Jurista: caso da tornozeleira dificulta pena domiciliar para Bolsonaro
Violação da tornozeleira ocorreu às vésperas da definição do regime de cumprimento da pena de Jair Bolsonaro pela trama golpista
atualizado
Compartilhar notícia

A tentativa de Jair Bolsonaro (PL) de violar a tornozeleira eletrônica deve dificultar a estratégia da defesa para que o ex-presidente cumpra em casa a pena de 27 anos e três meses imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pela trama golpista. A avaliação é da advogada criminalista Maíra Fernandes, ouvida pelo Metrópoles, para quem o episódio ocorre “no pior momento possível” para os advogados.
Segundo a especialista, que é professora da FGV Direito Rio, houve “um agravamento da situação como um todo” no momento em que o caso avançava para uma definição sobre o regime de cumprimento da pena. Isso porque, na última sexta-feira (21/11), a defesa pediu a conversão da prisão em regime fechado para domiciliar, alegando problemas de saúde.
“A discussão ali era sobre o cumprimento em prisão domiciliar ou não, pelos aspectos de saúde. Quando vem esse episódio [violação da tornozeleira], que acaba impulsionando a decretação da prisão preventiva, sem dúvida dificulta muito a tentativa da defesa de mantê-lo em prisão domiciliar. De fato, veio num mau momento”, avaliou Maíra Fernandes.
O ex-presidente foi preso preventivamente na manhã de sábado (22/11), em Brasília, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, após a Polícia Federal (PF) apontar risco de fuga durante a vigília convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em frente ao condomínio da família. A decisão cita que, por volta de 0h08, Bolsonaro tentou violar a tornozeleira com um ferro de solda, ação confirmada por ele em vídeo gravado pelos agentes que monitoram o equipamento.
Moraes registrou no despacho que a tentativa de rompimento indicava intenção de fuga “facilitada pela confusão causada pela manifestação convocada por seu filho”. O episódio, segundo Maíra Fernandes, altera completamente o contexto em que o STF avaliava o destino do ex-presidente.
“Era o momento de decidir se ele cumpriria a pena em uma penitenciária ou em prisão domiciliar. Agora surge esse dificultador: uma outra prisão, a preventiva, em outro processo”, destacou a jurista, em entrevista ao Metrópoles no YouTube.
A saúde de Bolsonaro
Antes do novo episódio, a defesa havia apresentado ao Supremo Tribunal Federal uma série de laudos médicos e solicitado que Bolsonaro cumprisse a pena integralmente em sua residência, com monitoramento eletrônico. Os advogados alegaram debilidade de saúde e impossibilidade de tratamento eficaz no sistema prisional, citando precedentes da Corte, como a decisão que permitiu ao ex-presidente Fernando Collor cumprir pena em casa.
A criminalista lembra que, no inquérito sobre coação, as medidas contra Jair Bolsonaro foram impostas de forma gradual: primeiro, cautelares; depois, o monitoramento eletrônico; por fim, a prisão domiciliar.
“Ele não foi preso preventivamente antes, foi colocado em prisão domiciliar justamente por questões de saúde”, disse. A reincidência no descumprimento, agora em outro caso, deve a dificuldade de manter o benefício. Fernandes também chama atenção para o trecho da decisão de Moraes que determina a disponibilidade de atendimento médico 24 horas por dia a Bolsonaro dentro da Polícia Federal.
Como o ex-presidente está em uma sala de Estado-Maior na Polícia Federal, sob prisão preventiva e com previsão de assistência contínua, Maíra Fernandes avalia que a combinação desses fatores “dificulta consideravelmente” a possibilidade de uma futura prisão domiciliar, já que, em tese, as necessidades de saúde que justificariam o regime domiciliar podem ser plenamente atendidas no próprio ambiente de custódia.
“A decisão traz também uma passagem muito diferente de outras decisões: a disponibilização de um médico, 24 horas por dia, para atendê-lo em todas as necessidades de saúde. Isso, obviamente, não é a regra para presos brasileiros. Os presos, via de regra, têm muita dificuldade de acesso à saúde. Mas a decisão, justamente para resguardar a saúde do ex-presidente, coloca categoricamente a necessidade de um médico para atendê-lo”, afirma.








