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Após 13 anos daquilo que acreditava ser um sonho, Michella Marys restringe o que definia como “a grande paixão da sua vida” a um relacionamento abusivo, amedrontador e covarde, vivido ao lado do juiz recém-afastado da Corte Interamericana de Direitos Humanos Roberto de Figueiredo Caldas.

Em entrevista ao Metrópoles, a ex-mulher do jurista relata com riqueza de detalhes o pesadelo vivido ao lado do então companheiro. Ela deixou a família em Sergipe com a promessa de viver um conto de fadas, mas o filme não teve enredo feliz. Terminou em agressões verbais e físicas, incluindo ameaças de retirar os filhos de Michella – ela teve uma menina de um relacionamento anterior e dois filhos com  o juiz.

“Ele foi um príncipe quando eu o conheci. Ele morava em Brasília e eu em Sergipe. Ele ficou uma semana lá para me ver. Eram cartas e mais cartas de amor. Ele me ligava umas 10 a 15 vezes por dia. Isso causava estranheza na minha mãe. Ele me envolveu de uma forma que eu não via nos homens do Nordeste”, lembra, comentando a primeira fase do relacionamento.

Veja o depoimento

 

Em 2004, o casal se mudou para os Estados Unidos, onde os dois cursaram inglês – o jurista buscava uma vaga em Harvard. Naquela época, quando estava grávida do primeiro filho do casal, Michella diz ter sofrido a primeira agressão verbal.

Por ter emagrecido muito, as médicas norte-americanas receitaram vitaminas a Michella. Em uma ocasião, ela se esqueceu de tomá-las, mas afirmou ao então marido que as havia consumido. Ao descobrir que a declaração não era verdade, Roberto Caldas teria surtado.

“Ele disse: ‘Você tomou as vitaminas? Tomou? Você é uma mentirosa, uma safada. Se não sabe nem cuidar da saúde do meu filho, não merece casar comigo’”, lembra.

Por estar em um país distante e longe da família, Michella disse que relevou a situação, mas já enxergava no então marido uma personalidade potencialmente desequilibrada. “Eu tinha medo. Gostava muito dele, estava realmente apaixonada por ele. Eu praticamente me ajoelhei e pedi perdão”, disse.

Também por um motivo banal, a primeira violência física ocorreu já no Brasil, em 2007, quando Michella pediu que as cozinheiras preparassem uma comida nordestina, fato que contrariava o então marido. Naquele momento, Roberto Caldas resolveu quebrar o prato com a comida na esposa. Logo após, se trancou com a então companheira no quarto e passou a puxar os cabelos dela.

Desde então, as agressões cresceram, a ponto de os colegas da faculdade – Michella cursava Direito em Brasília – passarem a perceber as alterações emocionais da estudante durante as aulas.

Uma das amigas dos tempos de faculdade, a hoje advogada Adriana Feitosa, passou a observar com mais cuidado a situação. “O ápice disso tudo foi quando eu vi a materialização. Foi quando ela chegou na minha casa após uma agressão física violenta que sofreu em Porto Alegre. Ela tinha um hematoma enorme no rosto e me contou. Pedi que tirasse a roupa para ver as outras marcas e sugeri que fotografássemos”, conta. As imagens hoje servem para embasar a denúncia feita à Polícia Civil do DF.

O caso contado por Adriana ocorreu, segundo Michella, após uma crise de ciúmes de Roberto Caldas, que passou a atacá-la com chutes e cascudos. “Ele me dizia: ‘Vá para a delegacia, vá. Se quiser, eu te deixo lá. Vão achar que você está doida, porque ninguém vai acreditar em você. Eu sou o Roberto Caldas. Sou amigo pessoal da Maria da Penha. Vão dizer que você se bateu. E ainda vou tomar seus filhos’”, conta.

Veja o depoimento de Adriana

 

Violência crescente
Michella relata que, desde então, os episódios passaram a ser recorrentes. “Meu maior pesadelo foi quando ele disse que pegaria uma faca para me matar. O agressor vai perdendo o medo com tempo”, conta. Hoje, separada do ex-marido e com a garantia dada por ele à Justiça de que concordaria com uma medida protetiva para a sua segurança, Michella tenta reconstruir a vida.

Após tomar coragem de denunciar o juiz afastado da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Michella passou a ser acusada, pela defesa do ex-marido, de estar sendo motivada por interesses financeiros.

“Isso não é verdade. Todos os meus direitos de pensão e de patrimônio são da área cível, é lá que está sendo discutido [essa situação]. As indenizações em casos penais são irrisórias. Eu o denunciei como um dever. Se está no Código Penal que você tem de prestar queixa quando é agredido, é um dever e também um direito. Eu fiz isso não só por mim, mas por todas as mulheres que convivem com isso diariamente”, finalizou Michella.

Defesa se manifesta
A defesa de Roberto Caldas disse reconhecer “serem graves as inúmeras ofensas verbais feitas pelo casal ao longo de uma tumultuada relação”. Mas, segundo o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, apesar dos áudios apresentados, não houve qualquer agressão física.

 

 

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