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Os registros de violência de autoria do juiz recém-afastado da Corte Interamericana de Direitos Humanos Roberto de Figueiredo Caldas contra a ex-mulher, a universitária Michella Marys, revelam muito além de fatos isolados ou considerados pontuais.

O Metrópoles teve acesso a toda a documentação que embasou a denúncia feita à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), para o enquadramento na Lei Maria da Penha, incluindo áudios inéditos os quais comprovariam a brutalidade verbal, psicológica e também física contra a então esposa de Roberto Caldas. O casamento durou 13 anos. Há, também, ex-empregadas confirmando terem sido vítimas de assédio sexual por parte do renomado juiz.

“Cachorra”, “safada”, “víbora”, “filha da puta”, “burra” e “gorda” são alguns dos recorrentes adjetivos usados por Roberto Caldas para se referir a Michella. Em uma das gravações, a impressão é de que o juiz agride a mulher fisicamente.

Olha aqui, ó: o vermelho que ficou no meu braço. Você está vendo? Você está vendo? Da controlada [agressão com o controle remoto da TV] que você deu. Quem me bateu foi você"

O material relata a rotina da sergipana de Itabaiana que teve de conviver com o medo, a dor, a vergonha e o constrangimento, na maior parte das vezes, reflexos de um destempero típico existente em relacionamentos de dominação psicológica. Os áudios aos quais a reportagem teve acesso revelam que, quando Michella conseguia, acionava o aparelho celular para que pudesse ter o registro do inferno conjugal que denuncia ter vivido.

Em nenhuma das brigas registradas houve reação imediata por parte de Michella. As gravações indicam que as agressões contra ela, das mais diversas formas, foram geradas por motivos fúteis.

Apesar de uma formação acadêmica e do grande prestígio nacional e internacional pela carreira jurídica em defesa dos direitos humanos e da rede de proteção humanitária, Roberto Caldas esconde, por trás das togas e dos costumes, um temperamento desproporcional, desequilibrado e covarde.

Em um dos áudios reproduzidos pelo Metrópoles, o conceituado advogado não poupa a ex-mulher de ataques extremamente agressivos. Roberto Caldas dispara críticas e xingamentos contra Michella, por aparentemente um descuido com os filhos do casal, que estariam sujos após um churrasco de amigos.

“Você é uma cachorra, safada”, grita ele em um dos momentos da gravação. “Ah, vá se fuder, caralho”, continua, após não querer ouvir a justificativa da ex-esposa. “Só separando de você mesmo. Ô, merda. Bastam dois dias contigo para ficar com o saco assim”, diz, antes de finalizar com um “cala a boca, vagabunda”.

Em outra gravação entregue à polícia, é possível perceber que o juiz se respalda em motivos banais para violentar verbalmente Michella, apesar das tentativas dela em acalmar o então marido. Na conversa, Roberto reclama da iluminação instalada no espelho do quarto do casal.

“Você é gorda e burra ainda por cima”, diz ele. A universitária tenta ponderar: “Para de me ofender. Me escuta, vamos conversar com civilidade”, insiste. No entanto, o juiz segue com as ofensas: “Não, Michella. Não quero saber. Some da minha vida”.

Jantar e ataque de fúria
Segundo relato de Michella ao Metrópoles, o primeiro sinal de violência do advogado contra ela foi durante um jantar em casa, ainda em 2007, logo após perceber que a mulher havia pedido para que as ajudantes preparassem mocotó e rabada.

Por manter dieta rigorosa, Roberto Caldas teria ficado revoltado com a escolha dela e quebrou o prato com a comida antes de se trancarem no quarto e ele puxar os cabelos dela. “Esse foi só o começo de uma vida de abusos”, contou Michella à reportagem.

A defesa de Roberto Caldas disse reconhecer “serem graves as inúmeras ofensas verbais feitas pelo casal ao longo de uma tumultuada relação”. Mas, segundo o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, não houve qualquer agressão física.

A estratégia do defensor é minimizar o episódio, atribuindo a relação conflituosa a uma disputa financeira. Mas, com farto material em áudio e os contundentes depoimentos de testemunhas dos episódios de agressão, essa linha de raciocínio vitimiza Michella duas vezes. A primeira, ao sofrer as agressões durante todo esse tempo. E agora, ao tentar desqualificar o drama vivido pela vítima, pontuando a questão como sendo meramente econômica.

Em depoimento emocionado, Michella afirma que sua luta contra o ex-marido segue em duas frentes: a cível, na qual discute a partilha de bens, e agora a penal, em que, após mais de uma década, reuniu coragem para expor as vísceras de um relacionamento francamente abusivo.

Colaboraram: André Rochadel, Carlos Carone, Luiz Prisco, Otto Valle, Rafael Campos, Samir Mendes e Suzano Almeida 

Confira áudios e transcrições de conversas gravadas por Michella. Os registros são de dias e circunstâncias diferentes. Embora em alguns casos não seja possível perceber o contexto dos diálogos, fica evidente a sucessão de abusos cometidos por Roberto Caldas. 

“Eu faço o que eu quiser”

Roberto: Filha da puta. Não te quero mais, porra. Vagabunda. A casa é minha, os filhos. Se você quiser, você sai. Vagabunda. Tem um monte de empregado. Eu faço o que eu quiser. Me dá paz. Sai daqui.

“Quem me bateu foi você”

Michella: Olha aqui, ó: o vermelho que ficou meu braço. Você está vendo? Você está vendo? Da controlada que você deu. Além de gritar com o menino porque eu mandei o menino te dar boa noite. Ridículo você, viu? Quem não vai dormir aqui é você. Quem me bateu foi você. Não fui eu que te bati. Quem te deu controlada não fui eu. Quem não vai dormir aqui é você. Que, além de fazer isso com o menino, me deu uma controlada dessa.

Roberto: Vaca.

M: Não me chame de vaca que eu não sou vaca. Não vai jogar controle em mim de novo não. Quê? Jogue na cara, jogue. Você não é doido.

R: Gordona escrota.

M: Gordona escrota. Eu sou o quê? Gordona escrota? Gordona escrota é você. Eu sou gordona escrota, mas eu não faço isso com a criança nem pego controle e jogo na esposa pra ficar vermelho o braço dela. Você é um doido, isso sim.

“Você é uma cachorra, safada”

Michella: Vou fechar aqui o carro. Eu falei se você ouviu o áudio. Até o Baduí aquele dia do churrasco…

Roberto: Não quero, porra! Foda-se. Foda-se

[barulho de rádio]

M: Ele fica lá todo o tempo? Porque ele fica indo e voltando lá para a cozinha. Quando eu desci do elevador, estavam duas meninas… duas meninas… [inaudível]. Uma de joelho e a outra sentada. Abraçada com ele, sentada, se agarrando. Entendeu? Foi isso que eu falei? Não falei que eles estavam em cima do sofá e falei que estavam todos lá na sala. Falei o seguinte: adolescente não tem cuidado com as coisas, entendeu? Não tem cuidado com as coisas. Ali, não é o tipo de móvel para estar adolescente bêbado num dia de churrasco, entendeu? Com as mãos [inaudível]. Foi isso que eu te falei, que não era lugar e eu não acho que seja lugar. Porque quando o Roberto está lá com os amigos, eu peço pra eles ficarem fora, tem uma varanda enorme ali. Tá bom o clima. Leia direito o que eu falei que você vai ver. Eu não tenho feito nada lá em casa porque estou numa fase que eu quero sossego e tranquilidade.

R: [inaudível] A vida não é sem turma não.

M: Dele fazer tudo bem… Se você ouvir os três vídeos, eu falei assim “até o Badauí, naquele churrasco do Badauí, ficou todo mundo na varanda”. Não fica na sala dele.

R: Foda-se. Você perde a legitimidade de falar qualquer coisa razoável porque você é uma mentirosa.

M: Menti o quê?

R: Desse negócio… de ir em cima do sofá, da mancha. Mentirosa, cachorra.

M: Leia de novo que eu só falei assim…

R: Você é uma cachorra, safada.

M: Os meninos estão lá…

R: E pra quê… Se era uma mancha que existia antes pra que você falou?

M: Eu não falei assim, eu falei já está manchado e os meninos sujos de churrasco.

R: [inaudível]

M: Não foi isso.

R: Ah, vá se fuder, caralho

M: Eu disse que ali não era lugar de estar menino de churrasco, bêbado… Roberto… Foi isso. Não falei nada demais.

R: Só separando de você mesmo. Ô merda. Basta dois dias contigo pra ficar com o saco assim…

M: O que eu fiz demais? Eu só falei a verdade, igual Roberto e Benício. Não deixo eles ficarem alí…

R: Foda-se! Olha a diferença…

M: Os meninos com mão de gordura de churrasco

R: Foda-se. Não minta. Você pondere isso, você pode até falar com ele, pondere, agora não fala esse negócio

M: Eu não menti nada.

R: Que eu já chego…

M: Ai, doeu

R: Doeu é o caralho. Foda-se! Estou te odiando. Ódio da minha vida que foi eu me amarrar nessa merda. Não vou mais nessa porra não. Você representa o casal

M: Você vai. Eu não menti nada.

R: Eu vi o bilhete, foi pra você. Não sei pra que você mandou pra li. Pra se mostrar? Que esses filha da puta, bandido, mandam pra você. Cambada de canalha.

M: Quem me mandou foi a Cris, é sempre a mulher quem manda.

R: Pois é.

M: Você está exagerando aqui, porque eu não menti nada.

R: Pra que você falou aquilo? Vagabunda, você deu a entender, vagabunda… Você faz de caso pensado.

M: Você sabe muito bem de que mancha aquele jantar foi… Você sabe muito bem.

R: Então, e eu pensei lá que era aquela, sua vagabunda.

M: Eu falei, já está manchado, pra manchar mais.

R: Não senhora. Você deu a entender.

M: Você lembra, foi no dia do jantar.

R: Cala a boca, vagabunda.

M: Minha Nossa Senhora, eu ponderei.

R: Eu vou me separar de você, eu não aguento. A única pessoa na minha vida que eu tenho conflito é você.

M: Eu não menti, não fiz nada, eu só ponderei.

R: Cala a boca.

M: Eu só comentei…

R: Cala a boca! Cala a boca.

“Seu padrão é mentira. É uma doença”

Michella: Eu pensei, pô. Minha mãe ainda disse…

Roberto: Não adianta você dizer que pensou. Você é a responsável… É você a responsável pelos meninos. Se você quer ajuda, você pergunte. Agora, a responsabilidade é sua. Então, mate a outra que te informou errado.

M: Se a da Maria Eduarda termina dia 11 e a dos meninos…

R: Para de falar idiotice. Cadê o ar-condicionado? Vagabunda. Não posso confiar em porra nenhuma, ainda bem que não te deram a chave. [inaudível]

M: E, aí? Cancela a viagem deles?

R: [inaudível]

M: Roberto, se Maria Eduarda que é mais importante foi dia 11, agora, vou dizer uma coisa para você. Todo ano, na última semana de aula, eles não fazem nada

R: Pois é…

M: É só para os pais terem onde deixar… Eu lembro que o ano passado era até optativo ir na última semana, era até optativo. Quando eu fui lá na escola, Priscila falou que…

R: Chega! Chega. Cancela e ninguém vai pra lugar mais nenhum. Eu não sou idiota para estar gastando dinheiro toda hora. É só isso.

M: Posso falar…

R: Era sua responsabilidade. Vai tomar no cu.

M: Na última semana, não tem nada.

R: Agora, você vem com essa, então devia ter resolvido sozinha, sem vir me falar. Eu não acredito em você. Pode chamar quem você quiser. Você faz as coisas tudo arrumadinho. Seu padrão é mentira. É uma doença.

[inaudível]

R: Eu tenho o que fazer, vai pra lá, vagabunda

“Se sua mãe quer ser gorda, deixe ela”

Roberto: Porra, mesmo assim, não tem que fazer jantar. Você não tem voz aqui, Michella.

Michella: Eu não sabia que tinha feito massa. Não mandei ninguém fazer massa.

R: Se a Graça fez, tem sua autorização. Ela disse que quando eu viajo, a coisa aqui degringola.

M: Vou perguntar a ela se disse isso.

R: Pergunte na minha frente. E não vá coagir a outra não. O dia que eu vim, eles tavam comendo miojo. Você não é mãe para ajudar na dieta. Olha ele comendo aqui.

M: Eu não tenho culpa que você brigou com o Pashalsky de manhã e tá querendo descontar em mim não. Por favor.

R: Ai meu Deus do céu. Eu tô brigando porque só tem idiota ao meu lado. Só isso. Tô brigando pelas suas coisas. Aqui ó: o menino com mais de 50kg. Pare de comer isso. Bote isso lá. Isso é massa…

M: Vou pegar só os camarões.

R: E cuide você. Leve pra lá, Giselle. Isso é doença, você está engordando, vai ter pressão alta, diabetes. Bota na cabeça, porra. Se sua mãe quer ser gorda, deixe ela. Isso está em livro. Eu já disse para não fazer massa aqui em casa. Enquanto o Roberto estiver em dieta, ninguém. Querem comer, comam fora. Vocês estão fazendo uma dieta, vem com um negócio na frente para o outro. Se você não colabora porque o menino vai em nutricionista, em médico. Idiota.

M: Chame Dona Graça de idiota. Foi ela quem deixou.

R: Eu chamo você, porque você que tem…

M: Eu não mandei ela fazer nada. Chama ela. Quando ela chegar segunda-feira, vou dizer que Roberto disse que é idiota quem faz.

R: É mentira sua porque eu a respeito porque ela me atende, entendeu?

M: Te atende tanto que você está aqui e ela fez com você aqui…

R: Ah, foi…

M: É.

R: Porque você deve ter dito.

M: Eu não disse nada.

R: Tá bom, pois eu falo com ela. Você é a dona da casa, é mãe e você nem liga quando ele está comendo aqui. Só isso. Ela me respeita mais do que você.

“Ele, tipo, fez assim pra me beijar”, diz empregada

M: Pode falar, Luana. Pode falar?

[inaudível]

L: Eu dei aviso de sair, dia 3.

M: 3 de julho?

L: Não, de outubro. É, não sei se ela passou.

M: Nunca me passou.

L: Falei, vou lembrar dona Michela.

M: Mas você deu o aviso por quê?

L: Porque estou muito cansada, dona Michela, muito serviço.

Outra pessoa: “por que você não fala a verdade, Luana? Por que que você não fala a verdade que você vai sair?

L: Então, deixa eu falar. A senhora viu o tanto de exame que ele me passou?

OP: Não, não é essa a verdade.

L: É… Eu estou muito, eu vou passar em psicólogo, a senhora viu…

M: Ó, Luana, deixa eu te falar uma coisa, eu confio muito em você.

L: Não, deixo a senhora falar depois a senhora vai me entender.

M: Eu confio muito em você, espero continuar confiando, entendeu? Eu espero que se… eu até nem queria que você fosse embora, eu vou te perguntar uma coisa e eu quero que você seja sincera, porque a verdade eu já sei. Eu quero ouvir da sua boca. Lembra que eu te falei ontem que eu sabia de um negócio e queria saber da sua boca?

L: É verdade.

M: Então, é isso. Então, assim, é a verdade eu já sei tudo, não adianta você negar, mas quero ouvir da sua boca. Pra mim o seu emprego está garantido, se você quiser ficar.
Estou gostando do seu serviço, você está indo muito bem, você está indo melhor na casa do que quando você estava com os meninos, eu acho que lidar com criança é difícil pra você. Você não tem tanto jeito assim pra falar…[batem à porta] Oi? Quem é?

G: O Roberto… o Gabriel convidou o Roberto pra dormir lá, tudo bem?”

M: Tá, daqui a pouco eu falo, Gisele.

G: Mas pode não?

M: Pode, mas depois que eu falar com ele. Então assim, por mim você não vai embora, por mim você fica porque realmente nesse serviço aqui você está indo de boa. Só que eu vou te fazer uma pergunta, você entendeu? E eu já sei a resposta, só que eu quero ouvir da sua boca. Até pra provar a confiança e a sua verdade porque eu já sei a verdade. Roberto deu em cima de você?

L: Roberto pai? Sim.

M: Deu em cima de você, né?

L: Sim, deu.

M: No banheiro, não foi?

L: Sim, é, não tenho muita lembrança porque eu preferi não… Entendeu? Eu não, fiquei muito assim, assustada, fiquei muito assustada.

M: Isso mexeu com você de alguma forma?

L: Sim, psicologicamente, até que eu estou te falando, eu vou passar em psicólogo.

M: Quer dizer que o fato de ele ter dado em cima de você te afetou tanto psicologicamente que você está procurando um psicólogo por causa disso

L: Não, não é só isso não, é até como estou falando para a senhora. Muito antes disso já, eu já vinha passando mal na casa, pode perceber que eu faltei duas semanas…

M: Não, mas isso aí, você acabou de me dizer agora que você ficou mal por causa disso e que ia procurar psicólogo.

L: Também, também.

M: Como é que você se sentiu quando ele fez isso?

L: Eu me senti o que, assédio, eu já sei que isso é assédio, já sei que isso é assédio. Mas é aquilo, eu falei assim… Eu não esperava, a questão é que eu não esperava, entendeu? Eu fiquei muito assustada, porque eu não esperava. É que eu já vi o que… eu presenciei o que tinha acontecido, eu estava ali naquele dia, então eu achei que foi ali e pronto

M: Eu também achava que era uma coisa da hora, da Luana, que a Luana tinha seduzido ele. Eu achei isso e hoje em dia eu já acho que não é isso. Eu acho que ela foi errada também.

L: Claro, com certeza!

M: É, não é? Porque se ele deu em cima, ela cedeu porque ela quis e ela estava se aproveitando disso. Mas quando eu soube de você, eu fiquei muito triste, porque eu acho que é muito penoso a pessoa passar por isso, entendeu?

L: É, eu fiquei assustada. Então, o que acontece, por isso foi que eu não cheguei até você e falei.

M: Deveria ter falado.

L: Então, por quê? Porque você já passou por aquela situação, você está entendendo? Porque eu não quero e eu não desejo para os outros. Eu já achei que você passou demais, eu vi o seu sofrimento na sua cara, entendeu? Eu via o que você passou ali, então eu pensei: “cara, vem mais uma dessas?”.

M: Não. Ele fazer isso depois do que foi descoberto?

L: Então, eu pensei assim: “mais uma? Mais uma?” Mas é aquilo, eu pensei assim: “eu não vou falar pra ela por causa disso, entendeu, porque ela já passou por essa situação e isso é muito triste, isso é muito chato”. Eu até fiquei com medo da senhora me interpretar mal e não acreditar em mim. Eu fiquei com medo pra ser bem sincera, você está entendendo? Foi bem rápido, foi uma coisa que foi “vapt vupt” e eu falei “não”, falei “não” pra ele na hora.

M: Mas assim, como é que foi isso, você me contou. Por isso que eu queria ouvir da sua voz, porque assim, você tem que tomar muito cuidado com as pessoas, entendeu? Às vezes quem você confia não é uma pessoa confiável, então assim, já chegou aos meus ouvidos que você quem estava dando em cima dele. E eu tive certeza que não, por isso que eu falei, porque se eu tivesse certeza que era, eu não chegava pra você conversando desse jeito ameno, dizendo que eu queria que você continuasse na casa. Então assim, eu não acreditei nisso, né. E foi uma pessoa que trabalha na semana, eu não vou dizer nomes porque não vale a pena. Eu fiquei muito chocada, entendeu?

L: Pois é, mas é justamente isso, eu fiquei também, imaginei que a senhora ficaria se soubesse e nem questão de fiquei com medo… ah, fiquei com medo de falar por causa de um motivo, pra querer, porque eu já vi que você passou por toda aquela situação, não foi legal, foi chato, isso é muito triste, isso é uma coisa…

M: Você contou isso pra alguém?

L: Eu falei pra Neuma.

M: Você falou pra Neuma.

L: Eu falei, porque, como governanta, eu acho que ela tinha que saber, então eu falei.

M: Você lembra quando foi isso? Quando foi mais ou menos a data?

L: Cara, eu não lembro quando foi a data.

M: Mas mais ou menos, assim, foi depois do episódio da Luana ou foi antes?

L: Hã? Depois do que?

M: Foi depois do episódio que eu descobri dele ou foi antes.

L: Foi depois.

M: Foi depois da outra Luana?

L: Foi depois.

M: Depois?

L: Muito depois.

M: Mas foi mais recente agora? Porque a gente já está no dia 20 de outubro.

L: Já tem algum tempinho.

M: Foi em setembro, em agosto?

L: Agosto, eu acho.

M: Foi logo depois, né?

L: Foi logo depois, foi agosto, não foi não, porque foi tipo, vocês ficou (sic) bastante tempo de viagem, ele fica bastante tempo de viagem, por isso que eu estava falando, eu vou até confessar pra senhora, eu evitava ficar no mesmo ambiente que ele estava. Você entendeu? Eu limpava aqui, mas tipo, quando eu via que ele chegava eu saía.

M: Você saía correndo.

L: É, porque… Só que ele também não fez mais depois que eu falei “não”.

M: É porque você falou um “não” muito assertivo, muito firme e ele ficou com medo de você fazer alguma coisa, né?

L: Ele cortou também, pra lhe falar que ele continuou, ele não continuou…

M: Mas como que foi assim, ele chegou e te chamou pra sair ou ele chegou vindo por trás, ele chegou tentando te beijar, como é que foi?

L: Não, ele, tipo, fez assim pra me beijar.

M: Pra te beijar? Misericórdia!

L: Só uma coisa assim, entendeu?

M: Quer dizer que não foi nem uma coisa que ele chegou falando com calma não, ele já chegou meio que puxando pra beijar.

L: Não…

M: Não, pode falar, eu não vou ficar chateada.

L: Não, eu sei, foi só uma coisa assim e eu tipo notei que ele estava me olhando com outros olhos porque mulher conhece, mulher conhece, entendeu? Eu já estava… eu não esperava, eu queria não acreditar nisso, eu queria não acreditar.

M: Então, ele deu em cima de você, deve ter dado em cima de outras também.

L: Com certeza!

M: E quando você falou com a Noema, ela reportou que ele já tinha feito com ela também?

L: Não, ela me falou que era pra eu falar “não” pra ele, pra ele se colocar no lugar dele, eu falei pra ela naquele momento que iria. E ela me aconselhou: “Luana, não faça isso, você está entendendo? Porque é você falar ‘não’ e ele vai ver que você não vai aceitar, que você não é esse tipo de pessoa. Você está me entendendo?” Ela me deu esse conselho, que esse tipo de coisa não é legal você sair contando pela casa, não é legal contar pra outros funcionários. Porque eu falei com ela no dia seguinte porque eu fiquei muito assustada. Alguém tem que saber disso, eu não vou saber dessas coisas e ficar oculta. Alguém tem que saber então eu vou falar pra Neuma porque ela é governanta, porque eu já falei pra ela comunicando que eu iria sair, entendeu?

M: É, mas aí você tinha que ter falado pra mim, entendeu? Falar pra alguma pessoa que é funcionária também, aí a conversa cresce.

L: É, mas eu fui pelo fato do…

M: Da governanta.

L: É, eu olhei por esse fato, é igual estou falando pra senhora, eu pedi pra sair, nesse exato momento, entendeu? Só que ela me perguntou o motivo, aí ela “não, Luana, não é assim, você fala pra ele ‘não’, que você não é esse tipo de pessoa, você está aqui na casa para trabalhar, para prestar o seu serviço.” Mas eu estava decidida pra sair mesmo, mas ela conversou comigo e falou pra mim que se por uma caso ele viesse a fazer novamente…

M: Isso foi no banheiro ou foi no closet?

L: Acho que foi no banheiro, não sei da lembrança porque não quis ficar muito mais, mas eu creio que foi no banheiro.

M: Tá, Luana, mas aí o que quero te dizer é que como estou te dizendo agora, não foi com uma pessoa só, ele deve ter feito com várias! Porque assim, eu achei que a Luana, a outra Luana, tinha sido um caso isolado, entendeu? Tipo assim, foi uma coisa de que ela assediou ele, tipo assim, ela se jogou pra cima dele e o homem é fraco e acabou caindo. Mas assim, quando eu soube que ele fez isso com você, te puxou e tentou te beijar dentro do banheiro…

L: Assim, ele não me puxou fisicamente…

M: Não, o que eu digo é tentou beijar, se topar…

L: Rolou um assédio, uma coisa assim…

M: Ele não chegou a te pegar pelo braço.

L: Não, é assim, quando eu notei que alguma coisa…

M: Ele tentou te beijar, quando você notou que tinha alguma coisa, você já deu o “não”.

L: É, eu falei o “não”.

M: Então, assim, isso mostra que não foi só Luana e que talvez o episódio da Luana não tenha sido iniciativa dela, mas dele. E ela caiu, porque ela também queria, porque ela também provocava. Então, foi um erro duplo. Nem ele errado só, nem ela errada só.

L: Os dois.

M: Mas aqui que eu queria te dizer, você não quer repensar essa coisa de ir embora?

L: Pois é, senhora Michella, eu avisei pra Neuma no dia 3, e é por isso que eu falei, vou conversar com a senhora Michela, porque a senhora Michella está muito tranquila, não falou de ninguém assim, não chegou nada?

M: Nada, não chegou nada.

L: Só que ela tentou me convencer de não sair, entendeu? Ela tentou me convencer “não, Luana…”, é muito serviço, senhora Michella, eu não estou dando conta, pra ser sincera.

M: É, mas depois a gente conversa sobre isso. É…

L: Eu passei pra ela e ela “não, Luana, mas deve ser que é só essa semana” e eu falei não…

M: Não, a Neuma não me falou nada, estou sabendo por você, não vou falar pra ela que você me falou nada.

L: Deve ser porque ela pensou que eu queria continuar.

M: Depois você fala com ela pra não parecer que você foi me fofocar, entendeu, depois você fala com ela, você falou pra dona Michela que eu dei o aviso? Porque ela está tranquila, não me falou nada.

L: É, porque hoje é dia 21? 20? Porque se eu dei o aviso dia 3, eu estaria até dia 3. Mas o fato é só que é muita coisa, é muita coisa.

M: E aí a Neuma não me falou nada. Não entendi por que ela não me falou.

(…)

M: Mas ele falou o que pra você assim, na hora que ele tentou te beijar?

L: Eu falei assim, não estou acreditando nisso, não estou acreditando nisso e ela não falava nada, ele ficou assim, ele ficou meio assustado. Aí eu falei assim “É justamente por isso que eu ponho dois shorts, que eu ponho blusa folgada, que eu não me arrumo. A Luana se arrumava muito.

M: Com umas calças que dividiam a periquita, né?

L: Pois é! Nunca, se eu puser uma calça legging eu vou por uma blusa mais grande (sic), já pra poder.. está entendendo? Decote eu não sou muito de usar, maquiagem também não. O que eu faço? Eu passo meu antitranspirante, um pouco de perfume, escovo meus dentes. Higiente mesmo, né? Então.

M: E quando você disse isso “é por isso mesmo, Dr. Roberto, que eu uso dois shorts, que eu uso tal coisa, ele não falou nada?”

L: Não, aí ele viu também que, ele se colocou no lugar dele.

M: Nem pediu desculpas?

L: Não, porque, quando eu falei, eu saí

(…)

M: E depois nos outros dias, olha na sua cara como se nada tivesse acontecido?

L: Normal, normal. Eu acho que ele viu que eu não sou o tipo de pessoa…

M: Que ele não está acostumado a lidar.

L: Ele me olha com o olhar, tipo, é patrão, funcionário e ponto.

M: E depois ele não ficou mais te olhando de um jeito diferente. (…) Eu peço desculpas então por ele porque isso é uma situação muito humilhante. Nessa situação de patrão e funcionário, eu acho humilhante. (…) Uma vez eu trabalhei com um juiz e eu era estagiária e só porque ele era o juiz, entendeu, e eu achei muito humilhante isso. Então, se ele não pediu desculpas, eu peço por ele. E pode ficar tranquila que isso não vai sair daqui. E eu peço a mesma coisa também, que você não leve adiante, tanto é que se eu estivesse chateada eu ia dizer: “vai embora daqui” e ia te xingar.

(…)

L: Eu também peço desculpas por não ter passado, mas é o que te falei, eu me coloco no seu lugar, você está entendendo?

M: O fato de você ter me procurado e contado, me prova que você é vítima, entendeu? Tanto é que você me contou.

“Você é gorda e burra ainda por cima”

Michella: [inaudível]. Sai, Maria Eduarda. Posso ligar a luz rapidinho para pegar um remédio? Você está muito estressado.

Roberto: Tô. Estou cansando de você só me sugando. Sugando o meu dinheiro, tudo. Não vejo você fazer nada nessa casa.

M: Estou fazendo, sim. Estou trabalhando, fazendo faculdade.

R: Você passa o dia inteiro fora de casa. Você malha. Malha inclusive meio-dia.

M: Por que em outro horário ela (?) não pode.

R: À tarde quando os meninos estão aqui você está na faculdade. Mudou para o período da tarde por sua conveniência. Entendeu? Os meninos estão aqui na mão de empregada. Olha lá se elas estão cuidando desses meninos.

M: Lógico que estão. Eu sento com eles, converso com eles. Eu durmo com eles. E essas mulheres que trabalham?

R: Uma horinha que você fica com eles. Mulher que trabalha dá muito mais atenção que você, Michella.

M: Nossa.

R: Eu vejo, eu vejo. Final de semana eu toco os meninos no eletrônico e na televisão. Diz que dá regra. Você é uma mentirosa. Mentirosa. Eles ficam o tempo todo aí. O dia inteiro aí.

[barulho]

M: Ai, Roberto!

R: Eu vou sair de casa, porque eu não aguento mais. Realmente a única coisa ruim da minha vida é o casamento. Esse casamento é uma merda. Você não faz a mínima participação. É uma pessoa doida, egoísta. É um ralo de dinheiro. Sabe, é o tempo todo… até a malhação é cinco dias por semana. Chega sempre atrasada. Vai à metade da aula.

M: Eu não vou apenas à metade da aula.

R: Tá bom. Tá bom. E sua psicóloga flexível que quando você falta tem que pagar?

M: Ela nunca me descontou um horário que eu não pude ir, porque às vezes ela também não pode. Então, a gente faz assim. Eu faço dois dias a mais por apenas R$ 400 que ficou super barato.

R: Que baratíssimo. Parabéns.

M: Agora, desde que você chegou estou fazendo tudo. Tenho meus erros? Tenho. Não estou dizendo que eu sou perfeita. Mas estou economizando. Chamei todos os empregados para conversar.

R: Cadê o controle de horário de empregado? Cadê? Continua?

M: Continua.

R: Me mostra.

M: Tá lá em baixo

R: Me mostra!

M: Vou pegar agora.

R: Pegue agora para me mostrar.

M: Não vou descer porque está tarde. Mas eu falo com os empregados, converso…

R: Isso eu não quero saber não. Eu vejo. Eu não sou idiota

M: Você não vê que anda tudo apagando?

R: Você é uma fariseia, para chegar na minha cara, até para o meu desconforto, porque eu gosto das coisas acesas onde eu tô. Agora, o que eu falo é do desperdício. Aquele monte de lugar que você não está…

M: Eu disse: “Chama o Marcelo, porque ele está acendendo tudo”.

R: Folgue. Tire a lâmpada.

M: Boa ideia Essa semana eu falei com ele.

R: Você é gorda e burra ainda por cima.

M: Para de me ofender. Me escuta. Vamos conversar com civilidade.

R: Não, Michelle. Não quero saber. Some da minha vida. Quero que você se enjoe de mim. Depois diz que eu sou agressivo. Chega. Chega.

M: Tá. Tá. Estou falando de hoje. Eu disse: “Olha, Marcelo, está ficando ligada a luz do espelho.

R: Para que você colocou essa merda. Fica esquentando a cara da gente. Gasta pra cacete.

M: Você autorizou.

R: Eu autorizei. Eu não tinha ideia que luz era essa. Cada uma deve ser R$ 200, R$ 300.

M: A moça mostrou e a gente aprovou. Eu não sabia que era desse tamanho.

R: Mas a minha é completamente diferente da sua.

M: Como você não sabia. Você aprovou junto comigo em reunião, em um desenho que ela fez. Aqui tem três luzes e aqui tem três luzes. Então, deixa eu falar. Quando eu cheguei disse: “Marcelo, quando eu acendo aqui acende tudo. Tem como colocar duas separadas: uma para eu acender só a do teto e outra para eu acender quando precisar do banheiro?” Viu como a coisa melhorou. Agora, eu acho que você está muito estressado, por isso vou desculpar você. Você está sem dormir e eu vou tentar compreender você.

R: Eu estou mesmo, Michella. Sabe o que me incomoda mais? É essa porra dessa vida.

M: O cara veio aqui duas vezes e não conseguiu arrumar.

R: Então, troca essa porra. Troca essa porra. Essa internet, nada funciona.

M: Eu já falei com o cara. Ele vai vir aqui para dar uma olhada nos fios. Não é por falta de fazer. Não é porque não fui atrás. Já fui duas vezes. A internet o homem já veio três vezes. A culpa não é minha.

R: Você é incompetente.

M: Isso você não pode fazer. Porque se eu não tivesse ido atrás tudo bem, mas eu fui.

R: Vou me desfazer dessa casa e alugá-la imediatamente. Até hoje nada de câmera, porque você não quer para eu não ver.

M: Eu já marquei para ele vir quarta-feira para o homem ver…

R: São quatro anos e nada dessas câmeras.

M: Estavam funcionando… calma

R: Calma? Cadê o som dessa merda que não bota? Cadê o som dessa merda que não tem?

M: Foi um problema de energia do gerador que queimou tudo. Estava funcionando. Até que o menino passou a senha do negócio.

R: Você já viu o seguro da Caixa? Resolveu o negócio do lote?

M: Já vi o negócio do lote. Esta semana mesmo liguei para a Nicole.

R: Estou falando do lote invadido lá do Iate.

M: Eu liguei várias vezes.

R: Já está tudo resolvido. Eu até te mandei o e-mail do cara. Você entrou em contato com ele?

M: Eu liguei e ela não me retornou.

R: Ela não te retornou e você deu graças a Deus que ela não retornou.

M: Eu passei umas 20 mensagens para a Mônica. Vou pegar o meu histórico para você ver quantas mensagens eu mandei para essa mulher.

R: Daí você parou, né? Parou. É tudo assim, Michella.

M: Deixa eu te falar uma coisa…

R: Não quero mais não. Chega. Estou cansado.

M: Olha, só vou falar uma coisa pra você.

R: Chega, antes de eu ficar nervoso.

M: Escuta…

R: Eu estou a ponto de explodir em cima de você.

M: Acho que você tem que se acalmar. Você está querendo descontar em cima de mim. Pense sobre isso. Aquele negócio do chocolate não era para você ter feito aquilo na frente dos meninos: de me chamar de idiota ali. E nem pra você me chamar de bandida e calhorda.

R: Sai daqui.

M: Maria Eduarda ficou aos prantos lá dentro. Vou pegar só o meu travesseiro.

R: É eu já pensei. Não era para eu ter feito aquilo.

M: Você não consegue se acalmar, porque você não dorme, Roberto.

R: Não é isso não. Você sabe que sou nervoso, porque sou infeliz com você. É só isso.

M: É isso mesmo.

 

 

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