Garimpo que movimentou R$ 16 bi criou moeda digital para lavar dinheiro

Alvo da Polícia Federal, grupo empresarial da mineradora Gana Gold movimentou mais de R$ 16 bilhões em três anos

atualizado 22/07/2022 18:14

Empresário Marcelo Macedo, CEO da Instruaud Divulgação

O grupo empresarial da mineradora Gana Gold, atual M.M. Gold, criou a própria criptomoeda para lavar dinheiro extraído do garimpo ilegal, diz investigação da Polícia Federal (PF).

O sistema de lavagem envolvia ainda outras moedas digitais, como a bitcoin e a ethereum – as duas maiores criptomoedas –, num esquema conhecido como “mescla”, que, na prática, nada mais é que mistura de recursos lícitos com ilícitos.

O grupo foi alvo da Operação Ganância, deflagrada no início deste mês. A ação investiga o comércio ilegal de ouro no Norte do país, além de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.

Os criminosos são acusados de movimentar mais de R$ 16 bilhões de 2019 a 2021.

Sob aval da Agência Nacional de Mineração (ANM), o garimpo era realizado inclusive em área de proteção ambiental (APA) no Pará. Como revelou o Metrópoles, a Gana Gold acumula R$ 17 milhões em multas do Ibama.

As investigações começaram em fevereiro de 2021, após uma denúncia envolvendo empresas de Porto Velho (RO) ligadas ao ramo da saúde.

Além de ocultarem dinheiro do garimpo ilegal em carteiras particulares, um dos núcleos da organização criminosa buscou injetar recursos de origem ilícita em empresas que possuem atividades regulares.

Para tentar justificar o aumento patrimonial e estrutural, o grupo resolveu “tokenizar” seus ativos, pretendendo alcançar um crescimento de 20 milhões com a venda de uma moeda digital própria.

Batizada de IUAD, a moeda digital é gerenciada pela Instruaud, uma empresa de ambulâncias, transporte aeromédico e home care de Porto Velho cujo CEO é o empresário Marcelo Alves Macedo* (foto em destaque), irmão de Márcio Macedo Sobrinho, dono da Gana Gold. Ele foi um dos preso pela PF no início deste mês no âmbito da Operação Ganância.

A Instruaud apresentou projeto de expansão, cuja meta é abrir novas filiais em todas as capitais do país, e prometeu lucros de até 6% ao ano aos investidores.

Dessa maneira, diz a PF, os recursos ilícitos vindos do garimpo ilegal poderiam ser injetados na empresa pelos próprios donos com a roupagem de recursos advindos de investidores anônimos que adquiriram o criptoativo, interessados nas vantagens prometidas.

A Polícia Federal ainda não sabe informar a quantidade total movimentada pelo grupo em moedas digitais. Uma das carteiras analisadas, no entanto, girou mais de R$ 14 milhões somente no ano passado.

Além de bitcoin (BTC) e ethereum (ETH), foram identificados investimentos em dash (DASH), ripple (XRP), tether (USDT) e binance coin (BNB).

Além disso, a investigação apontou que algumas operações feitas por um dos investigados, conhecidas como “trade”, geraram lucros relevantes. Em uma delas, em apenas um dia, a operação resultou num lucro de aproximadamente R$ 50 mil.

Em redes sociais, a Instruaud também anuncia a Binance como plataforma de negociação. A exchange é a maior do Brasil e do mundo.

Investigação da Reuters revelou que a Binance também serviu como lavagem para um total de ao menos US$ 2,3 bilhões (o equivalente a R$ 11,7 bilhões na cotação atual) decorrentes de hacks, fraudes de investimento e vendas de drogas ilegais, entre 2017 e 2021.

Outro lado

Em nota, a Instruaud afirmou que “sempre foi e sempre será uma empresa honesta e transparente”.

A empresa afirmou que irá recorrer contra veículos de comunicação e pessoas “que estão disseminando informações levianas e sensacionalistas com o intuito de se promoverem”.

Por fim, assegurou colaborar com o esclarecimento de qualquer dúvida das autoridades policiais.

Por sua vez, a Binance alegou que “segurança é prioridade” e que atua em total colaboração com as autoridades locais, incluindo em eventuais investigações, para coibir que pessoas mal intencionadas utilizem a plataforma.

“A exchange ressalta que tem uma equipe de investigação de renome mundial, com ex-agentes internacionais, que trabalha em constante coordenação com as autoridades locais no combate a crimes cibernéticos e financeiros, inclusive no rastreamento preventivo de contas suspeitas e atividades fraudulentas e no treinamento a autoridades de aplicação da lei no Brasil e no mundo sobre como investigar crimes relacionados a cripto”, assegurou a empresa.

Além disso, a corretora disse realizar um trabalho constante de educação e apoio aos usuários, incluindo melhores práticas de segurança.

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