de controversos líderes de direita ou extrema-direita nacionalistas pelo mundo, como o premiê da Hungria, Viktor Orbán, e ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu; à reversão de décadas de esforços por mecanismos de maior controle ambiental; e às alfinetadas à China, maior parceira comercial do país hoje.

Tradição “pulverizada”

Desde que o” líder da extrema-direita” Jair Bolsonaro assumiu as rédeas do país, assinala o The Guardian, o novo comando do Itamaraty “se pôs a pulverizar décadas de tradição diplomática”, que ajudaram a transformar o Brasil em um líder global das questões do clima e um “peso-pesado do soft power” (poder suave, em tradução livre; influência não determinada por força das armas ou poderio econômico).

Tudo sob um ministro “pregador da Bíblia pró-Trump” que alega que aquecimento global é “uma conspiração marxista” e nazismo foi “um movimento de esquerda”, prossegue o jornal, um dos mais influentes no cenário europeu.

“Nossa atual política externa leva o Brasil de volta a um período histórico no qual o país nem existia: a Idade Média”, sentenciou, furibundo, um dos mais celebrados diplomatas da sua geração, Roberto Abdenur.

Ele foi embaixador, entre outros postos de destaque, na Alemanha, na China e nos Estados Unidos – último posto antes de se aposentar, após bater de frente com o governo Lula, do qual se revelou  crítico ao deixar Washington.

03, Olavo, Bannon…

Outras críticas dos diplomatas expostas na reportagem foram dirigidas a três figuras específicas: ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, o filho “03” do presidente, e apontado como uma espécie de “chanceler de fato”; ao astrólogo/polemista/autodefinido filósofo Olavo de Carvalho, morador da Virgínia, nos Estados Unidos, tido e havido como o “guru” de Ernesto Araújo e de alguns outros integrantes do primeiro escalão bolsonarista; e ao ex-chefe de campanha de Donald Trump, líder de um grupo de extrema-direita que se espalha pelo mundo, Steve Bannon.

Roberto Abdenur, por exemplo, fez questão de assinalar o incômodo com o papel que Bannon parece ter na definição da política externa brasileira da nova era. O norte-americano chegou a apontar “03” como o líder de seu The Movement – como ele intitulou o grupo de extrema-direita que capitaneia  na América do Sul. Com coisas como essa, recebeu um lugar à mesa bolsonarista. Diz Abdenur:

“Estamos na situação absurda, perversa, de termos um cidadão estrangeiro influenciando a política externa brasileira!”, protestou o experiente diplomata.

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