Roteiro de Mourão evita pontos críticos na Amazônia e irrita órgãos ambientais

Vice-presidente acompanha diplomatas em visita a áreas da região. Servidores afirmam que governo é conivente com desmatamento e queimadas

atualizado 05/11/2020 11:21

Floresta amazonica incendio desmatamento crimeGustavo Basso/NurPhoto via Getty Images

Numa tentativa de “mostrar o copo meio cheio”, o governo brasileiro tenta convencer diplomas de que a política ambiental brasileira não é destrutiva. A viagem do vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), à Amazônia não repercutiu bem entre ambientalistas e servidores dos órgãos ambientais.

O principal objetivo de Mourão, que é presidente do Conselho Nacional da Amazônia, é acalmar a comunidade internacional, que tem criticado o Brasil por sucessivos recordes de queimadas e desmatamento. Os altos índices acirraram os ânimos entre o governo do país e outros líderes.

As maiores insatisfações estão entre funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que acusam o governo de “desmonte” dos órgãos.

Além da pressão ambiental, o governo tem prestado atenção no resultado da eleição americana. É que caso o candidato democrata Joe Biden chegue à Casa Branca, a relação entre Estados Unidos e Brasil deve mudar, sobretudo nas questões ambientais — causa histórica do político desde quando foi eleito senador pela primeira vez, na década de 1970.

Nos bastidores, a repercussão da viagem é negativa. O entendimento é que o mundo todo tem acesso às imagens de satélite que mostram o que está acontecendo na Amazônia e no Pantanal, por exemplo. E o impacto da devastação não será apagado com um passeio em trechos preservados.

O presidente da Associação Nacional dos Servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ascema Nacional), Denis Rivas, questionou o roteiro organizado pelo governo brasileiro e a intenção real.

“Os diplomatas estarão longe da destruição de garimpos, queimadas e derrubadas para grilagem de terras públicas que os satélites do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] já identificaram e que o governo tenta jogar pra debaixo do tapete. Essa viagem parece pura cortina de fumaça”, critica.

Para ele, o principal movimento é o governo mudar o entendimento com a preservação ambiental. “Esse passeio pela Amazônia não tem efetividade nenhuma se o governo mantiver o discurso de tolerância com o crime ambiental e desviando o combate ao desmatamento para as Forças Armadas”, finaliza,

Roteiro

Foram convidados diplomatas de diversos países, entre eles os embaixadores de Alemanha, Suécia, África do Sul, Canadá, Colômbia, Peru e União Europeia. Também foram chamados diplomatas do Reino Unido, da França e de Portugal, além da secretária-geral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), María Alexandra Moreira López.

A viagem do vice-presidente e dos diplomatas se estende até sexta-feira (6/11). A visita foi organizada após oito países europeus enviarem uma carta a Hamilton Mourão afirmando que a alta do desmatamento estaria dificultando a compra de produtos brasileiros por consumidores daquele continente.

De acordo com o roteiro divulgado pelo Conselho Nacional da Amazônia, os diplomatas devem visitar roteiros nas cidades de Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Maturacá.

Um servidor do Ibama que trabalha na região amazônica não concorda com a forma que o governo brasileiro escolheu para tratar o assunto. “Temos as estatísticas oficiais, os monitoramentos independentes e as imagens de satélite. Não é um sobrevoo por áreas que estão conservadas e protegidas que apaga isso”, pondera. A identidade dele não será divulgada a pedido.

Ele completa: “O governo precisa entender que a preservação do meio ambiente também faz parte da guinada econômica. Países que não preservam seus biomas, enfrentam dificuldades, por exemplo, para vender produtos no exterior. Não adianta falar que está preservando, se está acontecendo queimada, desmatamento e garimpo ilegal”.

Investimentos

A organização não governamental Greenpeace cobrou investimentos na proteção ambiental e enviou um comunicado aos diplomatas que participam de viagem à Amazônia propondo um roteiro alternativo.

Na rota do Greenpeace foram incluídas áreas vulneráveis no bioma e que têm registrado focos de desmatamento e incêndio nos estados do Pará e do Amazonas.

“Uma viagem diplomática pela Amazônia brasileira que não inclua na rota os desafios e graves danos ambientais que a região enfrenta é uma viagem incompleta e uma oportunidade perdida”, destaca o Greenpeace.

Versão oficial

O Metrópoles questionou o Ministério do Meio Ambiente sobre as críticas ligadas à área ambiental que o país tem recebido e sobre a viagem, mas a pasta não respondeu. O espaço continua aberto a esclarecimentos.

Nesta quarta-feira (4/11), antes de embarcar, o vice-presidente defendeu que a viagem iria mostrar a realidade da política ambiental brasileira.

“O grande objetivo da nossa viagem é mostrar que o governo brasileiro não tem o que esconder e que nós estamos abertos a todo e qualquer diálogo necessário para demonstrar à comunidade internacional os nossos compromissos”, afirmou na base aérea.

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