Governo debate saídas para lidar com alta do endividamento familiar
Com dívida próxima do recorde, equipe econômica negocia com bancos novo modelo de renegociação, que vem sendo chamado de Desenrola 2.0
atualizado
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O avanço do endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro das preocupações do governo federal, que intensificou negociações com bancos para estruturar novas medidas de alívio ao consumidor.
Uma das principais ideias seria criar uma nova versão do Desenrola Brasil, programa que durou 10 meses (entre julho de 2023 a maio de 2024) e que focava na renegociação de dívidas das famílias. Só que, desta vez, seria um programa mais restritivo do que o anterior.
O diagnóstico dentro da equipe econômica é de que o nível atual de comprometimento da renda já começa a afetar o consumo e pode se tornar um entrave ao crescimento em 2026.
Dados do Banco Central (BC) mostram que o endividamento das famílias se aproxima novamente do recorde histórico, alcançando cerca de 49,7% da renda no mês de janeiro, enquanto o comprometimento mensal com dívidas gira em torno de 30%.
Ao mesmo tempo, a inadimplência dá sinais de alta, refletindo o impacto prolongado dos juros elevados sobre o crédito. Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 14,75% ao ano.
Desenrola 2.0
Diante desse cenário, conforme dito acima, o governo discute um novo modelo de renegociação de dívidas, que deve ser mais restrito do que programas anteriores. Nos bastidores, a ideia vem sendo chamada de Desenrola 2.0.
A ideia em avaliação é concentrar esforços em linhas de crédito sem garantia, consideradas as mais caras para o consumidor, como cartão de crédito rotativo, cheque especial e crédito pessoal.
A leitura é que essas modalidades concentram o maior nível de inadimplência e pressionam de forma mais intensa o orçamento das famílias. Ao focar nesses segmentos, o governo tenta maximizar o impacto das medidas sem ampliar excessivamente o risco para o sistema financeiro.
A proposta vem sendo construída em diálogo com bancos, que demonstram maior disposição para renegociar dívidas nesse perfil, especialmente diante do aumento do calote.
A expectativa é criar condições mais favoráveis de pagamento, com alongamento de prazos e redução de juros, permitindo que consumidores troquem dívidas mais caras por alternativas mais sustentáveis.
Além da renegociação, o governo também avalia medidas estruturais para reduzir o custo do crédito. Entre elas, o incentivo ao uso de garantias, o aperfeiçoamento de instrumentos de avaliação de risco e mudanças regulatórias que aumentem a concorrência no sistema financeiro.
O pano de fundo dessas discussões é um ambiente de aperto prolongado. Com juros ainda elevados, as famílias enfrentam dificuldade para reorganizar suas finanças, enquanto bancos mantêm critérios mais rígidos de concessão de crédito.
Dentro do governo, há preocupação em calibrar as medidas para evitar efeitos colaterais, como estímulo ao superendividamento ou aumento excessivo do risco bancário. Por isso, a tendência é de um programa mais focalizado e com alcance gradual.
Ainda assim, a avaliação predominante é que algum tipo de intervenção será necessário, principalmente em ano eleitoral. Sem alívio no endividamento, o consumo, principal motor da economia, tende a perder força, o que pode comprometer o crescimento nos próximos meses.
Como a alta dos juros impacta no endividamento das famílias
- Juros mais altos encarecem parcelas de empréstimos, financiamentos e, principalmente, do cartão de crédito e cheque especial;
- Quem já está endividado passa a comprometer uma fatia maior da renda mensal para pagar as mesmas dívidas;
- Com crédito mais caro, trocar uma dívida por outra com juros menores se torna mais difícil. Além disso, com parcelas mais altas e menos margem no orçamento, cresce o risco de atraso ou calote;
- Famílias evitam novas dívidas e bancos ficam mais restritivos, o que reduz a circulação de dinheiro na economia.
Desenrola Brasil
O Desenrola Brasil foi um programa criado pelo governo em 2023 para incentivar a renegociação de dívidas de pessoas físicas, especialmente de baixa renda. A iniciativa permitiu descontos relevantes, em alguns casos superiores a 80%, e ofereceu condições facilitadas de pagamento, com prazos maiores e possibilidade de parcelamento.
O programa foi dividido em faixas, atendendo desde consumidores negativados com dívidas pequenas até aqueles com débitos maiores junto a bancos, varejistas e concessionárias.
A estratégia teve impacto relevante na redução da inadimplência no curto prazo e ajudou milhões de brasileiros a limpar o nome e voltar ao mercado de crédito.
O novo modelo em discussão pelo governo, porém, tende a ser mais restrito e direcionado. Diferentemente do Desenrola, que tinha alcance amplo e incluía diversos tipos de dívidas, a proposta atual deve focar principalmente em créditos sem garantia, como cartão de crédito rotativo, cheque especial e empréstimos pessoais, justamente as linhas com juros mais altos.
Além disso, a tendência é de uma atuação mais coordenada com os bancos, sem subsídios amplos ou garantias públicas como no programa anterior. A ideia é atacar os pontos de maior pressão no orçamento das famílias, com menor custo fiscal e menor risco de incentivar novo ciclo de endividamento.
