Vídeo. Homem negro acusa loja de racismo ao ser barrado por ato “suspeito”

Reginaldo Santana Vieira tentou por duas vezes registrar um boletim de ocorrência. "Vida que segue", teria dito o policial a ele

atualizado 18/08/2020 10:01

Funcionário que teria barrado o jardineiro Reginaldo Santana Vieira, de 40 anosImagem cedida ao Metrópoles

Um homem negro diz ter sido vítima de racismo por funcionários de uma filial das Lojas Americanas em Vila Isabel, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ). A vítima é o jardineiro Reginaldo Santana Vieira, 40 anos.

O jardineiro registrou a ocorrência no dia 10 de agosto, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). O documento e o vídeo foram obtidos com exclusividade pelo portal Metrópoles.

O caso aconteceu no último dia 3 de agosto. Com fome, após ter passado praticamente o dia todo sem comer, Reginaldo teria entrado na filial para comprar comida. Ele aproveitou para observar o preço de uma sanduicheira, mas foi em direção à saída sem comprar nada, o que teria despertado a desconfiança dos seguranças.

Dessa maneira, um funcionário o impediu de sair do estabelecimento sem que antes levantasse a camisa, para que “provasse” não ter “roubado” nada da loja. Reginaldo conta ainda que o segurança o teria considerado “suspeito” e disse ter visto movimento por baixo da camisa.

O jardineiro, por sua vez, desobedeceu ao pedido do funcionário, que resolveu chamar o “sargento Silva”, da Polícia Militar. A situação demonstrou, segundo a defesa de Reginaldo, que o funcionário era amigo do policial, uma vez que rejeitou ligar diretamente para o 190.

Em seguida, cinco policiais militares chegaram na loja e pediram para revistar a mochila de Reginaldo. O jardineiro obedeceu às ordens dos agentes e fez questão de retirar todo o material da sacola, explicando toda a situação.

Após a revista, ficou comprovado que o homem negro não roubou nada.

A seguir, assista ao vídeo, filmado pelo próprio Reginaldo e obtido com exclusividade pelo portal Metrópoles, dos momentos em que ele é barrado na saída da loja e revistado pelos policiais:

Reginaldo Vieira conta ter se sentido mal com tudo o que aconteceu. Segundo ele, as pessoas que passavam no local ficaram o olhando como se realmente fosse um criminoso.

“Eu decidi que essa história não iria terminar do jeito que terminou. Eu vou correr atrás dos meus direitos. Não roubei nada. Não havia motivo para eu ser considerado suspeito de roubo. Sou apenas mais um negro vítima do preconceito”, desabafou.

“Vida que segue”

Após a abordagem, a vítima solicitou aos agentes que fosse levada à delegacia para registrar a ocorrência. No entanto, os policiais, que teriam demonstrado proximidade com o funcionário da loja, segundo Reginaldo, disseram “vida que segue” e que o trabalho deles havia terminado.

O jardineiro, no entanto, foi à 20ª DP (Vila Isabel) por conta própria. Lá, ele foi orientado a registrar a ocorrência pela Delegacia Virtual. Após fazê-la on-line, ele teve a denúncia cancelada.

Uma semana depois, Reginaldo se dirigiu à Decradi, acompanhado de um advogado, para finalmente registrar o constrangimento sofrido. O depoimento de Reginaldo Vieira está marcado para esta terça-feira (18/8).

O advogado Carlos Nicodemos, do escritório Nicodemos & Nederstigt Advogados Associados, que defende a vítima, explica que muitas pessoas entram em lojas na intenção de pesquisar preço ou comprar algum produto, mas acabam desistindo. Nem por isso costumam ser abordadas de tal maneira.

“Nada de ilegal foi encontrado com o senhor Reginaldo. Não havia motivo para tal conduta por parte do segurança da loja. Tudo leva a crer que o senhor Reginaldo foi mais uma vítima de racismo institucional, uma grave violação de direitos humanos”, disse.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa das Lojas Americanas e da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

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