Número de mortos pela polícia aumenta no Rio

Governador fluminense defende estratégia policial; oposição pede investigação dos casos

JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

atualizado 05/06/2019 8:15

Atirando de helicópteros, transportes blindados ou à queima-roupa, policiais do Rio de Janeiro mataram 558 pessoas durante os primeiros quatro meses do ano – o número mais alto para esse período desde o início dos registros do estado, há mais de duas décadas.

Essa recente alta ocorre após anos de políticas voltadas para a redução nas mortes. Mas, com o país mergulhando em uma crise econômica e política em 2014, os recursos acabaram. Gangues de criminosos retomaram o território perdido no Rio, e a violência explodiu em todo o país: mais de 51.500 pessoas foram mortas no ano passado.

Os eleitores foram às urnas em outubro e deram seus votos a candidatos que prometeram combater a violência com mais violência, relaxando as regras para a posse de armas e permitindo à polícia que atire em suspeitos armados. O número de pessoas mortas pela polícia no Rio de Janeiro em 2018 subiu para impressionantes 1.538, de acordo com estatísticas do estado. Se as mortes continuarem no ritmo atual – quase cinco por dia – esse recorde será quebrado.

O novo governador do estado, Wilson Witzel, apontou para uma queda geral nos homicídios para dizer que a abordagem estava funcionando. O presidente Jair Bolsonaro prometeu dar à polícia mais liberdade para matar suspeitos, dizendo que “bandido bom é bandido morto”. Witzel, ex-juiz federal, disse em janeiro que não faltaria espaço para os criminosos. “Vamos abrir covas”, disse ele.

Em março, Witzel anunciou que atiradores de elite no estado estavam abatendo suspeitos armados que “tem que ser neutralizados de forma letal”. Mas alguns dizem que os policiais estão realizando execuções extrajudiciais. “Execuções sumárias estão ocorrendo nas favelas e em outras áreas periféricas”, disse Renata Souza, deputada estadual que pediu às Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos que investiguem.

A promotoria do estado criou em 2015 uma força-tarefa para investigar as alegações. Desde então, a polícia matou mais de quatro mil pessoas. A unidade acusou 72 oficiais de homicídio; desses, pelo menos 19 foram absolvidos e nenhum está na prisão. Paulo Roberto Cunha, líder da força-tarefa, disse que sua equipe estava diante de uma carga de trabalho insuportável, investigações forenses falhas e testemunhas que temiam a retaliação.

Faz tempo que o estado do Rio de Janeiro é difícil de policiar. Dúzias de comunidades formadas por antigos sem-teto décadas atrás são agora controladas por traficantes e milicianos. Pouco depois de ecoarem os primeiros tiros na comunidade Fallet-Fogueteiro no dia 8 de fevereiro, ficou claro que não se tratava de uma simples troca de tiros entre gangues rivais. Enquanto um esquadrão de elite da policia subia o morro, suspeitos de associação com o tráfico correram para uma casa. Eles tiraram a camiseta – gesto que indica rendição, disseram os moradores. Entre eles estava Felipe Guilherme Antunes, 21 anos.

Quando os tiros cessaram, nove homens jaziam deitados no chão, e quatro outros do lado de dentro. Após a operação, os policiais disseram que agiram em defesa própria. Mas parentes e investigadores analisaram relatos de testemunhas, relatórios de autópsias e fotos dos corpos, e muitos concluíram que os homens foram executados. De acordo com a Human Rights Watch, alguns foram baleados na cabeça ou no coração.

“Eles não vieram para levá-los sob custódia”, disse Tatiana Antunes de Carvalho, mãe de Antunes. “Vieram para matar.” No início de maio, outra operação – que começou com a polícia atirando de um helicóptero – deixou oito mortos no Complexo da Maré. Uma mulher mais velha disse ter visto dois homens se rendendo em um beco, apenas para ouvir do policial: “Tenho ordens para matar”. O policial matou os suspeitos e outros dois homens em uma laje.

Dar à policia mais poderes para matar nunca reduziu a violência, disse Roberto Sá, que supervisionou a política de segurança no estado de 2016 a 2018 e serviu em uma unidade de elite da polícia no início da carreira. “A política de confronto gera um ambiente inseguro, além de distúrbios mentais e desgaste, tanto para policiais como para moradores”, disse ele.

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