Análise: Lula reaparece mesclando “jararaca” com “paz e amor”

O alvo do presidente pode ser o centrão, que não entrou na base do governo de Jair Bolsonaro

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 12/11/2019 12:11

A volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário político brasileiro resgatou duas imagens que o petista cultivou ao longo da carreira. O Lulinha “paz e amor” e a “jararaca”.

O primeiro arquétipo foi criado para as eleições de 2002. Tido por boa parte do eleitorado como radical, o petista amenizou o tom de seus discursos e ascendeu à Presidência. Na saída da cadeia, disse que não queria “vingança”, e fez ataques a personagens, mas não às instituições.

No governo, Lula aliou-se ao centro e fez uma gestão que foi muitas coisas, mas não extremista. Manteve a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, e ampliou programas sociais.

Como resultado, saiu do poder amplamente aprovado pela opinião pública e costurou o centro na vice de Dilma Rousseff, seu “poste”.

O segundo arquétipo, a jararaca, foi criado quando a operação Lava Jato revelava o lado obscuro das práticas políticas do petista. Ele comparou-se à serpente para dizer que não estava morto, apesar do volume de denúncias e das primeiras condenações.

Ao resgatar o perfil mais agressivo, Lula tem como objetivo reaglutinar a esquerda, perdida desde que Jair Bolsonaro (PSL) chegou ao poder.

Com esse movimento, ele pode ter o apoio de algo como 100 deputados. Aí que entra o outro perfil, o “paz e amor”, que soa mais amigável aos ouvidos do centrão.

Ao longo de 10 meses de administração, o atual presidente foi inábil no trato com parlamentares. Assumiu com um centro político disposto a apoiar reformas econômicas e com a segunda maior bancada da Câmara.

No primeiro ano de governo, Bolsonaro afastou de si o centro e implodiu o PSL. Hoje, o capitão da reserva governa com apoio, minguado, de pouco mais de 20 deputados.

Se Lula reconquistar o centro, que foi seu aliado, os problemas de Bolsonaro tendem a aumentar. Rodrigo Maia (DEM-RJ), líder máximo do agrupamento, tem sido o fiador das reformas econômicas, apesar das estocadas das quais foi alvo da primeira família.

Se o centro embarcar no discurso lulista, dificilmente Bolsonaro terá habilidade para reconquistar aquilo que nunca teve e sempre desprezou, o centro.

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