Lula faz história, mas terá país dividido e oposição no Congresso
Reeleito após virada inédita, petista enfrentará PL fortalecido nas duas Casas e articulações pela recondução de Motta e Alcolumbre
26/10/2026 02:30

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou, neste domingo (25/10), uma vitória histórica contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas terá pela frente um país dividido e um Congresso Nacional com oposição fortalecida.
O petista reverteu a desvantagem do primeiro turno, feito inédito nas eleições presidenciais desde 1988, e assegurou seu quarto mandato, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário.
Apesar da vitória por mais de 4 milhões de votos, Lula terá de negociar com um Legislativo mais conservador.
No discurso da vitória, em São Paulo, o presidente reconheceu as dificuldades, mas afirmou que trabalhará com a composição escolhida pelos eleitores.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, declarou o presidente.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, terá as maiores bancadas das duas Casas a partir de fevereiro de 2027. Saiba a composição prevista:
- Câmara: 121 dos 513 deputados serão do PL, contra 70 do PT.
- Senado: o PL terá 29 dos 81 senadores. O PT contará com dez.
- Comando do Congresso: Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) articulam a reeleição para as presidências da Câmara e do Senado, respectivamente.
Dificuldades desde 2023
A relação com o Legislativo já representou um dos principais obstáculos do terceiro mandato de Lula.
Em 2023, a medida provisória que reorganizou a Esplanada dos Ministérios quase perdeu a validade e só foi aprovada no último dia do prazo, com mudanças que contrariaram o governo, especialmente nas atribuições dos ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas.
Na ocasião, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), criticou a articulação política do Planalto e cobrou maior participação dos parlamentares nas decisões do Executivo.
O desgaste também atingiu Alexandre Padilha (PT), então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, substituído por Gleisi Hoffmann (PT) em fevereiro de 2025.
As dificuldades se repetiram em outras votações, inclusive com a derrubada de vetos presidenciais.
No Senado, uma das maiores derrotas foi a rejeição de Jorge Messias, indicado por Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em abril deste ano.
Motta aposta em apoio do Centrão
Na Câmara, Lula deverá contar com a interlocução de Motta, que apoiou publicamente a reeleição do petista desde o primeiro turno.
O deputado participou de atos de campanha na Paraíba e chegou a usar um boné com o nome do petista.
Motta manteve o apoio mesmo depois de o Republicanos, seu partido, e a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, declararem apoio a Flávio no segundo turno.
Nos bastidores, o cálculo político envolveu o desgaste de sua relação com o PL e a perspectiva de contar com o apoio mais seguro do PT para permanecer na presidência da Câmara.
Na reta final da campanha, Motta também ajudou a aprovar pautas de interesse do governo, como o aumento do teto de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs) e o fim da escala de trabalho 6×1.
Como mostrou o Metrópoles, uma ofensiva do Centrão, com adesão de PSB e PDT, reúne o apoio de partidos que elegeram 273 deputados, acima dos 257 votos necessários para vencer a eleição da Câmara em primeiro turno.
O movimento busca impedir que o PL, apesar de sua bancada de 121 parlamentares, assuma o comando da Casa em 2027.
Alcolumbre tenta superar desgaste
No Senado, a situação é mais delicada. Alcolumbre passou meses com uma relação fria com Lula, especialmente depois da rejeição de Jorge Messias ao STF.
A aproximação foi retomada em agosto e ganhou força com a aprovação da proposta que encerrou a escala 6×1, uma das principais bandeiras da campanha petista.
O presidente do Senado também enfrenta resistência do PL, que cobra o avanço de pedidos de impeachment contra ministros do STF.
O partido avalia lançar Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, para disputar a presidência da Casa em fevereiro de 2027. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também é citada como alternativa.
Em pronunciamento ao lado de Motta na noite deste domingo, Alcolumbre reconheceu a divisão do eleitorado e defendeu que Lula busque a pacificação nacional.
“O nosso país dividido não é bom para o povo brasileiro, não é bom para as instituições republicanas, não é bom para o futuro do Brasil”, afirmou.
Telefonema e tensão no dia da eleição
Segundo apurou o Metrópoles, Alcolumbre tomou a iniciativa de telefonar para Lula depois da confirmação da vitória.
Durante a conversa, os dois trocaram afagos. O petista chegou a se referir ao presidente do Senado como “meu amigo e irmão Alcolumbre”.
Alcolumbre pediu que Lula adotasse um discurso de pacificação e se colocou à disposição do novo governo. Na conversa, foram trocadas as expressões “pode contar comigo” e “vou contar muito”, em uma demonstração de aproximação entre os dois.
A ligação se deu depois de um dia de tensão institucional.
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), demorou a decidir sobre pedidos de prorrogação do horário de votação diante de denúncias de dificuldades no transporte de eleitores.
O ministro Cristiano Zanin, do STF, determinou a ampliação até as 19h, mas a decisão veio depois do horário regular de fechamento das urnas, o que provocou dificuldades na execução da medida e críticas à condução do processo.
O Metrópoles apurou que, durante a tarde, governadores e senadores telefonaram para Alcolumbre preocupados com o risco de uma crise institucional. Eles pediram que o presidente do Senado atuasse para reforçar a segurança do Congresso.
Nos bastidores, Motta chegou a sugerir um telefonema ao presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, mas Alcolumbre não concordou com a iniciativa.
Após a vitória de Lula, entretanto, Nunes Marques afirmou em conversa com jornalistas que a decisão de Zanin não provocou alterações na apuração do segundo turno.






