Fotógrafo é acusado de usar ensaios sensuais para abusar de garotas

Perfil criado no Instagram para denunciar o suspeito já recebeu 81 relatos. O homem foi intimado, mas não compareceu à delegacia

atualizado 15/06/2019 15:06

Reprodução

César Oliveira Acosta, fotógrafo pelo menos desde 2015, tem recebido diversas denúncias de garotas de vários lugares do país. O homem, de 33 anos, especializado em nu fotográfico, teria aproveitado da profissão para abusar de mulheres, de acordo com relatos das vítimas, da Polícia Civil e até mesmo do próprio fotógrafo – apesar de não chamar os casos de “abusos”.

Um perfil criado no Instagram, na última quarta-feira (12/06/2019), apresenta, até o fechamento desta matéria, ao menos 81 relatos de vítimas. A página, que recebe o nome do fotógrafo junto ao termo “denuncia”, foi criada única e exclusivamente para divulgar os abusos e ganha cada vez mais publicações.

Segundo a administradora do perfil, Anny Alves, 24 anos, que também relata ter sofrido abusos, o fotógrafo recebeu mais de 200 denúncias de mulheres diferentes. Os relatos vão desde solicitação de fotos íntimas antes dos ensaios e pedidos explícitos de namoro até toques abusivos em partes íntimas que, em alguns casos, teriam sido cometidos contra menores de idades.

Denúncias
Em um dos casos, uma mulher decidiu fazer um ensaio com César, depois de muita insistência do fotógrafo. A jovem acertou posar desde que fosse “um ensaio mais leve, nada sem sutiã ou sem calcinha”. No entanto, durante a sessão, o homem insistiu para que a jovem tirasse as roupas. Ela negou, e César acabou perdendo a paciência.

“Veio para que então?”, perguntou o fotógrafo, segundo relatos da moça. Em seguida, a mulher conta que ele foi “totalmente estúpido” e depois começou a dar em cima dela. “Me senti tão desconfortável que, quando cheguei em casa, só consegui mandar mensagem para ele dizendo que não queria as fotos, que ele as apagasse”, diz. Segundo a ela, César teria cobrado R$ 600 como forma de multa.

 

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RELATO N#5

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Em outro segundo caso, uma mulher relata que, durante os ensaios, César ficou tocando de forma abusiva em suas partes íntimas, após pedir, “de forma escrota”, para que ela tirasse a roupa. “Lembro que ele colocou a mão na minha bunda para o braço dele aparecer junto na foto”, diz. “Uma foto segurando meu seio também”, completa, ao afirmar que o fotógrafo ofereceu bebida alcoólica para que ela se soltasse.

De acordo com outro relato, certa vez César chegou a “beijar a virilha” da vítima. “Uma garota que fez ensaio com ele, comentou que ele fazia ela se tocar para ficar excitada, justificando o fato de as fotos ficarem com melhor contexto. Chegou ao ponto de beijar a virilha dela para deixá-la no clima”, conta.

Os relatos continuam: “Como vou fotografar com um cara que vem me falar do tamanho do pau dele e dizer que ‘compensa no oral’”, diz uma suposta vítima. “Ficava falando em pênis, vagina e sexo o tempo todo”, completa outra. “Isso aconteceu comigo quando eu tinha 16 para 17 anos. Ele pedia fotos nuas, de frente, de costas. Disse que só queria ver como era o meu ‘jeitinho’”. Outras meninas alegaram ainda terem sido humilhadas por ele por estarem “fora do padrão”.

 

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RELATO N#82

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A porta-voz
Criadora do perfil no Instagram, a modelo e estudante de design gráfico, Anny Alves, também se diz vítima. Ao Metrópoles, a jovem relata o que ocorreu antes, durante e depois do ensaio. “O César é uma pessoa muita carismática. Ele realmente força uma intimidade com as pessoas, desde o primeiro contato”, descreve.

A princípio, o fotógrafo também pediu para que Anny enviasse “nudes” antes da sessão de fotos. “Como foi meu primeiro ensaio, imaginei que poderia ser uma atitude comum. Então acabei mandando fotos de biquíni”, conta. No início da sessão, a jovem diz que logo ficou nervosa. “Ele falava para ficar mais perto. Pegava na minha barriga, no meu seio. Na hora pensei que isso era normal”, diz.

Por fim, César pediu para que Anny, já completamente nua, o abraçasse. Ela tentou colocar a roupa, mas ele fez questão que ela continuasse pelada. Após o encontro, o fotógrafo convidou a estudante várias vezes para sair, além de elogios, chegou a pedi-la em namoro. “Mais de um mês após o ensaio, pedi minhas fotos. Ele me passou um link e perguntou: ‘E aí, você segue namorando?’”.

Depois de conversar com o namorado sobre o ocorrido, Anny decidiu ir às redes sociais. A princípio, em sua sequência de vídeos no Instagram, ela queria simplesmente alertar outras mulheres a tomarem cuidado na hora de fazerem ensaios sensuais – ela nem sequer citou o nome de César. No entanto, o relato tomou tamanha dimensão que novas vítimas foram aparecendo e então a estudante decidiu criar o perfil para denúncias.

Versão de César
Ao Metrópoles, o fotógrafo César Oliveira Acosta negou que tenha cometido qualquer tipo de abuso. “Tive muitas atitudes que hoje em dia considero erradas! Mas nunca abusei de menina menor de idade nem de nenhuma menina. Tudo que fiz foi sempre consentido”, afirmou. Perguntado sobre o que considera consensual, ele reiterou que sempre pediu permissão antes de fazer qualquer coisa.

“Eu pequei no excesso de intimidade que eu tentava criar, achando que tinha direito de falar coisas sobre as pessoas e até mesmo fazer piadas de cunho sexual, quando, na verdade, eu não tinha essa liberdade”, diz. Entretanto, logo em seguida, o fotógrafo afirma que as mensagens foram descontextualizadas e que não se lembra de ter xingado clientes.

“Esses prints foram recortados e tirados de contexto, dando a entender que eu estava falando aquelas coisas com cunho sexual, coisa que não era. Outro erro meu: grosseria. Responder de forma ríspida quando eu era contrariado. Mas não me recordo de xingar ninguém, principalmente clientes”, complementa.

O fotógrafo publicou em suas redes sociais, na quinta-feira (13/06/2019), um vídeo intitulado “minhas desculpas”. O mea culpa de César tem duração de pouco mais de nove minutos, quando ele admite parte dos abusos cometidos e pede desculpas pelo que fez, garantindo que tem melhorado desde então. O perfil de César no Instagram foi desativado no início da tarde deste sábado (15/06/2019).

“Nada do que  fiz tem justificativa. Fiz coisas que na época não considerava errado, porque recebi um ‘tá’ ou um sorrisinho de canto e achava que estava tudo bem, mas não estava”, afirmou. Ele diz que os atos ocorreram entre os anos de 2015 e 2016. No entanto, de acordo com dados da Polícia Civil, há boletins de ocorrência até 2017.

“Fiz fotos extremamente sexualizadas, poses desnecessárias, tive atitudes que não deveria ter tido, inclusive cheguei a pedir nudes de meninas antes do ensaio, eu fiz isso sim. Chamei algumas para sair, fiz piadas de cunho sexual, falei coisas extremamente horríveis e, como eu recebia uma resposta positiva, entre aspas, eu achava que estava tudo bem”, disse, ainda durante o vídeo.

Versão oficial
Apesar dos vários relatos feitos nas redes sociais, a maior parte não foi registrada em delegacias. Ao Metrópoles, Anny diz que várias meninas estão com medo de que algo pior venha aconteça e ressaltou que é preciso muita coragem para fazer a denúncia. A estudante disse ter registrado o boletim de ocorrência nessa sexta (14/06/2019) e revelou já ter chamado um advogado para ajudá-la no processo.

De acordo com a Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC), cidade nascedouro das denúncias, César Oliveira Acosta possui sete boletins de ocorrência em seu nome. Desses, três são referentes a crimes sexuais onde ele aparece como autor. Os abusos teriam sido cometidos entre 2015 e 2017, de acordo com a corporação.

O fotógrafo também foi intimado, em três situações, para prestar depoimento na 5ª Delegacia de Polícia do bairro da Trindade, na grande Florianópolis, em Santa Catarina, mas não compareceu em nenhuma delas. Ao Metrópoles, César diz: “Não fui chamado nenhuma vez para depor sobre este caso”.

Recomendações
Especializada em ética em trabalhos sensuais, a fotógrafa Raquel Pellicano, 31, reforça que a profissão é delicada e que o respeito deve ser premissa de qualquer profissional da área. É fundamental, explica, que alguns cuidados sejam tomados, para se preservar e não constranger modelos. “O toque físico deve ser evitado a todo custo, o ideal é que haja outra pessoa no ambiente, de preferência mulher (no caso do nu feminino)”.

A profissional explica que o estilo das fotos e a forma como o ensaio será conduzido devem ser combinados e acordados previamente com cuidado. “O processo fotográfico deve ser cuidadoso e profissional, sem nenhum tipo de diálogo com conotações dúbias que possam ser mal interpretadas”, complementa.

Dez anos como profissional e sete destes trabalhando com nu fotográfico, Raquel dá dicas essenciais para as mulheres que desejam fazer um ensaio fotográfico, seja sensual ou não, ficarem satisfeitas com o trabalho. “A primeira de todas é buscar o portfólio, o trabalho e a trajetória do profissional. Pesquisar o nome no Google e verificar se ele já esteve envolvido em algum escândalo que foi a público.”

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