Motivo e dinâmica do crime são mistério em caso de menina de 1 ano decapitada

Só os laudos da perícia vão poder indicar se a pequena Maria Clara sofreu violência sexual antes de ser morta em Pindamonhangaba

atualizado 18/10/2020 11:07

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Pindamonhangaba (SP) – A rotina tranquila de uma cidade do interior interrompida por um crime bárbaro e ainda sem solução conclusiva – é o roteiro de filme de terror que os moradores de Pindamonhangaba, município de 170 mil habitantes a 150 km de São Paulo, estão vivendo desde o início desta semana, quando um caso de sequestro de um bebê mobilizou a comunidade e acabou em tragédia.

O padrasto da pequena Maria Clara, de 1 ano e 3 meses, acabou confessando que matou e decapitou a criança com uma faca em uma área rural na última terça-feira (14/10), porém mentiu que ela havia sido sequestrada. Diogo da Silva Leite está preso, mas a polícia – e a cidade – tentam entender por que e como ele cometeu o crime, e se fez tudo sozinho. Uma das dúvidas é se ele violentou sexualmente a vítima, algo que apenas os laudos periciais, com prazos de 30 e 60 dias para ficarem prontos, poderão confirmar.

“A criminalidade por aqui não é alta. Sequestros mesmo não acontecem há mais de 10 anos, então causou pânico a notícia, as pessoas ficaram alarmadas”, relata ao Metrópoles a delegada responsável pelo caso, Renata Costilhas.

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E foi esse pânico da comunidade que ajudou a achar rapidamente o autor do crime. Na noite do dia em que a menina foi morta em uma trilha entre Pindamonhangaba e Taubaté, seu padrasto foi à delegacia e registrou o sumiço da enteada.

Disse que havia ido com ela até o centro da cidade, numa praça que já foi estação ferroviária e hoje serve como espécie de terminal urbano de ônibus. Lá, teria pedido a um desconhecido para olhar a menina enquanto ia ao banheiro, momento em que ela teria sido sequestrada.

A notícia se espalhou naquela mesma noite pela cidade via mensagens de WhatsApp com fotos da criança, pedindo informações, ajuda. “Então pessoas que o viram levando a menina de bicicleta na estrada velha para Taubaté nos procuraram”, conta a delegada.

“Diante dessa contradição e do fato de as câmeras da região central não terem registrado a presença dos dois, ele acabou confessando. Mas não disse o motivo, só disse que sentiu uma raiva da menina na hora”, completa a doutora Renata, que segue ouvindo testemunhas e investigando mais pessoas, mas pede para não dar detalhes que possam atrapalhar o inquérito.

Fogo na casa

Diogo foi preso na tarde seguinte à morte da enteada. A informação revoltou a comunidade onde ele vivia há pouco mais de um ano com a mãe da criança e três filhos de outro relacionamento dela.

O bairro de Araritama fica afastado da região central de “Pinda”, que é como os locais apelidam a cidade que foi cenário de vários filmes do cineasta Amácio Mazzaropi, representado em uma estátua no local.

É uma vizinhança humilde e a família vivia em uma casa construída em um projeto habitacional da prefeitura. A notícia da prisão chocou a vizinhança e a reação de alguns vizinhos ao crime foi depredar e incendiar a casa da família no início da tarde de quarta (15/10).

Na sexta (16/10), quando a reportagem esteve no local, o cheiro de queimado ainda estava presente no pequeno imóvel em ruínas. Algumas cenas mostram como o fogo interrompeu uma rotina doméstica: o varal caído ainda com roupas da família, restos de macarrão pronto entre os escombros da sala, brinquedos, roupas e calçados de crianças espalhados, chamuscados.

“Incêndio é um barulho enorme, a gente não imagina. Quando vi, eram aqueles estalos, o calor, a fumaça. Eu achei que ia queimar a quadra toda, gosto nem de pensar no desespero, ainda bem que os bombeiros chegaram logo”, contou ao Metrópoles uma vizinha que mora a duas casas do local, na mesma rua.

“Aqui não tem outro assunto mais. É só disso que a gente fala. Todo mundo assustado, sem entender”, completou ela, que pediu para não ser identificada.

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Comunidade

A família participava ativamente da vida na comunidade. O bairro afastado tem clima de cidadezinha, onde todo mundo se conhece. Desempregados, Diogo e a companheira, Adriana, costumavam passar boa parte da tarde sentados embaixo de uma árvore na frente da casa, brincando com as crianças. Segundo os vizinhos, a renda da família estava reduzida ao auxílio emergencial do governo contra a crise econômica trazida pela pandemia de coronavírus.

“Mas não tinham problemas entre eles. Ele tratava as crianças muito bem, principalmente a menininha”, conta outro vizinho.

Diogo tem uma condenação por tráfico de drogas e havia saído da cadeia há menos de dois anos, segundo a delegada. Não há, porém, relatos ou registros oficiais de violência doméstica dele contra Adriana ou outras mulheres e crianças.

“Adriana diz que eles conviviam bem, testemunhas também confirmam”, conta a delegada Renata.

A mãe da vítima não é investigada formalmente por participação no crime. Entre os moradores de Pinda, porém, e principalmente os da vizinhança da família, paira uma desconfiança sobre a mulher – que está grávida de 8 meses do assassino de sua filha. Por isso, ela está com familiares em paradeiro não informado.

As crianças e o futuro

O destino dos envolvidos diretos nessa tragédia policial ainda está nebuloso. No caso de Diogo, a polícia não tem dúvidas de sua participação no crime e deverá pedir sua prisão preventiva após o término do inquérito, para que ele responda ao processo na Justiça preso. Por enquanto, ele está em prisão provisória, em uma cela isolada dos outros presos na cidade vizinha de Taubaté.

A guarda dos outros filhos de Adriana está em disputa. As crianças estão em um local seguro sob a supervisão do Conselho Tutelar de Pindamonhangaba. O pai biológico de Maria Clara e dos outros filhos de Adriana, Steven Roger Galvão, já luta para ficar com as crianças.

Muito abalado, ele está vivendo na casa de uma prima no mesmo bairro, mas a alguns quilômetros da casa incendiada. Priscila de Oliveira Barbosa conta que o primo está em choque total. Às vezes fica deitado por horas, em outros momentos tenta agir para conseguir a guarda, procura advogados.

“É uma dor enorme para a família, mas agora estamos concentrados em conseguir arrumar a vida dele para que ele possa cuidar dos filhos”, afirma ela.

A casa virou um ponto de entrega de doações e carros chegam a todo momento, até de cidades vizinhas. “Está difícil, mas vamos superar. O prefeito da cidade entrou em contato com o Steven e disse que vai arrumar a casa que foi incendiada para ele poder morar com os filhos”, relata ela.

No momento, porém, o homem, que também está desempregado, tem tido que dar explicações à polícia porque o assassino citou seu nome como mandante, segundo fontes policiais. Os investigadores, no entanto, tratam essa possibilidade como extremamente remota, provavelmente mais uma tentativa de Diogo para dificultar o trabalho da polícia.

Os mistérios ainda não resolvidos encontram terreno fértil para virarem boatos nas rodas de conversa da comunidade abalada. Falando com a reportagem, moradores da cidade não poupam hipóteses, como bruxaria, e espalham boatos sobre o assassino ter sido quase morto na cadeia – coisa que a polícia paulista garante que não ocorreu.

A previsão inicial é que o inquérito seja concluído em 30 dias a partir de seu início, ou seja, em 14 de novembro. “Foi importante fazer essa prisão, mas vamos dar uma resposta completa para a sociedade”, garante a delegada Renata Costilhas.

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