Fonte de renda de quilombolas, ecoturismo perde público em Goiás

Prefeitura de Cavalcante confirma perda de turistas por causa da pandemia do coronavírus. Famosa cachoeira Santa Bárbara fica na região

atualizado 28/02/2021 17:30

Cachoeira Santa BárbaraDivulgação

Goiânia – Mais movimentados por turistas principalmente do Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro, atrativos naturais considerados verdadeiros oásis registraram queda de ao menos 50% do público e não resgataram o fluxo de geração de renda na região de quilombos, em Cavalcante, no nordeste goiano. A redução é em função da pandemia de coronavírus. O dado é da prefeitura, que diz ter definido a saúde dos moradores como prioridade.

Mesmo com águas cristalinas de cachoeiras e monumentos rochosos exuberantes, o vazio de gente tem tomado conta das belas quedas d’água na região de comunidades tradicionais na Chapada dos Veadeiros, como mostra a terceira reportagem da série Quilombos na Pandemia.

Em Cavalcante, por exemplo, os turistas passaram a ter regras mais rígidas no início deste mês, em mais uma tentativa do poder público de evitar aglomeração de pessoas durante a pandemia do coronavírus.

No município, onde fica a cachoeira Santa Bárbara, uma das mais visitadas no estado, continua proibido o consumo de bebidas alcoólicas em qualquer horário dentro dos estabelecimentos como bares e restaurantes ou mesmo em espaços públicos, como ruas, praças e parques. O atrativo está fechado para o público.

Com 10 mil habitantes,  a cidade já confirmou 78 casos de Covid-19 e três mortes por causa do coronavírus desde o início da pandemia. No total, 485 testes foram realizados em pessoas que apresentaram pelo menos três sintomas.

Assim como em todo o mundo, o desafio de famílias quilombolas é retomar as atividades econômicas locais, impulsionadas pelo ecoturismo e pela agricultura familiar na região, sem aumentar o número de casos da doença na cidade.

“Tivemos aumento de casos em janeiro, agora que estamos conseguindo controlar”, afirma a secretária municipal de Saúde Gessélia Batista Dias Fernandes.

Catálogo de cachoeiras

No território quilombola Kalunga, que se estende pelas cidades goianas de Cavalcante, Teresina e Monte Alegre, há mais de 30 cachoeiras visitáveis. Em toda a área, segundo a mais recente catalogação do Sebrae, são 750 cachoeiras, incluindo as inacessíveis.

0

Em Cavalcante, o secretário municipal de Turismo, Rodrigo Batista Neves, afirma que a atividade movimentou R$ 60 milhões, em 2019, ano anterior à chegada da pandemia ao país. No entanto, ele diz que “o município não arrecadou com os atrativos por causa da dificuldade de cobrar tributos em meio à informalidade”.

Antes da pandemia, 250 condutores de visitantes – a maioria quilombolas formados em curso básico para a atividade – acompanhavam os turistas nos principais atrativos em Cavalcante.

Paisagem deslumbrante

É na saída sul da cidade que a natureza oferece mais uma amostra do oásis no Cerrado goiano. A Cachoeira de São Félix, a 67 quilômetros da região central de Cavalcante, aumenta a lista de atrativos naturais. No local, duas quedas d’água podem ser vistas de frente para a praia de 80 metros de extensão.

Ainda na direção da saída sul da cidade, a reserva particular de patrimônio natural Ponte de Pedra é um monumento rochoso que se formou há 1,8 bilhão de anos, a partir do choque de placas tectônicas e onde pode ser visto um arco de quartzito de 22 metros de altura, composto por areia de fundo de mar, com sílica e água quente.

Já no sentido norte do município, a 62 quilômetros da cidade em estrada de chão, à margem direita, o Complexo do Prata toma conta da paisagem do território Kalunga. Das 12 cachoeiras, sete são visitáveis para banho, e as demais podem ser contempladas em mirante ou ainda não possuem trilha.

À procura de  uma saída

A prefeitura diz que analisa formas de estimular as atividades econômicas, mas sem prejudicar as medidas sanitárias que evitam o aumento de casos de coronavírus.

“A gente sabe que as pessoas estão passando muita dificuldade para ter o próprio alimento”, afirma a secretária de Saúde. “Mas o município precisa seguir com as regras que evitam aglomeração de pessoas”, acrescenta, ressaltando que os idosos são a prioridade da vacinação, neste momento, em todo o estado, independentemente de serem, ou não, quilombolas.

Para tentar imunizar toda a população local, a prefeitura definiu critérios apenas por faixa etária. “Também queremos que a movimentação volte ao normal o mais breve possível, mas nem recebemos ainda vacinas específicas para dentro das comunidades. Assim que concluirmos a vacinação na cidade, se sobrarem doses, vamos para a zona rural. Estamos pedindo ajuda ao estado”, afirma o secretário de turismo.

Impacto

Superintendente estadual de Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SESGO), Flúvia Amorim observa que os quilombolas fazem parte dos grupos prioritários, de acordo com os planos nacional e estadual de vacinação contra Covid-19.

“A secretaria aguarda o repasse de novas remessas de vacinas, por parte do Ministério da Saúde, para dar seguimento à imunização de novos grupos, incluindo a população quilombola”, prometeu.

O Ministério da Saúde, por sua vez, informou que a vacinação de povos e comunidades tradicionais quilombolas deverá ser realizada por meio de estratégias específicas planejadas em nível municipal, respeitando as atribuições de cada ente federado.

O desafio, portanto, como se sabe, é conciliar geração de renda para as famílias com ações que, no mínimo, preservem a saúde de todos.

Últimas notícias