Grupo que acredita em “volta dos ETs à Terra” quer embaixada no Brasil

Raelianos dizem ter encontro marcado para abril com governo brasileiro. Embaixada teria "sala de boas-vindas" e pista de pouso de aeronaves

atualizado 14/02/2021 9:06

Ilustração para matéria sobre os raelianosGui Prímola/Metrópoles

David Uzal morava em Nova York quando o filme “Independence Day” foi lançado, em 1996. O longa ganhou uma continuação 20 anos depois, e mostra gigantescas naves alienígenas invadindo a Terra e transformando em escombros as cidades mais importantes do planeta.

Uzal não gostou nem um pouco do que viu, e soltou uma nota à imprensa. Esclareceu que ETs jamais fariam algo como aquilo caso viessem nos visitar. Isso porque, na visão dele, os alienígenas não são malvados como, em regra, a ficção gosta de retratá-los.

Pelo contrário: a religião raeliana (ou movimento raeliano), da qual Uzal é o representante oficial para a América do Sul, acredita que extraterrestres criaram toda a vida existente na Terra. E não o fizeram por meio de poderes místicos ou sobrenaturais. Contaram com a ciência e a tecnologia.

“Usaram DNA e engenharia genética avançada para criar todas as formas de vida, a começar por organismos simples e, à medida que a sua ciência progredia, criaram organismos mais complexos, como plantas, animais e, eventualmente, seres humanos, à sua imagem”, explica a versão em português do site da religião. Não por acaso, os raelianos se definem como uma “religião ateia”.

Veja imagens de livros e outras divulgações do grupo:

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Há anos, eles tentam concretizar um passo essencial na crença que compartilham: construir uma embaixada para acolher os seres de outros planetas que voltarão à Terra. Israel sempre foi o principal candidato a receber a edificação. Mas, como as negociações com o governo israelense não têm dado resultado, o Brasil virou forte candidato a ceder quatro quilômetros quadrados de seu território aos raelianos. Ao menos, é o que conta David Uzal.

“O Brasil é o primeiro grande país a responder ao nosso pedido de uma forma bastante alentadora e positiva”, revela o líder raeliano. Ele prefere não contar com qual autoridade brasileira exatamente o movimento conversou, nem divulgar detalhes. Garante, contudo, que já há uma negociação em andamento e uma apresentação pública sobre a embaixada marcada para abril, em Brasília.

A construção teria 132 metros de comprimento e 49 metros de largura. Abarcaria uma “sala de boas-vindas”, uma “câmara asséptica”, uma sala de conferências, uma área de residência com salas e quartos, um refeitório e uma pista de pouso para aeronaves.

“Como mostra o documento apresentado aos vários governos abordados, a Embaixada dos Nossos Pais do Espaço trará benefícios financeiros substanciais para o país que a acolhe. A nação afortunada também desfrutará da proteção especial do Elohim e tornar-se-á o centro espiritual e científico do planeta durante milênios”, sustenta o movimento no site criado para divulgar o projeto (http://elohimembassy.org/).

Por embaixada, entenda-se uma representação oficial. Os raelianos querem uma licença de extraterritorialidade igual às conferidas às embaixadas dos países. Ou seja, não é apenas levantar um prédio. É preciso levar em conta uma série de questões legais aplicadas às representações diplomáticas.

A Venezuela também está no páreo para receber a embaixada, diz Udal. Os raelianos admiram Nicolás Maduro por ele ser “anti-imperialista”. Já o presidente Jair Bolsonaro ganhou o respeito deles por sua luta contra a “ditadura sanitária”, ou seja, sua pregação contra praticamente todas as medidas de combate à pandemia de Covid-19.

“São os dois melhores candidatos do continente. O engraçado é que, na Venezuela, nos chamam de chavistas. No Brasil, há quem nos acuse de sermos bolsonaristas”, diz David Uzal. “Somos uma organização de pensamento livre. Apoiamos a Venezuela por sua relação de independência com os Estados Unidos. E apoiamos o presidente brasileiro pela sua postura em defesa da liberdade individual. Até já pedimos à ONU para que o direito a viver sob risco seja incluído entre os direitos humanos.”

Quem é David Uzal

David Uzal tem 50 anos e nasceu em Portugal. Filho de mãe francesa e pai espanhol, virou adepto do raelianismo aos 15 e já viveu no Brasil por 10 anos.

Tudo começou quando ele voltava da escola e viu um cartaz sobre o movimento raeliano. Ele morava na França quando isso aconteceu. O raelianismo foi fundado por um ex-jornalista esportivo francês. Em 1973, Claude Vorilhon era apenas um fã de automobilismo que dirigia uma revista especializada no assunto. Até que, no fim daquele ano, teria tido contato com “um ser humano de outro planeta”. O visitante teria lhe explicado sobre nossas origens e o orientado sobre o futuro da humanidade.

Vorilhon adotou o nome Raël. Nascia o raelianismo, que hoje conta com algo em torno de 100 mil praticantes e simpatizantes ao redor do mundo (de acordo com o movimento). Para os seus adeptos, Raël é o último de muitos profetas que os “nossos criadores” já enviaram à Terra. Buda, Moisés, Jesus e Maomé estariam entre eles.

Os raelianos acreditam que as inúmeras referências a objetos, anjos e deuses vindos do céu, ou no topo de montanhas, presentes tanto nas religiões monoteístas quanto em várias crenças de outras civilizações, são interpretadas da maneira errada. Seriam, na verdade, referências a eles, os seres avançados que vieram do espaço e criaram todas as formas de vida conhecidas.

“Eles nos deixaram vários sinais. Na arqueologia, nos textos sagrados”, diz Uzal. “A palavra hebraica Elohim significa ‘aqueles que vieram do céu’. É plural, mas acabou traduzida como ‘Deus’, no singular. Foi um grande erro. Um erro voluntário.”

A citação ao Antigo Testamento tem relação com a prioridade dada a Israel para a construção da embaixada. “Os Elohim (extraterrestes) tiveram uma relação especial com o povo judeu. Se misturaram com eles. No Gênesis, está escrito que os anjos do Elohim viram que as filhas da Terra eram lindas. As tiveram como esposas, e delas nasceram heróis”, diz Uzal.

No vídeo feito especialmente para apresentar o projeto da embaixada, o próprio Rael afirma que “aqueles que vieram do céu pediram que a gente construa uma embaixada perto de Jerusalém. Porque, para eles, é um local muito importante. É onde seu primeiro ‘laboratório’ foi feito, o Jardim do Éden”.

Uzal não sabe explicar o porquê de o governo israelense até hoje não ter autorizado a construção da embaixada, o que pode levá-la para o Brasil. O motivo, talvez, esteja nas polêmicas que, de tempos em tempos, surgem sobre os raelianos.

O símbolo da religião, por exemplo, é a suástica dentro da Estrela de Davi. Os raelianos argumentam que resgataram o significado original da suástica, usada por diversas culturas muito antes dos nazistas. De qualquer modo, é compreensível que o emblema não pegue bem em Israel.

Os raelianos também já foram acusados de organizar orgias, chamados de seita e causaram um intenso debate sobre clones humanos.

A Clonaid, empresa criada em 1997, chegou a anunciar mais de uma vez que conseguira clonar uma pessoa. A relação exata entre a Clonaid e os raelianos nunca ficou clara. Mas sua diretora, a cientista Brigitte Boisselier, era uma importante integrante do movimento.

Com a tranquilidade de quem enfrenta críticas há decádas, David Uzal rebate todas as acusações sem se alterar. Ele lembra que o raelianismo prega o amor acima de tudo. A previsão da religião para o futuro da humanidade, entretanto, não é exatamente alentadora.

Basicamente, os raelianos acreditam que algo bem horrível acontecerá com o planeta – guerra nuclear, pandemia (!) – e apenas 144 mil pessoas sobreviverão. O equivalente à população de Atibaia, no interior de São Paulo. Elas serão as responsáveis por reconstruir a civilização e elevá-la à perfeição.

Seus governantes não serão “qualquer um”. Apenas os mais sábios e os verdadeiramente preparados para governar comandarão a nova fase da raça humana. A elite da elite intelectual e espiritual.

Parece um contrassenso um movimento com tal pensamento nutrir alguma simpatia pelo governo classificado em um estudo como o pior do mundo no combate à pandemia. Acontece que, como Uzal volta a explicar, aquilo que o resto do planeta considera errado na postura de Bolsonaro, os raelianos veem como méritos.

“Sempre existiram vírus. Você mesmo já foi o vetor de milhões deles”, diz Uzal. “Você deve ter o direito de morrer de uma doença se você quiser. E, desculpe dizer, 250 mil mortos não é muita gente. O Brasil tem 200 milhões de habitantes.”

Itamaraty

O Ministério das Relações Exteriores foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

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