Governo Lula espera escalada de tensão com EUA após fuga de Flávio
Gestão Lula avalia que aval do governo Trump na fuga do senador pode elevar tensões, mas aposta na manutenção do diálogo diplomático

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a fuga do senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve voltar a elevar a tensão entre Brasil e Estados Unidos.
Derrotado na eleição presidencial do último domingo (25/10), o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixou o Brasil na madrugada dessa quarta-feira (28/10), pela fronteira com a Argentina, acompanhado da esposa e das duas filhas. Em seguida, embarcou rumo aos Estados Unidos.
Flávio planeja conceder uma entrevista coletiva à imprensa ainda nesta semana, diretamente dos EUA, para explicar os motivos da fuga. Ele também deve formalizar um pedido de “asilo político” ao governo norte-americano.
Suspeita de envolvimento do governo Trump
O episódio ganha maior dimensão, no entanto, diante da suspeita de envolvimento do governo de Donald Trump na operação. Segundo Simón Levy, advogado mexicano ligado ao presidente norte-americano, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, teria arquitetado a fuga.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesRubio é considerado pelo governo brasileiro o principal representante da ala ideológica da Casa Branca, que articula ações e retaliações contra o Brasil. O secretário é próximo de Eduardo e Flávio Bolsonaro e já criticou publicamente Lula em diversas ocasiões.
Soma-se a esse cenário a possibilidade de o Partido Republicano, de Trump, perder espaço nas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, marcadas para a próxima terça-feira (3/11).
O pleito renovará todas as cadeiras da Câmara dos Representantes, um terço do Senado e 36 governos estaduais. Pesquisas de intenção de voto indicam que os republicanos correm o risco de perder o controle de pelo menos uma das Casas do Congresso.
Uma eventual derrota de Trump nas urnas poderia ampliar a pressão política sobre o presidente norte-americano e abrir caminho para um processo de impeachment. Na avaliação de interlocutores do governo brasileiro, esse cenário poderia tornar Trump mais propenso a adotar medidas de retaliação contra países cujos governos não sejam seus aliados.
Trump segue falando em fraude na eleição brasileira
Trump se manifestou duas vezes sobre a eleição presidencial brasileira. Um dia após o pleito, sem apresentar provas, o líder norte-americano afirmou que o resultado da disputa “pareceu mais uma eleição fraudulenta”. Na ocasião, o republicano disse que o pleito transmitiu uma imagem negativa ao mundo e defendeu que as eleições sejam incontestáveis.
Apesar das críticas, Trump afirmou gostar de Lula e manter uma boa relação com o presidente brasileiro.
O governo do Brasil optou por não reagir à declaração, a fim de evitar alimentar uma polêmica considerada desnecessária. A avaliação é que, com exceção da Argentina e dos Estados Unidos, os principais atores políticos reconheceram imediatamente a vitória do petista, incluindo lideranças da direita sul-americana.
Fuga após intimação
- A fuga do país ocorreu depois da intimação para entregar os passaportes para a Polícia Federal (PF).
- A notificação foi dada no âmbito da investigação que apura lavagem de dinheiro e evasão de divisas por parte do senador e do empresário e amigo Willer Tomaz. Os crimes teriam sido cometidos em empresas de apostas e plataformas de pagamento.
- O pedido de apreensão dos passaportes foi feito pela PF e atendido pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).
- A decisão teria se baseado em uma fala do irmão dele, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro.
- Em vídeo na última sexta-feira (23/10), Eduardo afirmou que, em caso de derrota nas eleições, Flávio Bolsonaro deveria deixar o Brasil. Segundo ele, o irmão ficaria sujeito a investigações após deixar o Senado e perder a imunidade parlamentar.
Busca por relação pragmática
Apesar das perspectivas de recrudescimento das relações entre Brasil e Estados Unidos, auxiliares de Lula acreditam que o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro não impede o governo de buscar uma relação pragmática com a administração Trump.
Como mostrou o Metrópoles, integrantes do governo lembram que, ao longo do mandato, os EUA já serviram de abrigo a outros nomes do bolsonarismo, como Eduardo Bolsonaro, sem que isso impedisse Brasília de manter canais de diálogo com a Casa Branca.
Após a reeleição, o governo brasileiro pretende preservar uma relação pragmática com os norte-americanos. A avaliação é que, apesar das divergências ideológicas, os dois países compartilham interesses em áreas como comércio e segurança pública, que devem continuar na agenda do quarto mandato de Lula.
Para aliados do presidente, o episódio não representa, por si só, um rompimento diplomático com a Casa Branca. Uma ruptura, na avaliação desse grupo, atenderia aos interesses de setores ideológicos dos Estados Unidos e da extrema direita brasileira.
Fontes a par das negociações sobre o tarifaço imposto a produtos brasileiros exportados para os EUA avaliam que o asilo a Flávio não altera as conversas técnicas entre os dois países. Integrantes do governo Lula consideram que o senador já atuava contra os interesses do Brasil.
Desde julho deste ano, os Estados Unidos aplicam sobretaxas de até 37,5% sobre determinados produtos brasileiros. Desde então, o Brasil mantém interlocução com o governo norte-americano na tentativa de reverter as medidas.
Após uma reunião nos Estados Unidos, no fim de setembro, entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o representante do Escritório do Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, à margem de uma agenda do G20, não houve nova conversa ministerial entre os países. O Metrópoles apurou que, até o momento, não há novas reuniões previstas com os EUA.
Além do tarifaço, o governo brasileiro ainda precisa conceder o agrément — aval necessário para que um embaixador seja oficialmente credenciado — a Daniel Perez, indicado para assumir a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. O nome de Perez foi aprovado pelo Senado norte-americano em agosto, mas ainda não recebeu o aval do governo brasileiro.
A anuência de Brasília é uma etapa necessária para que o indicado assuma oficialmente a chefia da missão diplomática dos EUA no país. O governo brasileiro, no entanto, não tem pressa em conceder a autorização. Segundo o Executivo, a análise do currículo do indicado segue critérios rigorosos e técnicos, sem considerar questões políticas ou ideológicas.
O governo Lula havia suspendido a tramitação dos pedidos de agrément que estavam em análise durante o período eleitoral. Com o encerramento do segundo turno, os procedimentos devem ser retomados.














