“Os filhos da puta existem”: prostitutas e mães ressignificam o xingamento

Sozinhas, elas criam os filhos, que se declaram orgulhosos por serem “filhos da puta”

atualizado 15/01/2021 8:46

Luci Sallun / Divulgação

Andorinha, caborje, calhandreira, dama da noite, loba, meretriz, quenga, rameira, rascoa, rascoeira, rapariga, ratuína, reboque, rongó, tapada, tolerada, transviada, vaqueta, vulgívaga, zabaneira. Ou, simplesmente, puta. O dicionário traz essa infinidade de sinônimos para referir-se à mulher que faz sexo por dinheiro.

Chamar alguém de filho da puta talvez seja o xingamento preferido do brasileiro – e de outras nacionalidades também. “As pessoas precisam parar de se ofender com isso”, afirma a carioca radicada em Belo Horizonte (MG) Santuzza Souza, 39 anos, mãe de três, que começou as atividades como trabalhadora do sexo aos 23 anos.

Para ela, o termo vem da ideia machista de que mães não podem ter sexualidade e muito menos lucrar com ela. “Sempre criei os meus filhos sozinha. Eu fui para esse ramo porque precisava de dinheiro, e o trabalho me garantia uma remuneração maior do que teria trabalhando em outro lugar”, relata.

A prostituição foi o caminho encontrado por Santuzza para não se prender a uma relação conjugal abusiva em troca do sustento da casa. Os filhos João, 19 anos, Miguel, 13 e Açucena, 9 (na foto que abre a matéria), sabem de onde vem o dinheiro que coloca comida na mesa, paga pelas roupas e pela educação deles.

Santuzza relata que precisou lutar na Justiça para não perder a guarda do filho do meio, devido à sua profissão. “É muito comum que tentem tirar nossos filhos porque somos prostitutas, como se isso definisse a nossa maternidade. Meus filhos não têm nenhum trauma, porque não convivem com meu trabalho”, relata a mãe.

João Vitor, filho mais velho de Santuzza, orgulha-se da mãe. “Ela é minha companheira, minha amiga, quem me educa. Filho da puta, para mim, não é uma ofensa. Sou filho de uma mulher amiga, confidente, a única que está comigo em todas as horas para me apoiar e corrigir”, diz.

O adolescente lembra que, ainda pequeno, começou a ouvir as conversas da mãe com amigas e entender qual era a sua profissão. No começo, diz ter ficado assustado, pois pensava que era “algo errado”.

“Procurei as pessoas erradas para me aconselhar e cresci com uma mentalidade distorcida sobre trabalho sexual. Mais velho, fui desconstruindo isso. O termo é usado para ofender, mas pra mim, que sei o que é uma puta, é um elogio”, afirma João.

Os amigos de João sabem da profissão da mãe dele e a respeitam. “Quem tem uma opinião que diminui a minha mãe não está na minha roda de amigos.” Ele acredita que os valores relacionados a gênero na sociedade foram construídos com base em “ideias ultrapassadas”.

“A ideia que as pessoas têm de um puta não mostra o que ela passa em casa, o que ela tem que fazer pra colocar comida na mesa”, diz. Para João, é a independência dessas mulheres, que se sustentam por conta própria, que incomoda a sociedade.

Não é porque a gente cobra pelo que os homens acham que tem que ser dado de graça que a gente é menos digna e responsável como mulher e mãe 

Santuzza Souza

Além de trabalhadora do sexo, Santuzza é ativista política e social. Há cinco anos ela fundou o coletivo Rebu, que reúne mulheres cis, transgênero e travestis, em BH. No ano passado, o grupo lançou o documentário Filhos da Puta, no qual João e outros dois filhos de mulheres que se prostituem contam suas histórias. Esse ano, o grupo produziu um calendário ilustrado por fotos de trabalhadoras sexuais e suas famílias. A foto em destaque nessa matéria, no topo da página, faz parte do projeto.

“Sempre mostram a trabalhadora na zona, falando de preservativo, de cliente, como se ela se resumisse a isso, o que reforça o imaginário preconceituoso das pessoas. Com as fotos a gente quer desconstruir ideias. Fomos fotografadas em casa, na rotina comum”, relata.

O Rebu também produzirá um documentário sobre a economia que gira em torno do trabalho sexual, que vai desde cuidados de beleza e estética até a venda de quentinhas nas regiões onde há pontos de prostituição.

“A solução para esse estigma não tem que partir da gente. A sociedade precisa abandonar essa ideia hipócrita sobre os trabalhadores sexuais. Inclusive a visão que nos coloca como vítimas incapazes de raciocinar. É preciso construir um ambiente seguro para que essas mulheres possam falar publicamente sobre seu trabalho”, reivindica.

Santuzza ressalta que a narrativa sobre poder assumir-se como prostituta e ter o apoio da família não é a história da maioria das mulheres nesse setor. Muitas escondem a verdade por medo de rejeição. “A sociedade tem uma visão que a trabalhadora é sempre uma drogada, que vive em um ambiente de violência. Quando na verdade são, em sua maioria, mulheres com filhos para criar sozinhas e sem dinheiro.”


Somos mães muito fodas! Damos aos nossos filhos a oportunidade de estudar, um conforto que não tivemos

Santuzza Souza
“Uma puta mãezona”

Célia Gomes, 54 anos, também nunca escondeu seu passado da família. Após um casamento “muito ruim”, como ela mesma descreve, precisou mudar-se da terra natal, o Maranhão, e foi para o Pará, onde não conseguiu trabalho. “Fui parar no bordel e trabalhei com sexo, até que conheci meu marido e construí uma família”, lembra.

Atualmente, ela não trabalha mais como prostituta e é dona de um bar em Teresina (PI). Tem três filhas, quatro netos e fundou a Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS).

Raiany Makely Gomes, 30 anos, a filha mais nova de Célia, trabalha como educadora social na ONG criada pela mãe para ajudar mulheres em todo o Brasil e também cursa serviço social.

Célia Gomes com as três filhas

“Minha mãe sempre deixou muito claro que tudo que a gente tinha era com muito esforço dela. Nunca escondeu a maneira pela qual ela proporcionava aquela vida boa para a gente”, afirma Raiany.

Ao conhecer a realidade das trabalhadoras sexuais de perto, por meio do serviço social, Raiany compreendeu ainda mais as motivações da mãe. “A gente sabe das dificuldades que levam as mulheres a tornarem-se trabalhadoras sexuais, 95% seguem nesse caminho por necessidade”, relata.

Tenho uma puta de uma mãezona, que tem uma puta de uma responsabilidade. Ela ainda hoje mantém a gente, ajuda no que é preciso. Eu tenho muito orgulho de ser filha da puta

Raiany Makely
“Vagina tem poder”

Lourdes Barreto completará 78 anos em 22 de janeiro e é um dos ícones do movimento pelos direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil. Sustentou quatro filhos, ajuda a criar 10 netos e 9 bisnetos com o patrimônio construído na profissão à qual se dedicou por mais de 50 anos.

Ela começou no ramo no fim dos anos de 1950 e enfrentou, inclusive, o período da ditadura militar, quando prostitutas foram perseguidas, violentadas, presas e mortas pelo regime.

Lourdes Barreto tem duas tatuagens: “eu sou puta” e “vagina tem poder”

“Filha da puta é o maior palavrão da sociedade, mas nós não fazemos nada de mau. Para mim, a palavra puta é muito decente e tem outro sentido. Os meus filhos não têm nenhum problema em serem chamados de filho da puta porque sabem que a sociedade usa essa palavra porque é falsa moralista”, defende Lourdes.

No trabalho sexual você sai agora lisa e volta com dinheiro. Era assim que fazia para administrar minha casa. Saía e voltava com o carro cheio de compras

Lourdes Barreto

Nascida na Paraíba, hoje Lourdes vive em Belém (PA). Ela trabalhou como prostituta até 2004, em diversos estados do Brasil e em outros países. “Minha família tinha estrutura, eu quis sair de casa, conhecer a sociedade”, lembra.

“Eu viveria tudo de novo. Gostava do trabalho que fazia, encontrei muitas amigas, homens generosos. Pude lidar com os dois lados da sociedade”, declara Lourdes.

No ativismo, ela ajudou a fundar delegacias da mulher e a Rede Brasileira de Prostitutas, ao lado de Gabriela Leite. Hoje ocupa o cargo de Conselheira Nacional dos Direitos da Mulher, como parte de uma plataforma latino-americana de pessoas que exercem trabalho sexual no continente.

Ela afirma que sempre cuidou atentamente dos filhos porque conhece “os dois lados da moeda na vida”. Na profissão, diz ter aprendido a lidar com as diferenças, com o estigma, o preconceito, a se empoderar e a lidar com a fragilidade humana. “Como puta eu dei uma colaboração muito grande para a sociedade e ainda estou dando. Sou mulher, cidadã e preciso ser respeitada.”

Para celebrar sua trajetória, no ano passado, Lourdes fez sua segunda tatuagem: nela está escrito “vagina tem poder”. “A violência contra as trabalhadoras sexuais é de gênero, é por ser mulher, por ter vagina. Por que é proibido falar em buceta? Tudo faz parte do nosso corpo. Quebrar estigma é lutar por identidade”, explica. A frase agora faz companhia à primeira tatuagem de Lourdes, que também é composta por três palavras: “Eu sou puta”.

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