Garimpo lavou dinheiro na mesma corretora do Faraó dos Bitcoins

Grupo empresarial preso na Operação Ganância, da Polícia Federal, teria movimentado mais de R$ 16 bilhões entre 2019 e 2021

atualizado 25/07/2022 9:06

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O garimpo ilegal de ouro também se serviu da Binance, maior corretora de criptomoedas do Brasil e do mundo, para lavar dinheiro.

Investigação da Polícia Federal (PF) revelou que o grupo empresarial alvo da Operação Ganância movimentou dinheiro na plataforma sem declarar ao Fisco. A ação apura a extração e o comércio ilegais de ouro no norte do país, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.

Só o empresário Alysson Alves da Silva, apontado pela Polícia Federal como o responsável por ocultar e dissimular os recursos obtidos a partir da exploração ilegal de ouro no Pará, girou cerca de US$ 3 milhões (o equivalente a R$ 16 milhões ao se considerar a cotação atual) na exchange Binance, entre 12 de junho de 2019 e 1º de novembro de 2021.

Alysson é sócio do empresário Marcelo Alves Macedo, dono da Instruaud e irmão de Márcio Macedo Sobrinho, um dos mentores intelectuais do grupo criminoso.

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O alto valor aplicado por Alysson chamou a atenção dos investigadores. Segundo informações da Receita Federal, o empresário movimentou milhões de reais, o que é “absolutamente incompatível” com os rendimentos declarados ao Fisco.

Ainda não se sabe o valor exato aplicado em criptomoedas pelos criminosos, mas, no total, o grupo girou R$ 16 bilhões entre 2019 e 2021.

“Risco de lavagem”

Assim como o garimpo ilegal de ouro, traficantes de drogas, hackers e outros criminosos têm usado a Binance para lavar dinheiro ilícito.

Reportagem da agência Reuters publicada no mês passado apontou que a corretora serviu como lavagem para um total de ao menos US$ 2,3 bilhões (o equivalente a R$ 12,6 bilhões na cotação atual) entre 2017 e 2021. Para fazer o levantamento, a agência entrevistou pesquisadores, autoridades policiais e vítimas em uma dúzia de países, inclusive na Europa e nos Estados Unidos.

Em setembro de 2020, por exemplo, um grupo de hackers norte-coreano conhecido como Lazarus teria usado a Binance para lavar US$ 5,4 milhões (R$ 29 milhões) roubados de uma pequena exchange eslovaca. A ação fez uma série de ataques cibernéticos que, segundo Washington, tinha como objetivo financiar o programa de armas nucleares da Coreia do Norte.

No Brasil, o Banco Central (BC) notificou o banco Acesso, responsável pelas transações da corretora, a respeito do alto risco de lavagem de dinheiro nas operações e exigiu o envio de informações detalhadas sobre os clientes, como revelou o jornal Folha de S. Paulo.

O BC apurou que a Binance teria movimentado R$ 40 bilhões em 2021 sem que se tivesse qualquer controle sobre quem foram os clientes e se a origem dos recursos era lícita.

A corretora também foi uma das empresas usadas no esquema de pirâmide financeira atribuído ao ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, o Faraó dos Bitcoins.

Tokenização

No caso do garimpo ilegal, o grupo criminoso chegou a criar a própria criptomoeda para lavar dinheiro, como revelou o Metrópoles.

Batizada de IUAD, a moeda digital é vinculada à Instruaud, do empresário Marcelo Macedo. A “tokenização” dos ativos foi realizada para tentar justificar o aumento patrimonial e estrutural do grupo, segundo a PF.

A Instruaud apresentou projeto de expansão, cuja meta seria abrir novas filiais em todas as capitais do país, e prometeu lucros de até 6% ao ano aos investidores.

Os valores investidos no token IAUD são provenientes, quase em sua totalidade, dos próprios responsáveis pela Instruaud, Marcelo Alves Macedo e Alysson Alves da Silva. Eles acreditavam que não poderiam ser rastreados.

Dessa maneira, diz a PF, os recursos ilícitos oriundos do garimpo ilegal poderiam ser injetados na empresa pelos próprios donos com a roupagem de verbas advindas de investidores anônimos que adquiriram o criptoativo, interessados nas vantagens prometidas.

Além da própria moeda digital, os criminosos investiram em ativos já conhecidos do mercado, como bitcoin (BTC), ethereum (ETH), dash (DASH), ripple (XRP), tether (USDT) e binance coin (BNB).

Nessa seara, operações feitas por um dos investigados, conhecidas como “trade”, geraram lucros relevantes. Em uma delas, em apenas um dia, a transação resultou num lucro de aproximadamente R$ 50 mil.

Em redes sociais, a Instruaud também anunciou a Binance como “a plataforma de negociação de criptomoedas líder mundial” e que oferece uma das melhores taxas do mercado brasileiro.

“Comprar e vender criptomoedas, seja você iniciante ou um operador experiente, certamente ficará mais fácil, eficiente e barato na plataforma da Binance. Mais do que uma simples corretora de criptomoedas, a Binance abrange todo um ecossistema blockchain com projetos e lançamentos de tokens, análises e relatórios. Ela é a exchange líder global. É incrível tudo o que a Binance pode proporcionar”, diz publicação da empresa.

Outro lado

Procurada, a Binance alegou que “segurança é prioridade” e que atua em total colaboração com as autoridades locais, incluindo eventuais investigações, para coibir que pessoas mal-intencionadas utilizem a plataforma.

“A exchange ressalta que tem uma equipe de investigação de renome mundial, com ex-agentes internacionais, que trabalha em constante coordenação com as autoridades locais no combate a crimes cibernéticos e financeiros, inclusive no rastreamento preventivo de contas suspeitas e atividades fraudulentas e no treinamento a autoridades de aplicação da lei no Brasil e no mundo sobre como investigar crimes relacionados a cripto”, assegurou a empresa.

Além disso, a corretora disse realizar um trabalho constante de educação e apoio aos usuários, incluindo melhores práticas de segurança.

“A Binance ressalta que trabalhou com a Polícia Federal para levar Glaidson Acácio dos Santos à justiça em 2021, congelando suas contas e identificando fluxos de receita potencialmente ilícitos em várias plataformas no mundo todo”, complementou, em referência ao Faraó dos Bitcoins.

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