Mensagens revelam que Lava Jato protegeu Moro de desgaste no STF

Revelações do The Intercept Brasil e da Folha indicam que o ex-juiz entrou em rota de colisão com o Supremo após ação da PF

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 23/06/2019 13:45

Novas mensagens vazadas entre Sergio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública, e o procurador Deltan Dallagnol revelam que a Operação Lava Jato protegeu o então juiz da força-tarefa de tensões com o Supremo Tribunal Federal (STF). As revelações foram feitas neste domingo (23/06/2019) pela Folha de S. Paulo em parceria com o site The Intercept Brasil, que tem divulgado conversas entre os dois desde 9 de junho.

De acordo com a publicação, Dallagnol e Moro temiam que uma ação da Polícia Federal repercutisse mal junto ao STF. À época, em março de 2016, a PF anexou documentos encontrados na casa de um executivo da Odebrecht aos autos de um processo da Lava Jato sem a preservação do sigilo de políticos que tinham foro especial e só poderiam ser investigados com autorização da Corte. O material acabou se tornando público por meio de um blog do jornalista Fernando Rodrigues.

Moro e Lava Jato x STF

“O episódio deixou Moro contrariado por criar novo foco de atrito com o Supremo, um dia depois de ele ser repreendido pelo tribunal por causa da divulgação das escutas telefônicas que tiveram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como alvo naquele ano”, diz a matéria da Folha.

Nas conversas, via Telegram, Moro reclamou do descuido da polícia. “Tremenda bola nas costas da PF”, disse. “E vai parecer afronta”, completou, em referência a possíveis repercussões no STF. Dallagnol defendeu a ação da PF. “Continua sendo lambança”, respondeu Moro. “Não pode cometer esse tipo de erro agora”, acrescentou.

Dallagnol garantiu ao então juiz que a Lava Jato o apoiaria. “Saiba não só que a imensa maioria da sociedade está com você, mas que nós faremos tudo o que for necessário para defender você de injustas acusações”, escreveu.

Segundo a Folha, Moro disse que mandaria ao Supremo três processos envolvendo a Odebrecht. Dallagnol, por sua vez, prometeu apressar uma das denúncias. “A medida permitiria que o caso fosse encaminhado ao STF com os acusados e crimes definidos na denúncia”, explica a reportagem.

A matéria ainda revela que Dallagnol procurou o delegado Márcio Anselmo, chefe das investigações sobre a Odebrecht, para comunicar as reclamações do juiz. “Moro está chateado”, disse. “Vai apanhar mais do STF, porque vai parecer afronta”, argumentou. “Por favor, nos ajude a pensar o que podemos fazer em relação a isso”, pediu o procurador ao delegado.

Nas mensagens, Anselmo classificou a tensão do procurador e juiz como “alvoroço”. Mas Dallagnol reafirmou a preocupação da Lava Jato quanto ao Supremo. “O receio é que isso seja usado pelo STF contra a operação e contra Moro. O momento é que ficou ruim”, reforçou. “Vem porrada.”

Teori Zavascki

Em outra mensagem, do dia seguinte, Moro pediu ajuda a Dallagnol em relação a um protesto do Movimento Brasil Livre (MBL) contra o ministro do STF Teori Zavascki, relator da Lava Jato na Corte, que morreu em um acidente aéreo em janeiro de 2017. As manifestações chamavam o magistrado de “traidor”, “pelego do PT” e demonstravam apoio ao juiz.

“Não sei se vocês têm algum contato, mas alguns tontos do Movimento Brasil Livre foram fazer protesto na frente do condomínio do ministro”, enviou Moro no Telegram. “Isso não ajuda evidentemente.”

Dallagnol amenizou a preocupação do então juiz: “Não sendo violento ou vandalizar, não acho que seja o caso de nos metermos nisso por um lado ou outro”.

Em conversa do dia 28 de março, Moro decidiu enviar ao STF dois inquéritos e uma ação penal para análise de Zavascki. Um dos documentos incluía os autos com a lista da Odebrecht. Os processos foram devolvidos à força-tarefa em Curitiba em 22 de abril. O ministro decidiu manter no Supremo apenas as planilhas da Odebrecht que mostravam nomes de políticos.

À época, lembra a Folha, a Lava Jato avançava nas investigações sobre a empreiteira e começava a negociar acordos de delação premiada com executivos da construtora.

De acordo com a reportagem, Moro foi procurado e criticou novamente as mensagens vazadas. Os procuradores da Lava Jato não se manifestaram.

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