“Pesadelo”: mecânico desabafa após ficar 16 dias preso por engano

André Bernardo contou ao Metrópoles detalhes do momento de sua prisão e do "filme de terror" que viveu dentro do presídio em Goiás

atualizado 16/02/2022 14:27

Reprodução

Goiânia – Voz de perplexidade e sentimento de revolta ainda tomam conta do mecânico que ficou 16 dias preso por engano no lugar de um traficante morto há seis anos e que era considerado foragido da Justiça.

“Foi um pesadelo na minha vida”, disse ao Metrópoles André Bernardo Rufino Pereira, de 31 anos, nesta quarta-feira (16/2), um dia depois de sair da prisão em Goiás.

O mecânico foi solto horas depois de o Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão (TJMA) revogar o mandado de prisão contra ele. André Bernardo contou que foi preso, no trabalho, no dia 31 de janeiro deste ano, no bairro Jardim Presidente, a 8 km do setor Jardim Europa, onde mora com a esposa e a filha, na região sudoeste de Goiânia.

“Eu estava trabalhando. Os policiais militares chegaram ao meu serviço, pediram meus documentos e me deram voz de prisão por decisão da Justiça de São Luís do Maranhão. Fiquei paralisado. Achei que era brincadeira e liguei para meu patrão e minha esposa para avisar e pedir para correr atrás do advogado para me tirar daquela situação”, lembrou ele.

Traficante morto

O mecânico nasceu em Açailândia (MA), mas mudou-se para Goiânia em busca de trabalho. Na capital do estado, conheceu sua esposa, a cozinheira Lúcia Aparecida Leite Alves, de 36, com quem vive há 10 anos e tem uma filha, de 3.

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Com auxílio do advogado Humberto Vasconcelos Faustino, a família descobriu que o mecânico havia sido preso no lugar de Rômulo Sobral da Costa, que usou o nome de André Bernardo durante um bom tempo e foi morto a tiros no dia 28 de janeiro de 2016, em Goiás. O trabalhador já teve documentos roubados antes, mas, mesmo assim, ele continuou na prisão.

“Filme de terror”

O mecânico relatou como viveu o pior “filme de terror” de sua vida desde a sua prisão, já que disse nunca ter praticado qualquer crime. A Polícia Civil de Goiás informou que não há registro criminal contra André Bernardo. “Me senti humilhado demais. Fui preso dentro da empresa, na frente de colegas de trabalho, isso foi muito frustrante”, afirmou.

“Fui algemado dentro da empresa, com as mãos para trás, e [os policiais] me colocaram no porta-malas do carro de polícia. O tempo todo eu perguntava para Deus porque aquilo estava acontecendo comigo porque tinha certeza de que não era eu. Chorei várias vezes, dentro da viatura e no presídio”, afirmou o mecânico.

André Bernardo contou, ainda, que ficou com outros 18 presos em uma cela apertada, com proporção de 10 metros de comprimento e 5, de largura. “Quando cheguei [ao presídio], rasparam minha cabeça e me levaram para a cela”, disse o mecânico, ao lembrar com detalhes as cenas que ele não queria ter na memória.

“Quando a gente entra na cela, eles [os presos] perguntam o que a gente fez. Eu expliquei tudo certo, e eles disseram que não era para estar lá porque era um erro grande da Justiça. Eu já estava querendo dar depressão, sem saber quando iria sair”, relatou ele.

Sem contato com família

O trabalhador disse, ainda, que teve de dormir no chão da cela porque as “camas de ferro” eram “curvadas” e inapropriadas para sono. “Eu dormia no chão, em colchão também desconfortável, porque as camas incomodavam muito”, afirmou.

Durante todo o tempo em que ficou preso, André Bernardo não teve qualquer tipo de contato com a família. “Em nenhum momento desses 16 dias, eu não as vi nem conversei com elas. Só falei por telefone duas vezes com meu advogado”, disse ele.

Foi exatamente a falta da esposa e da filha que fez o mecânico desabar no choro ao sair do presídio. Ao lado de amigos, elas o aguardam do lado de fora, com braços abertos e muita saudade.

“No momento em que me chamaram na cela, fiquei sem acreditar, não acreditei. Só pendeu ‘Deus ouviu minhas preces’. Quando saí e vi minha filha, chorei mesmo, chorei demais. Nunca passei nenhum dia sem vê-la”, afirmou André Bernardo.

Agora, do lado de fora, o mecânico só tem um desejo. “Hoje espero por justiça porque eles [policiais militares] não deveriam ter feito isso comigo. Eles só chegaram, me algemaram e me levaram para a delegacia”, destacou.

Fotos diferentes

Na defesa, o advogado sustentou que, apesar de usar o nome e os dados de André Bernardo, o documento do traficante aparece, no próprio inquérito, com foto diferente da que é usada pelo mecânico.

O advogado afirmou que André Bernardo ainda vai passar por um julgamento na Justiça do Maranhão, no dia 8 de março. “Nesse primeiro momento a gente pediu só a liberdade dele. Na próxima audiência, será discutido o mérito [do processo]”, disse.

“Espero que tudo isso se resolva. Meu sonho é conquistar minhas coisas ao lado da minha família”, afirmou o mecânico.

Visitas agendadas

Em nota enviada ao Metrópoles , a Diretoria-Geral de Administração Penitenciária (DGAP) informou que as visitas a presos são realizadas por meio de parlatório, com horário previamente agendado, assim como são marcadas as reuniões deles com advogados. No entanto, acrescentou, é preciso haver senha disponível.

“De início, o preso fica um período no semiaberto, para não transmitir Covid aos outros detentos”, disse a nota. A diretoria não se manifestou sobre as condições das camas dos presos.

A PM não se manifestou sobre a prisão por engano.

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