PM é condenado por matar jovens após confundir macaco mecânico com fuzil
Condenação do sargento, que matou pelas costas dois jovens no Rio de Janeiro, aconteceu após 11 anos

Onze anos após o crime, o ex-sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) Carlos Fernando Dias Chaves foi condenado a 30 anos de prisão. Em outubro de 2015, ele matou a tiros dois jovens que estavam em uma moto, depois de confundir com um fuzil o macaco hidráulico que um deles carregava.
De acordo com a sentença do Conselho de Sentença do IV Tribunal do Júri da Capital, Chaves perdeu o cargo de PM e foi condenado a 14 anos de reclusão pelo assassinato de Jorge Lucas de Jesus Martins Paes, que tinha 17 anos de idade, e a mais 16 anos pela morte de Thiago Guimarães Dingo, com 24 anos à época. O regime é inicialmente fechado.

Para a juíza Lúcia Glioche, “o acusado ocupa o cargo de policial militar, função estatal de extrema relevância para a manutenção da segurança pública. Em razão de sua formação e experiência profissional, ele foi especialmente treinado pelo Estado para agir de forma técnica, pautada pelo uso progressivo da força e, acima de tudo, pelo estrito respeito à legalidade e à vida humana”.

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Ver todas“Ao optar conscientemente por praticar crimes dolosos contra a vida, não apenas violou o ordenamento jurídico, mas descumpriu com o dever de exemplo que se espera de um integrante das forças de segurança, frustrando a expectativa que se tem sobre seu cargo que é a de proteger a vida humana e os demais bens que compõem a personalidade da pessoa”, escreveu a magistrada.
“A condição de policial militar impõe um zelo superior pela ordem pública, de modo que o cometimento de delitos qualificados pela violência demonstra um absoluto desprezo pelas regras que o agente tinha o dever funcional de fazer cumprir”, concluiu Glioche. A defesa pode interpor recurso. (A reportagem tenta contato com a defesa de Carlos Chaves)
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA Defensoria e o Ministério públicos do Rio contestaram a versão apresentada pelo policial de que teria confundido o macaco hidráulico com uma arma. “Uma das principais evidências apresentadas aos jurados foi um registro de ocorrência feito cerca de três horas depois do crime. No documento, a guarnição de Carlos Fernando Chaves relatou a ocorrência de um confronto armado no local, o que sustentaria a versão de que houve resistência à ação policial”, pontuou a DPE-RJ.
O defensor público Pedro Carriello afirmou que o júri acolheu a tese integral da acusação. “Que houve dolo direto, com a intenção de matar, e acolheram a qualificadora, que foi a impossibilidade de defesa das vítimas, pelo fato de terem sido atingidas pelas costas. […] Ele já estava preso por associação criminosa, mas é uma prisão provisória, sem condenação até o momento”, disse.
As mães das vítimas prestaram depoimento no início do julgamento, que durou mais de 15 horas ininterruptas e acabou às 5h40 desta quinta-feira (1º/10). Márcia Machado Guimarães Dingo, mãe de Thiago, contou que a primeira filha dele nasceu quase dois meses depois do crime.
“Foi um tiro pelas costas. Um tiro matou os dois. Economizou uma bala para o estado”, afirmou.
Carlos Chaves, por sua vez, confirmou que as vítimas não efetuaram disparos contra e afirmou ter pedido perdão ao pai de Thiago logo após o crime.
O crime
O crime aconteceu na Rua Ary Villar, no bairro da Pavuna, zona norte do Rio. Os dois jovens foram ajudar um motorista de Kombi que precisava do equipamento para arrumar o veículo. Jorge estava na garupa com o macaco hidráulico em mãos. Uma ordem de parada do veículo teria sido emitida pela polícia, e não foi obedecida. Tanto a moto usada quanto a viatura da PM estavam em movimento na hora dos disparos.
Dois tiros foram dados, mas um só atingiu ambos, Jorge e Thiago. Após as mortes, o PM se apresentou à delegacia em Irajá, admitiu o erro e foi afastado das funções.
Moradores da região fizeram protestos. Um grupo fez manifestação pacífica contra a violência policial e outros queimaram ônibus e pneus na região.



