IBGE: cresce número de mulheres que são mães acima dos 30 anos

Tendência também é percebida no DF. Segundo especialista, motivos vão desde autonomia feminina até o avanço da reprodução assistida

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atualizado 05/12/2019 12:32

Dados das Estatísticas de Registro Civil liberados na quarta-feira (04/12/2019) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam tendência de aumento no número de mulheres que se tornam mãe após os 30 anos. Segundo o IBGE,  houve crescimento em todas as faixas entre 30 e 44 anos.

Entre 2008 e 2018, o número de mães com até 24 anos caiu de 47,9% do total para 39,4%. No mesmo período, a faixa entre 25 e 29 anos registrou queda de 25,2% para 23,7%. A porcentagem de mulheres que tiveram filhos acima dos 30 anos, entretanto, saiu de 24,1% para 36,6% no período.

O levantamento considera dados do Registro Civil de Pessoas Naturais de todo o país no último ano. Registrou diminuição no número de mães que têm de 20 a 29 anos, assim como entre jovens abaixo de 20 anos. Os números, avalia o instituto, ressaltam uma tendência de redução da taxa de fecundidade em mulheres mais jovens.

A tendência de esperar mais tempo para ter filhos é, segundo o ginecologista e obstetra do Centro de Medicina Fetal Matheus Beleza, uma tendência em vários outros países, notoriamente nos europeus. “Essa linha tem se reafirmado, e na Europa hoje, por exemplo, é muito comum que a maior parte das mulheres só engravide após os 35 anos”, pontuou o médico, que trabalha em uma clínica que já atendeu gestantes de 48 e 52 anos.

Segundo recorte feito pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, a tendência é a mesma no Distrito Federal: do total de 55.750 nascimentos, 12.890 são de crianças cujas mães têm entre 30 e 34 anos. A maior porcentagem é das que têm 32 anos (5%), seguido pelas de 31 anos (4,82%).

“Brasília é de fato muito assim”, comenta Matheus. “Por aqui, muita gente é funcionário público, e as mulheres em geral fazem seu planejamento familiar nesse sentido: elas querem estudar, passar em um concurso antes, para só então ter filhos.”

Segundo o médico, além da opção por um planejamento familiar mais meticuloso, considerando fatores como renda e estabilidade, vários fatores ajudam a explicar a alta no número de mães com mais de 30 anos.

“A mulher foi, nos últimos anos, ganhando mais autonomia para escolher métodos contraceptivos, para escolher seu parceiro e pensar qual o momento ideal, do ponto de vista profissional e pessoal, para engravidar”, ressaltou. A evolução dos métodos de reprodução assistida, acrescenta, também entra na lista.

No caso da servidora pública Fernanda Mendonça, a maternidade aos 45 anos foi uma mistura de planejamento e espera. “Tive minha primeira filha aos 22 anos, e me separei quando ela estava com 5 anos. Sempre quis ter um segundo filho, mas não ia ter com qualquer um”, brinca.

O novo casamento veio aos 39 anos, e, como o novo marido era vasectomizado, ela precisou iniciar as tentativas de fertilização in vitro. O processo é caro e ela precisou tentar por cinco anos, até conseguir engravidar aos 44. “Já estava quase para desistir, porque tem um limite de idade para a fertilização.”

Cuidados no pré-natal
Matheus também pontua que, embora exista uma concepção geral de que gravidez acima dos 35 anos é sempre de risco, é preciso “individualizar” os casos. Ele explica que, embora isoladamente a idade seja um fator complicador, há diversos outros elementos que afetam a gestação.

“Alguns estudos hoje já mostram que você não pode colocar todas em um mesmo bolo. Não dá para pegar uma gestante que não tem histórico de doenças na família, é bem nutrida, instruída, com alguém que já teve muitos abortos, que tem doenças cardíacas ou diabetes etc – estes casos chamam atenção e vão exigir um cuidado mais próximo”, destaca o médico.

Entre as possíveis complicações decorrentes da idade, ele cita o aumento do risco de diabetes gestacional, de pressão alta durante a gravidez e, se considerar só a idade, de cromossomopatia (síndromes genéticas).

“Pela literatura, a gestação acima de 35 anos a gente considera de alto risco. Mas não necessariamente a paciente terá que fazer mais exames, cesárea, não. É só uma orientação mais de perto, além do que o uma gestante mais jovem teria. Quanto mais precoce, o tratamento é mais cuidadoso, mas isso não implica em intervenção ou excesso de condutas.”

Por outro lado, há um fator positivo em esperar para ser mãe: “De maneira geral, as gestantes que engravidam com mais idade têm mais consciência, conhecem melhor o próprio corpo e procuram o médico caso percebam algo suspeito.”

Fernanda conta que teve uma gestação “tranquila”, esperava que pudesse ter problemas. “Psicologicamente, foi complicado, mas a gravidez foi mais tranquila que a da minha primeira filha, inclusive. Nove meses sem nenhuma intercorrência. Nunca precisei ligar para um médico, minha pressão não oscilou, foi supernormal”.

Ela avalia, contudo, que a maturidade a fez mais superprotetora: “Eu sou mais preocupada hoje, ao contrário do que as pessoas acham, de que vai ser mais tranquilo. Além de hoje eu ter mais consciência do que pode ocorrer, foi difícil engravidar e eu não posso ter outro, a gente leva isso em consideração”, diz.

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