Motta fecha 1º semestre próximo de Lula e evita derrotas ao Planalto
Após os desgastes de 2025, o deputado se aproximou da equipe econômica do governo e ajudou a conter pautas de alto impacto fiscal

A Câmara dos Deputados inicia o recesso parlamentar com Hugo Motta (Republicanos-PB) em um cenário bem diferente daquele que marcou seu primeiro ano no comando da Casa.
Depois de enfrentar críticas à articulação política, derrotas e desgastes simultâneos com o Planalto e a oposição, o deputado encerra o semestre mais próximo do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fortalecido entre os líderes partidários e mais blindado internamente.
De alvo de críticas a aliado de Lula
- Motta encerra o semestre mais próximo de Lula, fortalecido entre os líderes partidários e mais blindado no comando da Câmara;
- O bloco mais próximo ao presidente da Casa passou a reunir cerca de 275 deputados, com apoio de líderes do Centrão;
- A Câmara aprovou o PL Antifacção e a PEC da Segurança sem o referendo sobre a redução da maioridade penal;
- Motta conduziu a aprovação do fim da escala 6×1 em pouco mais de 80 dias, com amplo respaldo do plenário.
Motta passou a aparecer em 2026 com frequência em agendas ao lado de Lula e, em 13 de janeiro, participou da sanção da segunda lei de regulamentação da reforma tributária e do lançamento da plataforma digital do novo sistema.
Em 4 de fevereiro, esteve no jantar oferecido pelo presidente a ministros e líderes da Câmara na Granja do Torto, encontro de cerca de três horas em que Lula agradeceu publicamente o empenho do deputado na aprovação de projetos do governo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO presidente da Câmara também acompanhou Lula, em 12 de maio, no lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, com previsão de R$ 11 bilhões em financiamentos, e, em 20 de maio, no balanço dos 100 primeiros dias do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio.
As aparições deram dimensão pública a uma relação que passou a ser cultivada também em almoços, reuniões reservadas e negociações sobre as prioridades do Executivo no Congresso.
A aproximação com o Planalto se deu ao mesmo tempo em que Motta recompôs sua sustentação dentro da Câmara. Os líderes do MDB, PP, União Brasil e Republicanos, identificados como a “tropa de choque” do presidente da Casa, permaneceram à frente das bancadas, e o bloco mais próximo do deputado paraibano passou a reunir cerca de 275 parlamentares.
Em abril, Motta ainda demonstrou força ao assegurar a eleição de Odair Cunha (PT-MG) para o Tribunal de Contas da União (TCU), com 303 votos, contra 96 de Elmar Nascimento (União-BA), apoiado por setores da oposição.
Pautas do semestre
Depois de um primeiro ano desafiador, Motta começou o calendário legislativo com foco na segurança pública. Em fevereiro, a Câmara aprovou a terceira versão do Projeto de Lei (PL) Antifacção.
A proposta, originária do Ministério da Justiça, foi profundamente modificada ao passar pela Câmara em 2025, sendo um dos palcos de embates entre Motta e o governo.
No Senado, passou por mudanças mais favoráveis ao governo, como a retirada de trechos como o veto a presos de votarem nas eleições e a inserção de uma taxação maior sobre casas de apostas online- as bets. Ambos foram alterados pelo relator na Câmara, Guilherme Derrite (PP-SP), indicado por Motta.
Apesar das divergências, a relação com o governo Lula continuou a se estreitar. No mês seguinte, a Câmara concluiu a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública sem incluir, por articulação de Motta, a realização de um referendo sobre a redução da maioridade penal.
A PEC que constitucionaliza o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e amplia as competências da União no combate ao crime organizado, ao mesmo tempo em que faz uma maior distribuição do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional para estados e Municípios.
6×1
Com a pauta da segurança pacificada, Motta centralizou os esforços da Câmara para destravar a PEC do fim da escala 6×1, que se tornaria o principal marco da sua gestão.
A redução do teto constitucional da jornada de trabalho das atuais 44 para 40 horas semanais e dois dias de descanso teve uma tramitação fugaz de pouco mais de 80 dias entre dar entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ser aprovada no plenário em 27 de maio.
A construção da proposta também mostrou como Motta passou a administrar as divergências com o governo sem permitir que elas interrompessem a tramitação.
Em almoço no Palácio do Planalto, em 14 de abril, Lula defendeu o envio de um projeto próprio do Executivo, enquanto Motta manteve a prioridade da PEC que já estava na Câmara. Dez dias depois, o presidente da Casa criou a comissão especial para analisar o mérito da proposta.
O comando do colegiado ficou com o deputado Alencar Santana (PT-SP), uma escolha que aproximou o governo da condução da matéria, enquanto a relatoria foi entregue a Leo Prates (Republicanos-BA).
Na reta final, Lula e Motta voltaram a se reunir, em 25 de maio, para alinhar os últimos pontos do texto, principalmente a transição para a jornada de 40 horas semanais e os dois dias de folga. O encontro foi realizado dois dias antes da votação da proposta pelo plenário da Câmara.
O ritmo ditado pelo presidente da Câmara teve respaldo de Lula e dos líderes da sua base, em meio a duras críticas de setores produtivos e de movimentações difusas da oposição, cuja maioria discordou do mérito, mas pouco pôde fazer para questionar uma pauta de tamanho apelo popular.
A votação se deu com folga: foram 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 votos no segundo turno. Ao final, Motta disse que “avanços civilizatórios sempre enfrentam resistências” e comparou o fim da 6×1 à adoção da carteira de trabalho e à abolição da escravidão.
“O Brasil optou pelo avanço, fruto de nossas decisões políticas. A Câmara dos Deputados cumpriu o seu papel constitucional com coragem. Debatemos. Dialogamos. Divergimos. Construímos consensos possíveis e contamos muito com o apoio do presidente Lula nessa jornada. Tenho muita honra e felicidade de presidir a Câmara dos Deputados neste momento histórico”, disse.
Pós
A interlocução em torno da 6×1 continuou mesmo depois da aprovação da PEC.
Em junho, Lula retirou a urgência constitucional do projeto próprio do governo sobre o tema como parte de um acordo com Motta para conter, na Câmara, propostas de alto impacto fiscal aprovadas pelo Senado. A avaliação do Planalto era de que havia, naquele momento, maior capacidade de diálogo com o presidente da Câmara do que com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
O mérito não só colocou Motta mais perto do Planalto, como também amenizou a imagem criada pelos desgastes do primeiro ano no comando da Câmara, em que a Casa votou medidas impopulares, como a PEC da Blindagem, e entrou em rota de colisão com Lula ao iniciar a derrubada do aumento no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e aprovar a dosimetria que beneficiaria Jair Bolsonaro (PL).
Pressão sob Motta em 2025
O ano de 2025 terminou especialmente duro para Motta. Além das críticas pela articulação e pela condução de duas ocupações da Mesa Diretora, o presidente da Câmara foi cobrado por impor pautas sem acordo prévio, não conseguiu reunir votos para cassar Carla Zambelli (PL-SP) e ouviu críticas até do seu antecessor e principal padrinho político, Arthur Lira (PP-AL).
Na ocasião, Lira afirmou, em um grupo de WhatsApp, que era necessário “reorganizar a Casa”, enquanto o então líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), classificou a fragilização de Motta como um “fato”.
O cenário mudou em 2026. Com os principais líderes do Centrão mantidos nos postos, a saída de Lindbergh do comando da bancada do PT, o apoio do governo às principais pautas e a ausência de uma agenda com o mesmo potencial de desgaste da PEC da Blindagem, Motta passou a ser descrito por aliados como mais forte e maduro.
Líderes ouvidos pelo Metrópoles avaliaram que o deputado superou as principais “pedreiras” e passou a ter um caminho mais livre para conduzir a Câmara.
Se em 2025 Motta participou da derrota da Fazenda sobre o IOF, em 2026 o presidente da Câmara se tornou um aliado próximo da equipe econômica. O deputado paraibano segurou uma das pautas-bomba listadas pelo ministro Dario Durigan como alerta para as contas públicas.
O projeto que estabelece o financiamento de dívidas rurais, aprovada no Senado e mandada de volta à Câmara em julho, poderia implicar em um rombo de R$ 140 bilhões em 10 anos. Sustentado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o projeto não avançou na Câmara. No lugar, Motta e o governo acordaram por uma Medida Provisória (MP) no lugar.











