Operação de guerra quer barrar avanço da Covid entre kalungas em Goiás

Estado quer concluir vacinação da primeira dose contra a Covid-19 em 5.252 quilombolas até a próxima segunda-feira (15/3)

atualizado 08/03/2021 20:26

quilombolas kalungasHegon Corrêa/Secom Goiás

Goiânia – Na guerra para tentar impedir a acelerada disseminação do coronavírus em comunidades kalungas, a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SESGO) montou uma megaoperação para concluir a vacinação da primeira dose contra a Covid-19 em 5.252 quilombolas, até a próxima segunda-feira (15/3), em três municípios do nordeste goiano.

Um dos maiores desafios da imunização na região é a mobilidade. Moradores das comunidades vivem isolados, em áreas de difícil acesso. Em meio ao período chuvoso, o nível dos rios também vira forte obstáculo. Em alguns locais, os veículos não conseguem nem atravessar.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), anunciou, na quinta-feira (4/3), a vacinação para todos os adultos da região onde está localizado o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, no nordeste goiano. A declaração ocorreu um dia depois de o Metrópoles divulgar a confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no território.

A ação teve início no último sábado (6/3), em Cavalcante. A cidade abriga 80% da população do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, a 512 quilômetros de Goiânia. Os trabalhos devem seguir para os municípios de Monte Alegre e Teresina de Goiás, pelos quais se estende o território do sítio histórico.

“Não quero morrer”

Na comunidade Vão do Moleque, em Cavalcante, o kalunga Joaquim Moreira, de 77 anos, não escondeu a ansiedade. “Me dá (sic) logo. Na minha idade, já estou na hora de morrer, mas não quero. Por isso, vou tomar a vacina. E não tem problema se doer. Não é maior do que a morte. O importante é ficar vivo”, destacou

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O idoso Francisco Fernandes do Santos, de 70, pai de um dos agentes de saúde da região, comemorou a sua primeira dose e a do seu pai, que tem 100 anos. “A gente fica muito feliz quando vem uma coisa assim [a imunização]”, pontuou.

A jovem kalunga Talita Aquino, de 22, ressaltou a esperança com a chegada das primeiras doses. “Estou muito feliz por minha comunidade estar vacinando”, afirmou. Segundo ela, o isolamento da comunidade e a falta de recursos dificultam o socorro de qualquer pessoa na região, que tem pessoas até passando fome.

As comunidades representam uma parcela significativa da população local e, com a imunização, haverá a redução dos riscos, além de ampliar ações de prevenção. A destinação das vacinas aos kalungas foi possível porque o Estado entrou na cota do Fundo Estratégico de Vacinação contra a Covid-19, do Ministério da Saúde, e recebeu doses extras devido ao cenário de emergência.

Somente pessoas acima de 18 anos são vacinadas. De acordo com a coordenadora da Gerência de Vigilância Epidemiológica de Doenças Transmissíveis da SESGO, Luciene Siqueira Tavares, “a imunização é exclusiva para os residentes das comunidades já cadastrados por agentes de saúde e pelas associações dos quilombos”, explicou.

Os profissionais das SES, enviados à região, estão divididos em duas equipes. A primeira começou a vacinação na comunidade kalunga que reside no Vão de Almas e Vão do Moleque. Já a segunda seguiu para os Quilombos Capela, São Domingos, Engenho II, Morros e Prata. Eles são responsáveis pelo traslado, armazenamento, logística e aplicação das vacinas.

“Expertise para o trabalho”

As doses estão distribuídas conforme demanda de cada comunidade: 2.610 para Cavalcante, 1.900 para Monte Alegre e 742 para Teresina de Goiás. A operação é coordenada pela Superintendência de Vigilância em Saúde (Suvisa), que conta com quatro enfermeiros, um fiscal da Vigilância Sanitária e dois motoristas.

“São profissionais com experiência, porque já fizeram outras ações de vacinação nas comunidades kalungas e em povos indígenas. Eles já têm toda a expertise para esse tipo de trabalho na região”, explica a superintendente de Vigilância em Saúde da SES-GO, Flúvia Amorim.

Além disso, a imunização é realizada em parceria. A Secretaria Municipal de Saúde de Cavalcante disponibilizou profissionais de enfermagem, técnicos de enfermagem, agentes comunitários e motorista para auxiliar no trabalho da SES.

O prefeito de Cavalcante, Vilmar Kalunga, considerou o início da vacinação uma vitória. “É o resultado de uma luta, de um reconhecimento também. Significa esperança para um povo”, afirmou, ressaltando que, só em Cavalcante, no Vão do Moleque, existem mais de 400 famílias atrás de serras e isolados. O município sofre até com obras de saúde abandonadas por gestões anteriores.

Paralela à imunização, a Secretaria Estadual de Saúde também faz uma investigação e testagem rápida nas comunidades quilombolas. Foram destinados mil testes do tipo IGG e IGM, padrão ouro, que estão sendo aplicados na região. Quem estiver contaminado com a Covid-19 terá que esperar pelo menos 30 dias após o fim dos sintomas para vacinar.

Logística

Os profissionais da saúde, que integram a missão, já saíram de Goiânia com itens essenciais na bagagem, como alimentos de fácil armazenamento para consumo durante os trajetos e até barracas. Em alguns trechos da rota, é necessário montar acampamento para pernoitar.

As doses destinadas às comunidades kalunga são da CoronaVac, fabricada pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. O imunizante precisa ser armazenado entre 2º C e 8º C para ter eficácia garantida. Por isso, o roteiro da viagem foi priorizado na estratégia da força-tarefa.

“Foi levada a quantidade de doses suficientes para cada destino. As vacinas ficam em uma caixa térmica, com termômetro. A equipe também leva uma caixa lacrada de gelox (gelo reutilizável)”, disse Flúvia.

Campanha

Até o momento, Goiás já recebeu seis remessas de imunizantes, que totalizam 514.480 doses. São 395.480 da CoronaVac e 119.000 da AstraZeneca.

A campanha começou em 18 de janeiro com 183 mil unidades produzidas no Instituto Butantan. O governador Ronaldo Caiado, que é médico, deu início à vacinação e aplicou a primeira dose no Estado à Maria Conceição da Silva, de 73 anos, moradora de um abrigo em Anápolis. Ela também já recebeu a segunda dose.

Inicialmente, foram vacinados idosos e pessoas com deficiência que vivem em instituições de longa permanência, população indígena aldeada e trabalhadores de saúde na linha de frente do combate à Covid-19. Posteriormente, a imunização foi expandida para as pessoas com idade acima de 85 anos, e, agora, evolui gradativamente por redução de faixa etária.

Até o último domingo (07/03), conforme dados preliminares da Secretaria Estadual de Saúde, foram aplicadas 242.473 doses da vacina contra a Covid-19 em todo o Estado, referentes à primeira imunização. Em relação à segunda aplicação, foram vacinadas 58.593 pessoas.

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