Amparado pelo filho e neto, o aposentado Milton Monteiro, de 71 anos, foi nesta terça-feira (11/12), e aos prantos, ao Instituto Médico Legal (IML) do Cemitério Parque Nossa Senhora da Conceição, em Campinas (SP), para reconhecer o corpo do caçula, Sidnei Vitor Monteiro, morto pelo atirador Euler Fernando Grandolpho na Catedral Metropolitana da cidade.

A mulher do idoso também foi baleada, mas não corre risco de morte. No ataque, Grandolpho matou quatro pessoas e deixou quatro feridas. O atirador foi alvejado por policiais que entraram na igreja, mas o tiro pegou na lateral do corpo do assassino. Então, Euler tirou a própria vida.

“Ao mesmo tempo em que choro pelo meu filho, ergo a mão para o céu por minha mulher [Jandira, de 65 anos]. Ela parou a bala com a mão e graças a Deus está viva”, contou o aposentado. Ele diz não saber como dar a notícia da morte de Sidnei à mulher, com quem é casado há 50 anos. “Ela falava com ele por telefone 10 vezes por dia. Eram grudados”, desabafou.

Sidnei Vitor era ajudante de eletricista na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e se encontraria com a mãe para ir ao dentista. “Ela é muito católica, decidiu rezar na catedral”, disse Monteiro, que não quis falar sobre o atirador.

A doméstica Edna Rodrigues chegou aflita ao IML em busca da irmã Lourdes, 79 anos. Ficou aliviada ao saber que ela estava fora de perigo. A idosa foi atingida por um tiro e levada ao Hospital Mário Gatti. “Não vai precisar nem de cirurgia, graças a Deus. Ela vive na igreja e eu também. Era para estar lá, mas peguei uma faxina. Foi por Deus”, disse.

No mesmo Hospital Municipal Doutor Mário Gatti, um homem de 84 anos – atingido no tórax e no abdômen durante o tiroteio – passou por cirurgia. Entre os quatro feridos pelo atirador, Euler Fernando Grandolph, o idoso é o que se encontra em estado mais grave.

Veja imagens da tragédia: 


Atirador era recluso

No início da noite desta terça, a Polícia Civil de São Paulo apreendeu cadernos, papéis e o notebook do atirador. O material recolhido na casa de Euler Fernando Grandolpho será analisado pela perícia. Os investigadores ainda tentam descobrir a motivação do crime.

De acordo com a Polícia Civil, o atirador morava com os pais, era bastante recluso, costumava ficar dentro do quarto, saía muito pouco de casa e chegou a fazer tratamento contra depressão. “Ele tinha um perfil muito estranho, era muito fechado. De 2015 para cá, não trabalhou mais”, disse o delegado José Henrique Ventura, responsável pela apuração do massacre na catedral.

Segundo a polícia, o atirador era analista de sistemas, mas na ficha de identificação civil dele consta que era publicitário. Grandolpho não tinha antecedentes criminais, mas, por outro lado, registrou boletins de ocorrência por perseguição e injúria. As datas não foram confirmadas.

Além disso, Grandolpho chegou a trabalhar como auxiliar de promotoria no Ministério Público do Estado de São Paulo. Segundo a assessoria do órgão, ele pediu exoneração em julho de 2014.

De acordo com Ventura, aparentemente não havia relação entre o atirador e as vítimas. Um perfil de Grandolpho em rede social diz que ele estudou na Unip e no Colégio Técnico da Unicamp.

Imagens
O exato momento em que Euler Fernando Grandolpho se ergue de onde estava sentado e atira contra fiéis foi captado por uma câmera de segurança no interior da Catedral de Campinas.

Assista ao vídeo:


Bolsonaro se solidariza

No Twitter, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), manifestou-se a respeito do massacre na Catedral Metropolitana de Campinas. Ele disse que está acompanhando a apuração do crime. O próximo líder máximo do país aproveitou para prestar solidariedade.

“Estamos acompanhando a apuração das autoridades sobre o crime bárbaro cometido hoje na Catedral Metropolitana de Campinas, em São Paulo. Nossos votos de solidariedade às vítimas dessa tragédia e aos familiares”, postou o futuro presidente.

Mais cedo, o presidente da República, Michel Temer (MDB), também foi ao Twitter para se pronunciar acerca do crime ocorrido na catedral. No seu perfil pessoal, o chefe do Executivo federal apresentou condolências aos familiares das vítimas.

“Rezo para que os feridos tenham rápida recuperação”, disse o presidente, afirmando estar “profundamente abalado” com o crime cometido dentro da igreja católica.

Empoderamento dos bandidos
O caso ainda reacendeu a polêmica sobre flexibilizar a venda de armas de fogo no país, bandeira do presidente eleito. O deputado federal Major Olímpio (PSL-SP), senador eleito e correligionário de Bolsonaro, disse que crimes como esse ocorrem geralmente com armas ilegais e afirmou que, da forma como está, o Estatuto do Desarmamento fez um “empoderamento” dos bandidos. “Flexibilizar o estatuto é estabelecer regras de controle. Não é o descontrole de armas”, observou.

Para o especialista em segurança da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Rafael Alcadipani, o ataque reforça o risco de armar a população. “Quanto menos arma, menos crime. É o que mostra a maioria dos achados científicos sérios”, disse. Segundo ele, estudos mais recentes apontam que um aumento de 1% na circulação de armas pode causar crescimento de 2% nos crimes em geral. (Com informações da Agência Estado)

Veja o atendimento às vítimas do ataque: