A descoberta pela Folha de S. Paulo de que o PSL usou candidatas de araque para desviar dinheiro público descortina um pouco do submundo das últimas campanhas eleitorais. Mais grave, a revelação leva para dentro do Palácio do Planalto a lambança feita com dinheiro público pelo partido do presidente Jair Bolsonaro.

No centro do escândalo está o ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência. Coordenador da campanha de Bolsonaro e seu ex-advogado, ele presidiu o PSL durante a corrida eleitoral e foi o responsável formal por todos os repasses de verbas dos fundos partidário e eleitoral para os candidatos. Licenciado durante a campanha, o presidente nacional do partido, deputado Luciano Bivar (PSL), também está envolvido com as possíveis irregularidades.

Ao distribuir, sem critério lógico, os recursos destinados ao financiamento das campanhas, Bebianno reforçou um tipo de prática que corrói a democracia brasileira. Em vez de assegurar a igualdade entre os candidatos na disputa, o dinheiro serviu para abastecer as contas de protegidos pela direção partidária.

O destino final dos recursos ainda está sendo investigado pela Polícia Federal. No entanto, sabe-se de antemão que, no mínimo, houve desperdício de verbas públicas. Na pior das hipóteses, a PF descobrirá que o dinheiro, simplesmente, serviu para encher os bolsos de pessoas ligadas a Bebianno.

Para o governo, esse caso traz o desconforto da contradição entre o discurso de moralização nas práticas políticas e a realidade das ações do PSL. No momento em que tem de negociar o apoio de parlamentares para a aprovação de medidas complexas, como a reforma da previdência, Bolsonaro chega à mesa de negociações avariado pela descoberta do laranjal plantado na campanha pelo hoje secretário-geral da Presidência da República.

Políticos fisiológicos ficam à vontade para conversar com quem entende a linguagem do toma lá dá cá. A sensação de que estão entre iguais facilita a interlocução. Maculado pela farra do PSL com dinheiro público, Bolsonaro terá menos argumentos para convencer os congressistas de que devem votar em favor das propostas do governo sem pedir verbas e cargos.

Nesse contexto, deve-se destacar que as denúncias relacionadas ao uso de laranjas nas eleições atingem pelo menos mais um integrante da Esplanada. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi a primeira autoridade envolvida pela Folha de S. Paulo com candidaturas suspeitas de fraude no processo eleitoral.

O uso de dinheiro público em campanhas de laranjas extrapola os limites do PSL. No Distrito Federal, a mesma prática foi adotada pelo PSDB. Conforme revelou o repórter Caio Barbieri, do Metrópoles, candidatas tucanas tiveram votação pífia, mesmo turbinada por verbas exorbitantes. Esse é um indício forte da existência de irregularidades eleitorais na capital da República.

Ainda não se sabe ao certo quando Bolsonaro deixará o hospital. Mas, pode-se ter certeza de que uma de suas primeiras tarefas será descascar o laranjal de Bebianno. Uma saída para reduzir os danos do escândalo será afastar o secretário-geral. Mas só o presidente sabe o quanto lhe custaria queimar um dos homens que mais segredos sabe de sua campanha e de seus problemas na Justiça.

Caso prefira tratar a proliferação de laranjas como uma prática normal, a turma do fisiologismo vai agradecer. Assim, estarão todos em casa.