Bolsonaro nega intervir na economia, faz o contrário e Petrobras perde

Presidente faz estatal recuar na alta do preço do diesel e mercado reage negativamente: ações da estatal caem

Alan Santos/PRAlan Santos/PR

atualizado 13/04/2019 0:20

“Nossa política é de mercado aberto e de não intervenção na economia”. Foi dessa maneira que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) procurou justificar, no Twitter, a interferência que fez, nesta sexta-feira (12/4), na Petrobras, ao ligar para presidente da estatal Petrobras, Roberto Castello Branco, e cobrar explicações sobre aumento de 5,7% anunciado para o diesel. Após o contato, a petroleira recuou e adiou o aumento, o que foi encarado pelo mercado exatamente como uma ação intervencionista do governo.

A trapalhada custou caro para a Petrobras: uma perda de R$ 32,4 bilhões em valor de mercado e ações em queda na Bolsa de Nova York e na B3, a Bolsa de São Paulo. O cenário levou o dólar a reboque e a moeda norte-americana fechou o dia com valorização de 0,83%, cotada a R$ 3,8884.

“Não sou economista, já falei que não entendia de economia. Quem entendia afundou o Brasil, tá certo?”, reagiu Bolsonaro. “Estou preocupado também com o transporte de cargas no Brasil, com os caminhoneiros. São pessoas que realmente movimentam as riquezas, de norte a sul, leste a oeste e que têm que ser tratados com devido carinho e consideração. Nós queremos um preço justo para o óleo diesel”, ressaltou.

No Twitter, o presidente Bolsonaro tentou minimizar os fatos e ressaltou que foi comunicado sobre o aumento no preço do combustível às 19h40 dessa quinta (11). “Liguei para o presidente da Petrobrás preocupado com o percentual num nível sequer previsto para a taxa de inflação do corrente ano”, confirmou.

Mas parece que a emenda saiu pior que o soneto. Tanto que o presidente, após retornar do Amapá, onde foi inaugurar o novo aeroporto de Macapá, chamou seus ministros às pressas para fazer uma análise do quadro, o que ele destacou também via Twitter.

“O presidente da Petrobras, após nos ouvir, suspendeu temporariamente o reajuste. Convoquei os responsáveis pela política de preços para reunião”, tuitou o presidente.

O Metrópoles apurou que desta reunião participaram os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional), Floriano Peixoto (Secretaria de Geral da Presidência) e Santos Cruz (Secretaria de Governo). O titular da Economia, Paulo Guedes, em viagem internacional aos EUA, foi a ausência notada.

Aliás, Guedes vestiu a fantasia do marido traído – o último a saber. Em Washington, onde participou de reuniões no Fundo Monetário Internacional (FMI), o ministro confidenciou que não foi informado sobre a decisão do presidente de interferir na alta do diesel. “Eu não sei nem do que vocês estão falando”, disse, ao ser questionado se havia sido informado por Bolsonaro da decisão.

Provocado pelos jornalistas se havia sido pelo menos consultado sobre a medida, o titular da Economia afirmou que não sabia “nem do que se tratava”, pois havia passado o dia inteiro trabalhando.

Silêncio ensurdecedor
“Não tenho informação suficiente”, disse, para depois admitir que a suposição de que ele não tenha sido consultado ou informado é uma “inferência razoável aparentemente”. Mas o ministro disse aos jornalistas que, sobre ao assunto, manteria um “silêncio ensurdecedor aos senhores”.

Eu passei o dia trabalhando, não tenho informações suficientes. Eu tenho um silêncio ensurdecedor para os senhores

Paulo Guedes, ministro da Economia

A atitude intervencionista do governo Bolsonaro sobre a Petrobras foi vista pelo mercado como semelhante a práticas muito criticadas nos anos de governo de Dilma Rousseff (PT), quando o Planalto interferia constantemente na estatal para manter os preços dos combustíveis sob controle.

O que foi refutado por Onyx Lorenzoni, para quem as perdas na Petrobras na gestão da petista se deram por conta apenas “da corrupção”. “No governo Dilma, roubaram mesmo a Petrobras, é diferente. Esse é um governo sério. O nosso não rouba. É muito diferente”, disse o ministro.

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