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Pela primeira vez desde a redemocratização, os brasileiros optaram claramente por candidatos identificados com a direita do espectro político nacional. Com 46,03% dos votos para presidente, o capitão reformado Jair Bolsonaro (PSL) chegou perto de vencer a eleição no primeiro turno e ainda puxou expressivas bancadas para a Câmara e o Senado.

Representante do PT, Fernando Haddad obteve 29,28% das preferências dos eleitores, índice bastante inferior aos 46,91% alcançados por Dilma Rousseff no primeiro turno de 2010 e aos 41,6% de 2014. Líder máximo do partido, Luiz Inácio Lula da Silva conquistou 46,44% dos votos em 2002 e 48,61% em 2006.

O embate mais parecido com a disputa deste ano foi em 1989, quando Lula enfrentou Fernando Collor (PRN) na corrida ao Planalto. Na ocasião, o petista teve 17,18% e o adversário, 30,47%.

Embora Collor fizesse discurso radical contra o comunismo e defendesse posicionamentos antagônicos ao PT, como por exemplo privatizações de estatais, não encampava postura comportamental conservadora nem agregava dogmas religiosos à sua plataforma.

Entre os seguidores de Bolsonaro, estão os representantes dos grupos conhecidos no Congresso como BBB (bala, bíblia e boi), referência pejorativa às bancadas empenhadas na flexibilização do uso de armas pela população, em assuntos religiosos e nas causas do agronegócio.

Os conceitos “direita” e “esquerda”, evidentemente, são falhos para explicar com exatidão os perfis ideológicos e a prática dos políticos brasileiros. Mas, com alguma margem de erro, ajudam a identificar tendências a partir da origem dos detentores de mandatos.

Enquadram-se na esquerda, por exemplo, os políticos que tiveram a formação influenciada pelo marxismo-leninismo. Esse alinhamento foi bastante nítido durante a ditadura, quando despontaram organizações fortemente vinculadas às teorias de Karl Marx e Vladimir Lenin.

Muitos desses grupos permanecem em atuação no cenário nacional encampados pelo PT ou por outros partidos, como PSol, PSTU e Rede. Anterior à ditadura, o PCdoB continua atuante e se alia aos petistas na maior parte das disputas.

A guinada dos eleitores à direita pode ser observada também por meio da distribuição regional dos votos (vide abaixo) e pelo resultado das eleições para os governos estaduais e para o Congresso. Na disputa presidencial, ficou nítida a divisão entre o Nordeste, onde todos os estados deram vitória a Haddad – com exceção do Ceará, onde venceu Ciro Gomes (PDT) –, e as demais unidades da Federação, que preferiram Bolsonaro – salvo o Pará, reduto petista.

Arte/Metrópoles
Com campanha antipetista, Jair Bolsonaro ajudou a eleger políticos que se destacaram por combater as administrações de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Em São Paulo, por exemplo, os dois deputados federais mais votados foram Eduardo Bolsonaro, filho do candidato a presidente, e Joice Hasselmann, ambos da mesma sigla do postulante ao Palácio do Planalto. A bancada paulista também terá Alexandre Frota (PSL) e Kim Kataguiri (DEM), que se notabilizaram nos últimos anos pelo radicalismo no combate aos governos petistas.

Nesse sentido, deve-se destacar que o PSL, antes com apenas Jair Bolsonaro como deputado, agora elegeu 52 representantes para a Câmara.

Para o Senado, Flávio, outro filho do presidenciável, elegeu-se pelo Rio de Janeiro, e o também aliado Major Olímpio conquistou uma das cadeiras pelo estado de São Paulo. Os dois são filiados ao PSL. Importante observar que esses estados têm os maiores colégios eleitorais do país.

A influência de Bolsonaro também ajudou no surpreendente desempenho eleitoral de Wilson Witzel (PSC), que vai disputar o segundo turno para o governo do Rio de Janeiro, e de Antonio Denariun (PSL), na mesma situação em Roraima.