Na pandemia, população produz menos lixo; isso pode significar mais pobreza

Especialistas avaliam que a redução de resíduos urbanos está diretamente relacionada com queda na economia e no poder aquisitivo das pessoas

atualizado 09/08/2020 10:19

Michael Melo/Metrópoles

Uma das reflexões que estão em alta durante esta quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus é a questão da sustentabilidade. É tão urgente a ideia que internautas criaram movimentos para, por exemplo, diminuir o consumo e o descarte de plástico no meio ambiente. Uma onda nesse sentido começou no Reino Unido em 2011 e se espalhou mundialmente com as hashtags #plasticfreejuly e #julhosemplastico. E esses movimentos englobam outros resíduos que poluem o planeta.

Os resultados aparecem. No Brasil, um balanço realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostra que, durante o mês de maio, a geração de resíduos sólidos urbanos (domiciliares e de limpeza pública) em vários municípios apresentou uma redução média de 9%, em comparação ao mesmo período de 2019.

Mas o que deveria ser uma ótima notícia – a redução da produção de lixo urbano – acendeu uma luz de alerta: tal fenômeno pode estar diretamente relacionado com a queda na economia e no poder aquisitivo da população.

O diretor-presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho, concorda. “Geração de resíduos tem relação direta com o poder aquisitivo e hábitos de consumo da sociedade, de forma que a instabilidade e retração econômica exercem forte influencia na decisão de compra do consumidor, impactando na geração de resíduos”, avalia.

Lado perverso

Em entrevista ao Metrópoles, o presidente da Comissão do Meio Ambiente no Senado, senador Fabiano Contarato (Rede Sustentabilidade), segue a mesma linha de pensamento quando o assunto é isolamento x consumo: “Tem o lado perverso dessa questão: as pessoas estão sem dinheiro, com muitas passando sérias dificuldades”, observa.

“Assim, com menos consumo, há menor produção de lixo. O poder de compra das pessoas foi reduzido drasticamente. Então, apesar de aparentar uma boa notícia, essa redução na geração de resíduos sólidos pode, na verdade, representar um aumento do nosso abismo social”, afirma.

O senador também ressalta que apenas 38,1% dos municípios brasileiros possuem coleta seletiva, segundo o Sistema Nacional de Informações Sobre Abastecimento de Água-SNIS.

O papel dos jovens

Para Contarato, o jovem é uma ferramenta principal para a luta na conscientização ambiental: “Em 2019, propus e instituímos a programação do Junho Verde na Casa. Foi um mês dedicado à discussão de questões ambientais. Na audiência final, tivemos a grata satisfação de receber representantes de jovens e de crianças para o debate. Foi um momento muito especial, pois, enquanto senador, pude sentir a preocupação da juventude com esse tema de tamanha importância”.

Segundo o parlamentar, a atual geração de jovens tem muita consciência do quão importante é viver em um planeta mais equilibrado ecologicamente e estão fazendo escolhas mais saudáveis em seus modos de vida.

Momentos difíceis

De uma maneira geral, a agenda ambiental no Brasil vive “momentos muito difíceis e de grande instabilidade”, segundo afirma o senador.

Contarato ressalta que o governo Bolsonaro, com sua postura negacionista quanto a evidências científicas, não age em prol de ações que possam, por exemplo, reduzir o desmatamento ou queimadas na Amazônia. “O grande tema que tem ocupado nossa agenda de debates e cobranças, inclusive por parte da comunidade internacional”, reitera.

“Estamos também, infelizmente, em uma pandemia ainda sem controle no país. O cenário é, portanto, desalentador para muitos avanços. Para não deixar de citar uma ação positiva do poder público, recentemente foi publicado o Decreto 10.388/2020, que regulamenta o descarte domiciliar de medicamentos”, pondera o senador.

Lixo plástico

Por outro lado, mesmo com a diminuição na geração de resíduos sólidos urbanos, os materiais recicláveis coletados pelos serviços de limpeza urbana mantêm a tendência de crescimento, com aumento médio de 28% no período.

“Agora com o e-commerce, temos mais uso de plástico. Por exemplo: você compra uma caneca, ela vem embalada em muitos plásticos e papel bolha”, diz o presidente da Abrelpe.

De acordo com dados do Banco Mundial, o Brasil é o 4º maior produtor de lixo plástico no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China e Índia.

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