Filas nos hospitais e UTIs mais cheias: saúde caminha para colapso

Instituições internacionais, Ministério da Saúde, Fiocruz e Conass alertam para o rápido avanço da Ômicron e da influenza no Brasil

atualizado 13/01/2022 8:59

Pessoas doentes em hospital com placa escrito Posto de TriagemArthur Menescal/Especial Metrópoles

O avanço de casos da variante Ômicron e de influenza no Brasil tem sobrecarregado prontos-socorros no país e elevado o percentual de ocupação nas unidades de terapia intensiva (UTIs). A combinação de rápida piora da pandemia de Covid-19 e da epidemia de gripe ameaça provocar um colapso do sistema, segundo o próprio ministro da Saúde admitiu na quarta-feira (12/1).

Somente nessa quarta-feira, o Brasil registrou 87.471 novos casos confirmados de Covid-19. O número, que pode estar bastante subnotificado, é maior que o contabilizado no dia anterior, quando 70.765 contaminados foram notificados. Com isso, a média de casos chegou a 52.261 novos infectados ao dia, alta de 794% na comparação com 14 dias atrás.

Os números se refletem em filas gigantescas, com horas de espera, em diversos hospitais públicos e privados pelo país. O Metrópoles percorreu unidades de saúde por Brasília, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. O retrato era de lotação (com muitas horas de espera), dor e medo.

A preocupação com o crescimento das infecções no Brasil já foi relatada em pesquisas como a da Universidade de Washington, que prevê 1 milhão de casos de Covid-19 por dia no país até o fim de janeiro, se porventura medidas de contenção mais fortes não sejam retomadas; da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e do próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Em entrevista coletiva, o chefe da pasta admitiu “perspectivas de colapsos”:

“Agora com o novo desafio da variante Ômicron, inicialmente identificada na África, que rapidamente se espalhou pelo mundo. Incertezas com novo surto de casos, novos impactos no sistema de saúde, perspectiva de colapsos e perda de vidas. Trabalhamos para evitar que isso aconteça”, afirmou, nessa quarta-feira.

Além disso, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) publicou nota afirmando que o crescimento de casos, impulsionado pela nova variante, volta a impor desafios aos sistemas de saúde público e privado do país.

“Em 2 de janeiro, segundo dados disponibilizados pelo Painel Conass, o Brasil notificou 1.721 casos de Covid. No último domingo (9/1), 24.382 casos foram notificados pelas secretarias”, disse a entidade em nota encaminhada ao ministro da Saúde.

Assim, o Conass pediu imediatas decisões nacionais para que seja possível imunizar toda a população, além de medidas a fim de ampliar o atendimento nas unidades de saúde pelo país.

UTIs

Levantamento feito pelo Metrópoles em UTIs das 27 unidades da Federação (UFs) revela que o estado de Pernambuco entrou na zona crítica de ocupação de leitos de UTI destinados para Covid-19, com 84%. Outros estados, apesar de estarem na zona de alerta intermediário (entre 60% e 80%), apresentaram crescimento na taxa ao longo das últimas semanas.

O acréscimo nas internações com necessidade de suporte ventilatório e acompanhamento em UTI é observado logo após as festas de Natal e Réveillon.

Na rede estadual de Goiás, a quantidade de leitos de UTI para pacientes com Covid caiu de 318 para 147 em 1 mês, quando se imaginava que a pandemia estava controlada. O número de internados nessas unidades, contudo, dobrou depois do Natal. Nessa quarta-feira, a taxa de ocupação era de 78%. Em 24 de dezembro, o indicador estava em 22%.

Ainda levando em consideração a semana do Natal e a atual realidade, a taxa de ocupação de UTI Covid passou de 23% para 62% no Tocantins e de 56% para 84% em Pernambuco – onde o número de leitos aumentou de 696 para 910 no mesmo período, o que teoricamente poderia ter feito o percentual de ocupação cair.

O levantamento foi feito pela reportagem na tarde dessa quarta-feira (12/1) com base em dados oficiais disponibilizados pelas secretarias estaduais de Saúde, e considera informações sobre leitos públicos e/ou privados. Veja:

Ômicron e influenza

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam preocupação com o crescimento rápido de infectados e ocorrência da Covid com a influenza. A circulação dos vírus ao mesmo tempo dificulta o atendimento também de outras doenças, porque consome o pessoal dos hospitais e agrava a possibilidade de internação com necessidade de suporte respiratório.

A infectologista Ana Helena Germoglio ressalta que, hoje, o que existe é uma superlotação dos prontos-socorros para atendimento. As UTIs ainda não chegaram ao limite, devido ao grande número de vacinados contra a Covid-19. Os imunizados têm apresentado sintomas mais fracos da doença, o que reduz a necessidade de UTI.

“Qualquer unidade onde você passar em frente terá filas. Temos uma epidemia dentro de uma pandemia. Temos duas doenças respiratórias num momento em que as pessoas se aglomeraram muito e havia despreocupação com as medidas de proteção básicas, como o uso de máscaras. A percepção geral é de que as pessoas imunizadas que pegam Covid evoluem de forma muito leve”, afirmou a infectologista.

Segundo ela, em contrapartida, como existem dois vírus circulando, a demanda por serviços de saúde tem sido muito alta. “Se eu tiver milhares de pessoas doentes ao mesmo tempo, é claro que terei aquelas que vão necessitar de internação e leitos de UTI. Quanto mais vacinados tiver, melhor”, ressaltou.

Pressão sobre o SUS

Análise realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) demonstra a necessidade de alerta para o crescimento de casos de Covid-19 no país. “O aumento das infecções coloca um novo alerta sobre a pressão que pode exercer sobre o sistema de saúde, em especial pela demanda de recursos complexos”, diz boletim da Fiocruz, divulgado nesta quarta-feira (12/1).

Retrato considerando somente os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) mostra que, entre as capitais brasileiras, Recife tem 80% de ocupação; Belo Horizonte, 84%; Fortaleza, 88%; e Goiânia, 94%. Todas estão hoje na zona de alerta crítico. Macapá (60%), Maceió (68%), Salvador (68%), Brasília (74%), Porto Velho (76%) e Vitória (77%) estão na zona de alerta intermediário.

Segundo analisou a Fiocruz, embora tenha ocorrido uma queda na busca de leitos de UTI após o ápice do surto ocorrido entre março e junho, o quadro precisa voltar a ser observado. O cenário de desmobilização de UTIs Covid em dezembro de 2021 não é mais o mesmo do início de janeiro de 2022.

“Tem se observado importantes mudanças no número de leitos de UTI direcionados à Covid-19, com estados ainda apresentando retiradas significativas de leitos, enquanto outros, como Pernambuco, acionando o seu Plano de Contingência para enfrentar o aumento no número de casos”, diz boletim.

A Fiocruz lamenta o recrudescimento da pandemia sem dados epidemiológicos confiáveis disponíveis para apreciação do que está ocorrendo, além de tendências do que pode ocorrer. “É gravíssimo”, diz o boletim.

Mesmo assim, a fundação considera que já é possível observar evidências de que a vacinação já faz grande diferença no cenário que se apresenta, comparado a momentos anteriores.

São Paulo

O estado de São Paulo tem 42,4% dos leitos de enfermaria ocupados, e 39% dos leitos de UTI. A Região Metropolitana de São Paulo, composta por 39 municípios, tem 51,7% dos leitos de enfermaria ocupados, enquanto de UTI a taxa de ocupação chega a 46,4%.

Na capital paulista, tanto o Pronto-Socorro da Barra Funda quanto o Ambulatório de Especialidades Médicas (AMA) da Barra Funda, na zona oeste, tinham movimento intenso nessa quarta-feira (12/1).

Todas as unidades de saúde da cidade estão fazendo testes de Covid-19 e gripe, por isso é comum encontrar pessoas que vão aos locais só para fazer a testagem. Entretanto, a espera é longa, em média de duas horas.

Foi o caso de Roberta Macedo, de 57 anos, que chegou ao AMA Barra Funda às 13h50, e às 15h45 ainda estava esperando o teste. Ela conta que teve sintomas de gripe na semana passada, mas que já está bem, e mesmo assim quis fazer o exame “para fazer parte das estatísticas”.

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Ela disse que chegou a tentar fazer o teste em um hospital privado na região de Higienópolis, mas conta que, com a consulta, o valor ficaria em R$ 1 mil. “É o mínimo, a gente tem que testar e fazer parte das estatísticas. Eu já estou bem, talvez eu não tenha nada, é o mais provável. Eu me sentia mal de não ter feito o teste, porque acho que tem que comprovar”, falou. Ela já está vacinada com as três doses.

Analice Basílio, de 56 anos, foi ao pronto-socorro tratar de outros problemas, e reclamou da lotação: “Três horas para ser atendida. Antes da Covid, aqui era vazio, mas, desde que começou a pandemia, é sempre lotado desse jeito”, desabafou.

Goiás

Depois de quatro meses de desmobilização de UTIs de Covid-19, que estavam sendo desativadas ou transformadas em leitos para outras doenças, o governo de Goiás e a Prefeitura de Goiânia decidiram retomar a criação de vagas exclusivas para pacientes graves com coronavírus.

Isso acontece depois do aumento repentino da demanda por unidade de terapia intensiva após Natal e Ano-Novo, que chegou a aumentar a taxa de ocupação da rede municipal de Goiânia de 51% para 94% entre segunda-feira (10/1) e terça-feira (11/1).

O aumento da ocupação dos leitos de UTI em Goiás se deve ao crescimento da quantidade de doentes graves e também à diminuição na quantidade de vagas.

Na rede estadual de Goiás, o número de leitos de UTI para pacientes com coronavírus caiu de 318 para 147 em 1 mês. A prefeitura de Goiânia precisou abrir 30 novas vagas de UTI para coronavírus depois de quase lotar as disponíveis. Vinte e sete delas são alugadas de hospitais privados. A taxa de ocupação nessa quarta era de 72%.

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A Secretaria Estadual de Saúde afirma que o perfil da maioria dos pacientes graves internados é de pessoas que não se vacinaram contra a Covid-19 ou que não tomaram todas as doses indicadas.

Aumento em 10 dias

Em Itapaci, a 130 km de Goiânia, a quantidade de casos ativos de Covid-19, ou seja, que foram identificados e podem contaminar outros, pulou de 48 pessoas para 362 em um intervalo de 10 dias.

Um profissional de saúde da cidade ouvido pela reportagem, que prefere não se identificar, contou que os seis postos de saúde do município estão atendendo, em média, 60 pacientes por dia, além do hospital, que atende cerca de 100 pessoas diariamente.

“Aqui está o caos de casos de Covid-19 e gripe, mas a vacina tem salvado muita gente. Tem evitado o pior. Os casos estão mais leves. Mas a demanda aumentou vertiginosamente. Em um dia normal, eu atendia 18, 19 pacientes. Hoje, estou atendendo 40, 50 por dia”, contou.

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Rio de Janeiro

Na terça-feira (11/1), a taxa de ocupação de leitos no Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimento de pessoas com Covid-19 no estado estava em 14,5% para UTI e 16,1% para enfermaria.

No entanto, em função do aumento do número de casos e internações na capital, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro já abriu 50 leitos no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla (25 de enfermaria e 25 de UTI) e deverá abrir outros na unidade, conforme necessidade.

Há algumas semanas, a pasta vem solicitando que o estado e o governo federal reabram leitos para Covid-19 na capital. O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, por exemplo, tem capacidade para cerca de 140 leitos Covid-19; o Hospital Geral de Bonsucesso, de cerca de 250 leitos; e o Hospital Estadual Anchieta, por volta de 40 leitos.

Distrito Federal

No Distrito Federal, a situação se repete. Pacientes com suspeita de Covid-19 procuram atendimento no Hospital de Base (HB) e no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) para realizar teste e consultas. A reportagem do Metrópoles presenciou filas de espera nas emergências das duas unidades.

A professora Flávia Neves esteve no HB para acompanhar a alta da sogra, de 80 anos, que teve diagnóstico de pneumonia após contrair Covid-19. Segundo ela, a unidade estava lotada, motivo da alta demanda dos profissionais da saúde. “O atendimento dos servidores é excelente, porém, a quantidade de pacientes que esperam por acompanhamento médico é grande”, contou.

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