Análise: precipitado, Bolsonaro faz pré-julgamento ao inocentar Neymar

Presidente corre risco de cometer injustiça ao se manifestar em favor do jogador antes do fim das investigações da polícia sobre acusação de estupro

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atualizado 07/06/2019 11:46

O escândalo em torno do jogador Neymar Júnior e da modelo Najila Trindade atrai a atenção e divide as opiniões dos brasileiros. A acusação de estupro contra o atacante da Seleção Brasileira tomou conta do noticiário e deixou dúvidas ainda não esclarecidas pelas diligências policiais.

Situações dessa natureza recomendam cautela por parte dos envolvidos na elucidação do caso. Para evitar injustiças e exposições indevidas, exige-se especial cuidado por parte dos investigadores, de autoridades e da imprensa.

Os vídeos, diálogos e as versões até agora divulgados desautorizam conclusões definitivas, por mais que as pessoas fiquem tentadas a dar um veredito. A palavra final será da Justiça e, antes disso, quaisquer opiniões de terceiros têm a marca da especulação.

Quando a manifestação parte de um governante, adquire peso maior e, por isso, requer ainda mais prudência. Nesse contexto, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) visitou Neymar no hospital, em Brasília, e tornou pública sua impressão sobre o episódio: “Pelo que eu vi até agora, ele é inocente”.

O chefe do Executivo federal agiu sem preocupação com as consequências da declaração. Bastante comum nas redes sociais, esse tipo de atitude tem as características de pré-julgamento. Quando é praticada por um cidadão comum, configura um comportamento leviano. Se parte do presidente da República, pela influência do cargo, o ato reveste-se de maior gravidade.

Se Neymar for vítima de uma armação por parte da modelo, caberá aos investigadores apresentar provas que auxiliem a Justiça a proferir a sentença nesse sentido. Nesse caso, Bolsonaro foi apenas precipitado. Porém, na hipótese de os julgadores entenderem que o jogador estuprou Najila, o titular do Palácio do Planalto cometeu injustiça com uma mulher vítima de um crime sexual. Por mais que os fatos conhecidos induzam determinadas conclusões, o trabalho policial ainda está em andamento e, em tese, o público e o presidente não têm todas as informações até agora apuradas.

Para se fazer uma comparação, o gesto de Bolsonaro parece tão impróprio quanto seria, em 2008, uma hipotética manifestação do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes do desfecho da investigação, em favor dos pais de Isabella Nardoni, mais tarde condenados pela morte da garota. Não é esse o papel de um presidente da República.

Nesse sentido, deve-se registrar que muitas vezes a imprensa também faz pré-julgamento. No escândalo atual, veículos de comunicação, inclusive o Metrópoles, divulgaram sem a devida reflexão a imagem estática extraída de um vídeo do que teria sido o segundo encontro entre o jogador e a modelo.

O frame mostra o momento em que o pé de Neymar atinge o rosto de Najila, cena que induz à conclusão de que ele estaria agredindo a modelo. Quando um trecho do vídeo foi tornado público, viu-se o atacante, na verdade, protegendo-se de tapas que ela desferia nele.

Fatos como esse demonstram as armadilhas surgidas ao longo de uma diligência policial. Por isso, espera-se parcimônia na interpretação das pistas divulgadas pelos envolvidos. Principalmente por parte do presidente da República.

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