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Apuração pelo Brasil

Matheus Leitão

Nunca antes na história deste país: Lula vira no 2º turno e é reeleito

Exército de Janones, mulheres, idosos de volta às urnas e um deslize na Globo: os segredos da virada histórica na data de Herzog

25/10/2026 21:22, atualizado 25/10/2026 21:23
KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
Nunca antes na história deste país: Lula vira no 2º turno e é reeleito

Exatos 51 anos depois de o jornalista Vladimir Herzog ser morto nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, durante a ditadura militar, o Brasil foi às urnas e reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato. O presidente está matematicamente reeleito após derrotar neste domingo (25) o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), virando a disputa no segundo turno. Lula soma 53,9 milhões de votos, 51,42% dos votos válidos. Aos 81 anos, ele inicia em janeiro de 2027 um quarto mandato, feito inédito na história do país.

A vitória tem peso histórico. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio recebeu 56,1 milhões de votos (47,03%), contra 53,9 milhões de Lula (45,16%). Desde a volta das eleições diretas, em 1989, nenhum candidato a presidente que terminou o primeiro turno em segundo lugar havia vencido a disputa final.

Os votos que vieram de casa

A chave da virada pode estar em quem não tinha votado. A abstenção caiu fortemente no segundo turno: 3,2 milhões de eleitores a mais foram às urnas em relação a 4 de outubro, impulsionados pela mobilização do PT. Os que saíram de casa para votar podem ter mudado o resultado da eleição.

Lula havia apontado a abstenção como o maior desafio da campanha logo após o primeiro turno e mirado os 33 milhões de ausentes. Em Juiz de Fora, pediu que apoiadores convencessem amigos e familiares a votar. A militância foi para as ruas, de porta em porta.

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O Exército do Lula

A virada teve um general improvável: o deputado André Janones (Rede-MG). Um dia após o primeiro turno, ele criou no WhatsApp o canal “Exército do Lula” e convocou apoiadores a agirem como “soldados” pela reeleição. Em dois dias, eram quase 2 milhões de seguidores.

O canal distribuía áudios, vídeos e “missões” de compartilhamento. Virou alvo da campanha adversária: em 11 de outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, atendeu a um pedido de Flávio e mandou suspender o canal. Janones reagiu acusando censura. Dias depois, o TSE aprovou uma resolução permitindo o uso de canais oficiais registrados entre os turnos, após aval da Justiça Eleitoral.

O exército não parou de crescer. Passou de 6 milhões de seguidores no dia 20 e chegou a 11 milhões neste domingo, quando Janones convocou os integrantes para uma “última missão” nas urnas.

A força do voto feminino

O eleitorado feminino foi a base da reação. No Datafolha de 15 de outubro, Lula tinha 49% entre as mulheres, contra 40% de Flávio. Entre os homens, o senador liderava por 52% a 40%.

Os idosos voltaram

A abstenção de eleitores com mais de 70 anos caiu de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026, segundo o Movimento Voto 70+. É justamente nas faixas mais velhas que a vantagem de Lula é maior. No segundo turno, o voto ainda serviu como prova de vida automática do INSS, inclusive para quem faltou no primeiro.

O debate decisivo

No último debate, na TV Globo, na sexta (23/10), Flávio disse que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”, referência ao dedo perdido num acidente de trabalho, e depois pediu desculpas. Este colunista avisou vitória a Lula por pontos e avaliaram que a ofensa e a insistência de Flávio em defender o policial envolvido no caso Ana Clara prejudicaram o senador.

Um recado para a América do Sul

O resultado ultrapassa as fronteiras. Com a vitória de Lula, o Brasil não cede ao avanço da extrema direita na América do Sul. Nos últimos dias, inúmeras reportagens em jornais da região e do mundo apontavam o país como peça fundamental para conter esse movimento no continente. Neste domingo, o maior eleitorado da América Latina deu a sua resposta.