Análise: boquirroto por boquirroto, Guedes vale mais do que Cintra

Assim como o secretário da Receita Federal, ministro também defendeu volta da CPMF, mas sua saída provocaria turbulência na economia do país

Carolina Antunes/PRCarolina Antunes/PR

atualizado 12/09/2019 7:30

Se Marcos Cintra caiu da Receita Federal por ter defendido a criação de um imposto semelhante à Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF), o ministro da Economia, Paulo Guedes, também ultrapassou a linha de corte. Poucos dias atrás, o “Posto Ipiranga” do presidente Jair Bolsonaro (PSL) também enalteceu a cobrança de alíquota em transações bancárias.

Guedes foi explícito em suas intenções na entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico nessa segunda-feira (09/09/2019). Ao ser questionado sobre o assunto, deu detalhes da proposta. O Imposto sobre Transações Financeira (ITF), novo nome do tributo, teria alíquota entre 0,2% e 1% e poderia arrecadar até R$ 150 bilhões por ano.

O ministro também comentou a resistência de Bolsonaro à instituição da alíquota. “Ele (o presidente) não tem entusiasmo, ele não gosta desse imposto sobre transações. Mas preciso desse imposto para desonerar a folha”, explicou Guedes.

Presidente em exercício, o vice, Hamilton Mourão, esclareceu que Bolsonaro mandou o ministro demitir Cintra porque a discussão sobre o ITF se tornou “pública demais”. Se o critério foi esse, o capitão fez vista grossa para a entrevista do titular da Economia.

A tolerância de Bolsonaro com Guedes se explica, ao menos em parte, pela importância estratégica do cargo. Uma coisa é demitir o secretário da Receita Federal, integrante do segundo escalão do governo. Outra, bem diferente, seria trocar o principal ministro da Esplanada, medida que teria desdobramentos na condução da economia brasileira.

Apesar das dificuldades, Guedes consegue dialogar com o Congresso e isso se mostra decisivo para o avanço da reforma da Previdência. Tirá-lo do cargo provocaria turbulências temerárias para o país.

Nesse contexto, boquirroto por boquirroto, Bolsonaro derrubou Cintra, mas preservou o ministro da Economia. O ITF defendido pelos dois é exatamente o mesmo, mas Guedes vale mais para o governo. No jargão militar, pode-se dizer que a queda do secretário camuflou a defesa do imposto feita pelo ministro na entrevista ao Valor Econômico.

O presidente nunca demonstrou entusiasmo com a volta do “imposto do cheque”. Na campanha para o Palácio do Planalto, prometeu não recriar a CPMF. A decisão de reinstituir uma cobrança semelhante, então, caracterizaria um estelionato eleitoral, expressão que traduz situações em que, depois de empossados, os políticos traem os compromissos feitos como candidatos.

Nas últimas semanas, porém, mostrou-se um pouco mais flexível a debater o tema, desde que permitisse desonerações e simplificações nos tributos. A má repercussão das declarações de Guedes e Cintra, aparentemente, fez Bolsonaro desistir do ITF. Pelo menos por enquanto.

Últimas notícias