Exclusivo: em áudio, Paolo Zanotto, do “ministério paralelo”, zomba da “Chin Doria” e defende cloroquina

Virologista ironiza Coronavac e sinaliza como tratativas sobre vacinas corriam à margem das esferas oficiais, com anuência de Weintraub

atualizado 14/06/2021 19:43

O Metrópoles teve acesso a um áudio enviado pelo virologista Paolo Zanotto para um grupo de médicos em um aplicativo de mensagens. O integrante do chamado “ministério paralelo“, que teria orientado o presidente da República durante a pandemia, faz longo discurso, de 11 minutos, no qual questiona a eficácia de vacinas e sustenta que o chamado tratamento precoce “tem muito mais evidências” do que os imunizantes. Além dos especialistas, Arthur Weintraub, então assessor especial da Presidência, faz parte do grupo.

Na gravação, Zanotto – que não tem função formal no Ministério da Saúde ou em outro órgão do governo federal – assume que participou de uma reunião para discutir vacinas. Em outro áudio, Arthur oferece ajuda para financiar estudos e pesquisas, sem a necessidade de editais.

Além da confirmação de uma fonte que participava do grupo, a reportagem pediu uma análise das gravações ao renomado perito criminalista Nelson Massini. O profissional atestou que as vozes são de Zanotto e Weintraub. Massini é professor de medicina legal nas universidades estadual e federal do Rio de Janeiro (Uerj e UFRJ) e, além de médico, é formado em direito e odontologia.

Ouça o diálogo:

A conversa ocorreu na semana anterior à reunião de 8 de setembro de 2020 revelada pelo Metrópoles, em que a criação de um “shadow board” (em tradução livre, gabinete das sombras) é proposta ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Ideia semelhante é citada no áudio, mas restrita a um grupo de “vacinologistas”. Zanotto diz aos colegas que já tinha alguém para indicar como líder do grupo que propunha – seria um especialista, cujo nome não foi revelado pelo virologista, da Universidade de São Paulo (USP). À época, a farmacêutica Pfizer já havia enviado propostas de contratos para garantir vacinas ao Brasil, e seguia sem obter resposta.

Até agora, a alegação dos aliados do governo era de que a existência do “ministério paralelo” contrariava a lógica, pois a reunião em vídeo exposta pelo Metrópoles estava marcada na agenda de Bolsonaro e chegara a ser transmitida ao vivo na página do chefe do Executivo federal no Facebook. Agora, entretanto, o áudio revela mais uma parte – obscura, restrita a um pequeno grupo fora dos holofotes e sem qualquer mecanismo de supervisão – desse trajeto da ação de pessoas fora das esferas oficiais do governo para influenciar as ações de Bolsonaro e da administração pública brasileira sobre a condução da pandemia.

No áudio, Zanotto tira sarro da Coronavac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. “Vamos supor que a vacina do ‘Chin Doria’ tenha tido algum bom resultado em fase 1. Você vai pra fase 2; na fase 2, você aumenta o grupo de pessoas (…). É impossível, de janeiro até agora, a gente ter dados razoáveis”, afirma, sem apresentar qualquer evidência das alegações.

O virologista também ataca quem pede evidências científicas para o chamado “tratamento precoce” contra a Covid-19, inclusive sustentando que existiria mais comprovação sobre funcionamento dos tais medicamentos do que sobre a vacina. “O mesmo pessoal que está indo totalmente a favor da aplicação de vacinas, agora, são os mesmos que querem evidência tipo A para o uso da hidroxicloroquina. Quer dizer, que canalhice é essa? Te garanto que existe muito mais evidência que o tratamento precoce funciona”, diz, novamente sem apresentar provas das afirmações.

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“Anti-vaxxers”

Na maior parte do áudio, Zanotto apresenta questionamentos sobre os imunizantes. Ele se preocupa com a possibilidade de o grupo ser chamado de “anti-vaxxer”, termo em inglês para definir quem é contrário à vacinação. “Ignorantes, estúpidas, burras, não querem ler e são levadas no bico por um bando de idiotas”, afirma Zanotto sobre pessoas que definem sua pregação contrária aos imunizantes contra Covid-19 como uma postura antivacinas.

Após levantar dúvidas sobre a eficácia e segurança dos imunizantes, Zanotto anuncia que integrantes do grupo vão a Brasília na semana seguinte. “Nós vamos conversar com o presidente do Brasil e, depois, à tarde, no Senado; e, no dia seguinte, nós vamos conversar com o ministro da Saúde e o pessoal de lá”, relata, ao descrever o roteiro pela capital federal.

Em seguida, Zanotto faz uma revelação inédita. Sem fornecer detalhes sobre a situação ou os integrantes do encontro, ele relata ter comparecido a uma reunião sobre a compra de vacinas. “Participei de encontros com os caras que querem empurrar vacina, e o que eles estão mais preocupados é [com] autorização de Anvisa. E, quando você pergunta alguma coisa acerca dos dados, eles simplesmente dão risada e dizem que isso não é importante. Então, só vai ser relevante no momento que fizermos acordos com eles e que eles perceberem que a gente tem mecanismos para navegar através da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Isso eu vi pessoalmente numa reunião, participando dela”, enfatiza.

O áudio é respondido por Arthur Weintraub, então assessor especial da Presidência da República. Ele demonstra proximidade com Zanotto. “Grande doutor Paolo, tudo bem? Tentei te ligar agora, mais tarde tento te ligar de novo, mas também deixei contigo aí o endereço de e-mail do nosso gabinete.”

O irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub prossegue se colocando à disposição para que o governo brasileiro arque com eventuais custos dos estudos sobre todas as resistências apontadas em relação à vacinação. “Qualquer proposta, ou indicação de necessidade para custeio de pesquisa e tudo, normalmente a gente vai pelo caminho de editais, mas, em alguns casos em especial, a equipe pode avaliar. Então, já em um primeiro momento, poderiam mandar para o gabinete e eu oriento aqui”, diz Weintraub.

O virologista Paolo Zanotto foi procurado para se manifestar sobre esta reportagem por meio do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. No fim da tarde desta segunda-feira, ele enviou uma resposta, na qual reitera defesa do chamado “tratamento precoce”, reclama que defensores dos remédios sem comprovação científica de eficácia contra a Covid são “caçados” e alega que o áudio “parece editado”.

Logo após levantar a hipótese de edição da fala – o que não aconteceu, segundo confirmação do perito Nelson Massini –, ele, porém, sustenta que, na verdade, o discurso teria ocorrido em uma reunião com uma “secretaria de saúde”, mas não diz quando isso teria ocorrido nem a qual órgão se refere.

Zanotto também alega, no fim de seu posicionamento, que a outra voz não pertence ao ex-assessor especial da Presidência Arthur Weintraub (a autoria da segunda voz foi atestada pelo perito criminal consultado pelo Metrópoles), sem elaborar as razões para a negativa e sem identificar quem então seria o interlocutor.

Leia a resposta, na íntegra:

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O Metrópoles também procurou Arthur Weintraub, via rede social e Organização dos Estados Americanos (OEA), onde atua como secretário de Segurança Multidimensional atualmente. Até a última atualização desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto.

Colaboraram Luciana Lima e Tácio Lorran

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